Obama adverte a Rússia de que uma intervenção na Ucrânia "terá custos"

O presidente dos EUA não especifica que medidas poderia adotar seu país e assinala que uma violação da soberania do país eslavo seria "desestabilizadora"

Barack Obama, durante sua fala sobre Ucrânia.
Barack Obama, durante sua fala sobre Ucrânia.JONATHAN ERNST (REUTERS)

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, advertiu a Rússia de que qualquer tipo de intervenção militar na Ucrânia terá consequências. O governante reagiu assim às informações de que homens armados tomavam os principais aeroportos e edifícios oficiais de Crimeia, uma região ucraniana de fortes raízes soviéticas. Obama não deixou claro que tipo de medidas adotaria seu país caso se confirme a interferência russa.

“Uma intervenção militar na Ucrânia terá custos”, ressaltou o presidente que assegurou que está profundamente preocupado com as informações da participação russa no país europeu. Em um breve pronunciamento ante a imprensa, que não estava previsto, Obama se mostrou taxativo sobre “os efeitos desestabilizadores de uma violação da soberania ucraniana", uma circunstância que, ressaltou, não interessa nem aos EUA, nem à Europa nem à Rússia e que “representaria uma profunda interferência em assuntos que unicamente devem ser determinados pelo povo da Ucrânia.

A fala do presidente foi a última das advertências que membros de sua administração fizeram ao Kremlin sobre uma possível intromissão no complicado processo político que está vivendo o país e que se acelerou nos últimos dias com o abandono do poder e do país do anterior presidente ucraniano, Viktor Yanukovich. Pela manhã, o secretário de Estado, John Kerry, falava com seu homólogo russo, Sergei Lavrov, -pela segunda vez em dois dias- para esclarecer quem se encontra por trás das tropas armadas de Crimeia, um dia depois de ter assinalado que uma violação da integridade ucraniana “seria um grave erro”. Na última quinta-feira, o secretário de Defesa, Chuck Hagel, pedia, desde Bruxelas, que a Rússia se abstivesse de realizar “ações provocativas”.

O governate norte-americano não concretizou que medidas estaria disposto a adotar caso se confirme que a Rússia violou a integridade territorial da Ucrânia. Em Washington, vários legisladores mostraram-se a favor de não desdenhar uma resposta militar. “Os EUA deveriam ter uma resposta armada como uma opção”, assinalou na quinta-feira o republicano Adam Kinzinger, membro do Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara de Representantes, depois de se saber que tropas russas realizavam manobras perto da fronteira com a Ucrânia. Para além da beligerância no Capitólio, a advertência de Obama é mais um chamado a uma solução diplomática do conflito.

O presidente ressaltou que os EUA seguirão trabalhando com a comunidade internacional, incluindo a Rússia, para tentar estabilizar o que qualificou de “situação instável” na Ucrânia. O presidente lembrou que tratou do assunto com seu homólogo russo, Vladimir Putin e que o vice-presidente Joe Biden assegurou ao primeiro-ministro ucraniano o pleno respeito de Washington a sua soberania.

Neste sentido, Kerry pediu cautela. “A questão é comprovar se o que passou supõe um cruzamento da linha vermelha e neste sentido vamos ser muito cuidadosos na hora de fazer qualquer tipo de julgamento sobre o caso”. Lavrov assegurou ao secretário de Estado, de acordo com sua versão, que a Rússia “não tinha nenhuma intenção de violar a soberania de nenhuma nação”. “Eu lhe deixei claro que essa afirmação podia ser mal interpretada nas atuais circunstâncias”, especificou o chefe da diplomacia norte-americana. Obama advertiu que os EUA vão seguir com muita atenção a sucessão dos acontecimentos.

Desde o recrudescimento do conflito na Ucrânia nas últimas semanas, os EUA trataram de eludir qualquer tipo de confronto direto com a Rússia sobre a situação. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, antigo correspondente da revista Time na Rússia, negou nestes dias qualquer comparação com a época da Guerra Fria.

O da Ucrânia é o último episódio de tensão entre os dois países em uma relação que foi se deteriorando progressivamente com seus desencontros sobre Síria e Irã, primeiro, o asilo temporário ao ex-funcionário da NSA, Edward Snowden, no último inverno, e a oposição à legislação antigay evidenciada durante os Jogos de Inverno de Sochi com a delegação do baixo escalão político enviada pela Administração Obama.