Brasil e México competem para ver quem é o melhor amigo de Cuba

O país governado pelos Castro atrai novos parceiros enquanto prepara sua própria transição para 2018

Castro e Rousseff, durante a inauguração do porto Mariel em 27 de janeiro em Cuba.
Castro e Rousseff, durante a inauguração do porto Mariel em 27 de janeiro em Cuba.www.cubadebate.cu (afp photo)

Por que o México e o Brasil mostram tanto interesse em se converter no sócio privilegiado, comercial e político, de Cuba? O que aconteceu para que na cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), celebrada no final de janeiro em Havana, os chefes de Estado das duas potências do mundo pós-ibérico tenham cortejado, anunciado investimentos e, sobretudo, disputado para sair nas fotos com o político em hibernação mais ativo que existe?

Fidel, o Mais Velho, inventor do castro-comunismo, durante décadas afastado da atividade diplomática pan-americana por desejo e pressão dos EUA, é hoje um páter-famílias fisicamente doente, politicamente desdentado, mas que ainda pode se apresentar como ícone de cartão postal do nacionalismo republicano clássico ao estilo de José Martí, ao qual não renunciaram nem os governos mais conservadores da América Latina. Quando o presidente Obama ordena uma retirada mundial dos EUA e a bolsa da substancial ajuda chavista pode se fechar por asfixias econômicas, o mundo ibero-americano faz fila para visitar Havana.

A relação entre os três países, diz Arturo López Levy, destacado cubanólogo exilado, nem anti, nem pró-castrista: “entende-se como dois triângulos estratégicos competitivos entre si, com Cuba e os EUA como vértices permanentes e Brasil e México alternando-se no terceiro vértice”. Esses triângulos emergem a partir de “dois fatores estruturais e um endógeno a Havana”. Os estruturais são a aparição de um tipo de ordenamento hierárquico na América Latina, “no qual muitos países aceitam o Brasil como centro político”; e “a nova fluidez na distribuição de poder no hemisfério, depois do relativo abandono norte-americano. E o fator endógeno cubano consiste em “espalhar suas apostas entre vários centros de poder para forjar uma acolhida favorável à reforma econômica e à mudança geracional previstas para 2018. Claramente, as duas potências dão crédito à abertura de Raúl Castro e à sua declaração de que terminará constitucionalmente seu mandato em 2018.

As duas potências dão crédito à abertura de Raúl Castro

Carlos Malamud, pesquisador do Instituto Real Elcano de Madri, corrobora que “as coisas estão se movimentando em Cuba e quem quiser ter algo a dizer nesse processo, já deve ir tomando posições”. E o historiador hispano-argentino frisa que não se trata apenas de um ménage à trois, mas que existe um quarto ator desejando entrar em cena: a União Europeia. Nessa mesma ideia insiste o latino-americanista do The Economist, Michael Reid, que vê nas duas potências “uma crescente ansiedade por se posicionar diante de uma Cuba pós-castrista, pós-embargo norte-americano e pós-ajuda venezuelana”. Ele ressalta que esse “gesto de independência política frente aos EUA” não tem ônus para os novos amigos do regime, uma vez que o problema de Washington já não é Havana, nem Caracas, mas sim a abrupta geografia, física e política, da Ásia central.

Como só o amor constrói, o Brasil quer transformar sua presença na ilha em moeda constante e de peso. A companhia brasileira Oderbrecht realiza trabalhos preliminares para construir um terminal de containers em Mariel. A empresa brasileira é privada, mas operará com um empréstimo de quase 700 milhões de dólares (1,65 bilhões de reais) de dinheiro público, sobre um orçamento de 957 milhões (2,25 bilhões de reais). Além disso, a Oderbrecht está projetando um aeroporto e a modernização da Central Açucareira, que controla a produção de cana da ilha, no que foi batizado de Zona Especial de Desenvolvimento.

Alberto Pfeiffer do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal) afirma que “Mariel não é só questão de infraestrutura, mas também um gesto político”. A presidenta brasileira “foi diretamente de Davos a Havana para mostrar que é ela quem decide com quem e o que se assina”. Mariel é, segundo fontes da ilha, a aposta cubana para conectar a abertura econômica que Raúl Castro dirige com o auge exportador latino-americano e o deslocamento do centro econômico do Atlântico para o Pacífico, tudo isso potencializado pela ampliação do Canal do Panamá, em curso. E Cuba paga com sua única moeda: o know how e trabalho de seus excelentes profissionais. Em março próximo, de acordo com um programa que começou no ano passado, 2.000 médicos cubanos estarão em missão no Brasil, como estão há uma década na Venezuela.

