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O capo que atuava como um grande empresário

Joaquín El Chapo Guzmán, capturado em Mazatlán, controlava uma rede de tráfico de drogas com presença em ao menos três continentes

Joaquín 'El Chapo' Guzmán em 1993.
Joaquín 'El Chapo' Guzmán em 1993. AFP

Desde a morte de Osama Bin Laden em 2011, Joaquín El Chapo Guzmán (Badiraguato, 1957) era o homem mais procurado do mundo. O capo mexicano é o líder do cartel de Sinaloa, uma gigantesca organização narcotraficante que funciona como uma transnacional: dedica-se ao cultivo, tráfico e venda de droga. O tamanho do cartel botou Guzmán como um dos homens mais ricos do mundo da lista da revista Forbes. Em seu ramo, o tráfico de droga, o cartel de Sinaloa é considerado como uma das empresas mais eficazes do mundo e El Chapo, um apelido que em “mexicano” significa baixinho, era seu CEO.

As rotas de distribuição do cartel de Sinaloa unem os campos de papoula do Afeganistão com as ruas de Chicago. Seus campos de plantação no México cobrem ao menos 60.000 quilômetros quadrados, uma superfície equivalente ao território da Costa Rica, segundo um artigo publicado em The Economist. Controla 45% da droga que passa pelo país e introduz uma quarta parte do total de narcóticos que se consome nos EUA.

Guzmán, um homem robusto que mede cerca de 1,60 metros, segundo fontes de segurança mexicanas, nasceu em uma família de camponeses pobres em um pequeno povoado de Sinaloa, no oeste do México. Estudou até o sexto ano do primário e fugiu de sua casa quando ainda era um adolescente. Ganhou a vida como agricultor até que em 1980 se uniu às filas do desaparecido cartel de Guadalajara, controlado por Miguel Ángel Félix Gallardo “El Padrino”, capturado em 1989. Em seus primeiros anos dedicou-se a fazer contatos com os narcotraficantes colombianos em Medellín e Barranquilla, para o transporte de cocaína para os Estados Unidos, o maior consumidor do mundo.

Detido em 1993, El Chapo escapou escondido em um carrinho de lavanderia em 2001

El Chapo foi detido na Guatemala em 1993 em uma operação conduzida pelas autoridades mexicanas. Em sua declaração ao juiz afirmou que se dedicava à agricultura e que ganhava uns 6.000 dólares ao mês. Esteve preso sete anos. Fugiu em janeiro de 2001, aos poucos dias de iniciado o Governo de Vicente Fox Quesada (2000-2006), do presídio de Puente Grande, em Jalisco, que alguns mexicanos chamam, desde então, com ironia “Puerta Grande”. Ele escapou, dizem, escondido em um carrinho de lavandería.

“É um homem muito inteligente”, descreve um servidor público mexicano. “É um homem de negócios”. O jornalista Malcolm Beith, autor de The Last Narco: Inside the hunt for El Chapo (O último narco, no interior da caçada por El Chapo), afirma que a principal diferença entre El Chapo e seu principal sócio, Ismael El Mayo Zambada, com o colombiano Pablo Escobar, o poderoso líder do cartel de Medellín, é que os mexicanos “não querem tomar o poder político”, e manipulam seu negócio como um empresário.

El Chapo e seus ex-colaboradores protagonizaram a sangrenta briga entre cartéis mexicanos, que nos últimos 10 anos causou uma espiral de violência e acabou com ao menos 70.000 mortes no país. Sua ruptura com o cartel dos Beltrán Leyva -outrora seus aliados- e Édgar Valdez La Barbie, um de seus ex-mercenários, propiciou uma batalha por territórios (“controle de praças”, no jargão criminoso) que sumiu a um estado de sítio de fato a cidades inteiras do país. Sua briga com uma organização local pelo controle de Ciudad Juárez, a principal entrada de cocaína aos EUA, e seu combate com Los Zetas, um grupo criminoso que controla o noroeste do país, causou algumas das cenas mais cruéis da guerra interna dos últimos anos no México. Carros-bomba em Chihuahua, crianças de cinco anos atiradas ao chão no meio de um tiroteio em Tamaulipas, o incêndio provocado de um cassino em Nuevo León a plena luz do dia, cadáveres pendurados de pontes como lembrete aos motoristas de que estão em um território em disputa.

25 dos 37 líderes do tráfico mais procurados no México morreram ou foram presos nos últimos três anos

Segundo as autoridades mexicanas, foram precisamente os Beltrán Leyva, os que ordenaram o assassinato de um dos filhos de El Chapo: Édgar Guzmán, que morreu a tiros em 2008 aos 22 anos quando saía de um cinema em Culiacán, a capital de Sinaloa. Uma enorme cruz branca de cimento marca o local onde o filho do capo caiu assassinado por um comando de 15 homens. Até há muito pouco, um grupo de guardas armados não permitia fazer fotografias dele. Arturo Beltrán Leyva, um dos líderes do cartel que organizou o crime, morreu em 2009 em uma operação de captura conduzida pela Marinha do México.

As lendas ao redor de El Chapo Guzmán floresceram nos 13 anos decorridos entre sua fuga e sua captura neste sábado. Contam em Sinaloa que era comum que o capo aparecesse em luxuosos restaurantes e que, ao mesmo tempo em que seus guarda-costas revistavam os comensais, ordenava que se pagasse a conta de todos os presentes. Há quem acrescenta que até lhes convidava uma taça de conhaque. Teve ao menos nove filhos com três mulheres diferentes. A mais jovem, Emma Coronel, uma ex-miss de 22 anos, deu a luz a gêmeos em um hospital de Los Angeles em 2011.

Nos últimos três anos, 25 dos 37 líderes narcotraficantes mexicanos mais procurados morreram ou foram capturados. Mas nenhum deles era mais procurado que El Chapo, o narcotraficante que liderava o maior cartel de drogas do México, que funciona como uma transnacional.

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