Governo Dilma Rousseff

Dilma tenta recuperar crédito em encontro de Bruxelas

A presidenta Rousseff escolheu a dedo cada palavra em sua apresentação em Bruxelas, e abordou a crise na Venezuela. Por ora, a retórica só faz o Governo ganhar tempo

A presidenta Dilma Rousseff na Cúpula Brasil UE
A presidenta Dilma Rousseff na Cúpula Brasil UE O. Hoslet (EFE)

Na coreografia das relações diplomáticas, o Brasil e a União Europeia ensaiaram hoje mais um passo em nome de um acordo de livre comércio entre o velho e o novo continente. A presença da presidenta Dilma Rousseff, durante o encontro em Bruxelas, tinha o objetivo de dar um recado claro: o país está no jogo, aberto ao projeto ambicioso de uma redução de tarifas nas relações comerciais com as 27 nações, responsáveis por comprar 20% das exportações brasileiras. “As negociações entre a União Europeia e o Mercosul são promissoras. Há complementaridade entre as duas regiões, para melhor aproveitamento do potencial mútuo”, discursou a presidenta Rousseff, destacando a relevância estratégica para a retomada do crescimento econômico neste período.

O discurso aos europeus trouxe algum alento. Julio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, acredita que o gesto em si da presidenta comparecer à Cúpula já é um pré-requisito importante para uma boa negociação. “É uma indicação de que o Brasil volta a se preocupar com a sua inserção externa. O resto é consequência”, avalia.

A movimentação dos países vizinhos em torno de acordos, como é o caso da Aliança do Pacífico, vinha aumentando a ansiedade das lideranças empresariais com a letargia brasileira para sair da prisão que o Mercosul estabeleceu. A visita da mandatária nesta segunda-feira, ainda que vista com cautela, alimenta uma esperança de que o futuro pode ser diferente. “O país, que estava de costas para o mundo, começa a ficar de frente”, acredita Almeida.

Assim como fez na reunião do Fórum Econômico de Davos, Rousseff reforçou o compromisso do Governo com o combate à inflação e a política fiscal mais responsável. Novamente, falava para os céticos investidores globais. Também tocou no delicado assunto Venezuela. Trata-se de um país amigo do Brasil, mas onde a desordem civil, as mortes de manifestantes e os discursos vazios de Nicolás Maduro passam a exigir um posicionamento mais claro do Governo brasileiro.

Rousseff procurou responder às expectativas com palavras ponderadas, ainda mais depois que os países do Mercosul assinaram um documento de apoio a Maduro, o que criou mal estar na comunidade internacional. “Não cabe ao Brasil discutir a história da Venezuela, nem o que ela deve fazer… não nos manifestamos sobre a situação interna dos países”, disse, lembrando que a Venezuela não é a Ucrânia. Porém, apontou o diálogo, o consenso e a construção democrática como as melhores alternativas à ruptura institucional. “Quando há o vazio político, é possível que outro o ocupe. Mas há sempre um outro candidato que busca ocupá-lo. Ele se chama caos”, disse Rousseff.

Um belo discurso, embora a presidenta ainda precise lidar com o seu caos particular. As manifestações de rua no Brasil foram desidratadas, mas elas continuarão a perturbar o último ano deste mandato de Rousseff. Em conversa com jornalistas, ela anunciou que um projeto vai para o Congresso na semana que vem para limitar a atuação de vândalos nas manifestações. “Não podemos ser complacentes”, disse.

A presidenta precisa, ainda, lidar com o caos político, e a queda na avaliação positiva do seu Governo, conforme apontaram as pesquisas de opinião divulgadas nos últimos dias. Por ora, a passagem por Bruxelas faz a mandatária ganhar tempo perante seus críticos. Mas, muita água vai rolar até outubro quando vai enfrentar nas urnas o veredito final sobre a sua habilidade no cargo.

Laços submarinos

Ainda que a proposta do bloco europeu para a zona de livre comércio não tenha sido aberta, o Brasil não voltou de mãos abanando. O acordo de estender um cabo submarino, entre Lisboa e Fortaleza, para facilitar as comunicações entre os continentes revela que, nos bastidores, o Governo brasileiro e a Europa continuavam costurando laços para se aproximar. “É uma boa sinalização. Agora é esperar o próximo passo”, diz Ingo Plöger, presidente do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal).

Marília Maciel, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Fundação Getúlio Vargas Direito do Rio de Janeiro, observa que as negociações pelas construção desses cabos estavam em andamento, mas as conversas foram aceleradas depois do “Snowdengate”. “Esse projeto faz sentido do ponto de vista da infraestrutura. Há convergência entre o Brasil e a Europa, que vão debater em conjunto a governança global da internet em abril deste ano”, diz Maciel.

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