“Estávamos todos apavorados”

Márcio Moretto, professor da USP que foi preso no protesto de ontem, relata sua experiência no cerco policial e na delegacia

Manifestantes são presos em ato contra a Copa, em São Paulo.
Manifestantes são presos em ato contra a Copa, em São Paulo. BOSCO MARTÍN

Apesar do contingente enorme da polícia (quase um policial por manifestante), o clima era bem leve até passarmos ao lado do metrô Anhangabau. Do fim da marcha, pude observar que a estreita rua Xavier de Toledo era o local combinado para a ação repentina da polícia. Enfurecidos, eles gritavam e batiam com seus cassetetes em todos os manifestantes que podiam. Não fui atingido, mas muitos não tiveram a mesma sorte e soube de pelo menos um caso de braço quebrado.

Em poucos segundos o nosso grupo, que se distinguia dos demais apenas por estarmos no fim da marcha, fomos cercados e, como na foto, forçados a nos sentar. Estávamos todos apavorados, inclusive boa parte do contingente policial. Uma pessoa sangrava muito. Desesperadamente gritamos por uma ambulância até que ele fosse encaminhado para receber cuidados médicos.

Passado o furor teatral da polícia e nosso desespero com os feridos, sem resistência assistimos humilhados a pessoas ser algemadas e isoladas por estarem de máscara de oxigênio, de preto, com mochila e com câmeras (como o jornalista da Folha que fez esse vídeo). Durante esse processo, que durou pelo menos uma hora, decidi conhecer as pessoas que estavam sentadas em volta de mim para quebrar um pouco o clima de pânico: um senhor branco de quase setenta anos me contou histórias de 1968; duas amigas negras que há muito não se viam e haviam se encontrado na manifestação me ajudaram a achar o sapato que eu perdera na confusão; e um casal de estudantes dividiu seu guarda-chuva comigo quando a chuva apertou. Depois de separarem os "de preto", os demais foram conduzidos um por um para um ônibus da PM. Antes de nós, havia apenas um rapaz no ônibus que passava muito mal (crise de asma aparentemente).

Além de mim, das duas amigas e do casal, havia três menores, uma professora e muitos estudantes num total de 34 pessoas. De dentro do ônibus assistimos à ação truculenta da polícia em frente ao metrô com direito a muitos gritos e bombas de gás lacrimogênio. Quando partimos fomos informados que iríamos para o 78° DP, mas acabamos indo para o 8° com uma parada estranha de pelo menos vinte minutos no 1°. Nessa parada, um rapaz com síndrome do pânico pediu para sair: "Agora você tem síndrome do pânico, mas na hora de jogar pedra em PM nada", zombou o policial que o socorreu fazendo uma acusação falsa e sem qualquer fundamento. Escondido consegui falar com amigos que divulgaram o caso na internet e tiveram de passear pelos três DP até me encontrarem no oitavo.

Chegando lá esperamos outros bons minutos até sermos "qualificados". Assinamos um documento com nossos dados pessoais e um espaço em branco onde deveria estar relatada nossa "versão dos fatos". Perguntei o que seria colocado ali e, depois de informado que não colheriam nossa versão, rasurei o espaço. Fui repreendido pela rasura, mas liberado em seguida, como todos encaminhados para aquele DP. Não sei exatamente por que fui ao ato. Talvez indignação com as remoções, com a ação truculenta da polícia na última manifestação, com o contraste entre a enorme preocupação do estado com a Copa e o total descaso com a Escola de Artes, Ciências e Humanidades, onde dou aula, talvez um pouco de curiosidade, mas acho que o mais honesto é dizer que fui por que tinha o direito de ir.

Na manifestação de 25 de janeiro, mais de 100 pessoas foram detidas e muitas delas foram intimadas a comparecer no DP no horário desta. Sentia que estava no ato por tantas dessas pessoas que tiveram negado seu direito de se manifestar. Desta vez foram 260 detidos. A imensa maioria, como eu, sem nenhuma acusação. Me pergunto se, mesmo sem acusação, teremos negado nosso direito de nos manifestar. Parece que só vai ter Copa se não houver direitos.

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