Mas nessas grandes operações sempre deve haver uma cláusula de resseguro. O escritor e jornalista brasileiro Clóvis Rossi, que costuma estar por dentro dos segredos do poder, modera os ímpetos. “Marco Aurélio Garcia – que foi assessor de Lula e agora é de Rousseff – presente na cerimônia inaugural da obra ao lado de sua presidenta, me disse que Mariel só teria sentido no caso de restabelecimento de relações entre Washington e Havana. Seria, portanto, um porto muito mais para exportar aos EUA do que para o Caribe, a América Central ou o Pacífico”. E tudo isso se baseia em que Obama disse a Lula, já em seu primeiro mandato, que se propunha a normalizar as relações com Cuba; “normalização” que só acontece, como tantos outros grandes planos do líder norte-americano, a conta-gotas.

A aposta está feita, mas não parece esse, entretanto, o melhor momento da história para que o Brasil embarque em grandes manobras. Depois dos protestos massivos de junho passado contra o desperdício de recursos em estádios para a Copa que nunca se concluem e Jogos Olímpicos que exigirão um investimento ainda maior com seu lastro de subornos, Marcelo Beraba, chefe da sucursal do jornal O Estado de São Paulo no Rio de Janeiro fala de “um tempo de incertezas. A autoconfiança adquirida nos últimos anos, quando parecida que o país estava a ponto de dar o grande salto para o desenvolvimento, foi substituída por um forte sentimento de insegurança. A economia emite sinais contraditórios. E o ambiente político se radicaliza até a irracionalidade, sobretudo diante das eleições presidenciais do próximo mês de outubro”. Mas os mesmos que nas ruas acusam o poder, ratificam hoje seu apoio à presidenta, que soube assumir responsabilidades e atravessar sem danos graves o tsunami dos protestos.

Entre Brasília e Havana existem, finalmente, laços de negritude nos quais nem sempre se presta atenção. Manuel Alcántara, chefe de estudos latino-americanos da Universidade de Salamanca, frisa que “não se deve esquecer o vínculo de santidades que une os dois países”. Iemanjá e os deuses das águas que os navios negreiros sulcaram desenham um segundo triângulo esotérico: Cuba, Brasil e o Golfo da Guiné.

Se para o Brasil isso significa uma quase repentina latino-americanização, talvez porque careça de um Bolívar como santo votivo que o vincule ao resto do continente, para o México é uma volta não apenas à América Latina, depois de muitos anos colocando todos os ovos na cesta norte-americana, mas também a relações especiais com Cuba, interrompidas apenas no final do século passado. Quando a ilha foi expulsa da OEA em janeiro de 1962, apenas o México manteve embaixada em Havana, e somente no final da etapa de Ernesto Zedillo (1999) a diplomacia mexicana começou a criticar o regime cubano e, o que é pior, a buscar a companhia de dissidentes na ilha. Essa foi a política que seguiu, de forma estrepitosa, Vicente Fox, que em visita oficial à capital cubana, em 2002, quis se reunir com os dissidentes, acrescentando ainda a cereja da negativa da Pemex de participar da operação de uma refinaria na ilha.

Como conta Roberto Zamarripa, subeditor do jornal Reforma, “quem então aproveitou a oportunidade foi Hugo Chaves, ressuscitado depois do golpe que o afastou do poder durante 48 horas, e passou – o presidente venezuelano – a dominar as opções energéticas de Cuba”. O jornalista mexicano José Ignacio Rodríguez Reyna lembra como a relação foi definitivamente “para a geladeira” quando, na cúpula da ONU em Monterrey Fox disse a Fidel Castro a famosa frase: “Você come e vai embora”, para que não cruzasse com o presidente norte-americano George W.Bush.

De forma bem diferente, o presidente Enrique Peña Nieto, além de visitar Castro, o Mais Velho, falou durante a reunião da Celac sobre “aprofundar relações históricas cativantes”, ao mesmo tempo em que anunciava o perdão a 70% da dívida cubana, de 490 milhões de dólares (1,15 bilhões de reais), que se arrastava há 15 anos. E para que não houvesse dúvida de que não apareceriam dissidentes no caminho, a vice-chanceler, que o acompanhava, acrescentaria que “seriam extremamente respeitosos com os marcos e tempos que Havana estabelecesse”.

Mas todos esses fios históricos se assentam sobre uma realidade muito mais prosaica. Jorge Zepeda, diretor de Sin Embargo, jornal digital que vem crescendo muito no país, acredita que Cuba serve de álibi multiuso para o México. “A geografia sentimental não é uma categoria de análise, mas nada melhor para explicar a atitude mexicana com relação a Cuba. Os governos do PRI cultivaram a relação como um pronunciamento simbólico diante dos EUA, embora os intercâmbios comerciais fossem mínimos. Era mais a atitude de uma namorada de exibe falsos pretendentes ante um namorado ciumento, e menos a de uma esposa que quisesse ser infiel”. E hoje continua sendo “um dos eixos aos que o México recorre para aspirar uma coliderança latino-americana (com Brasil) e para não ser percebido como um mero quintal da pátria yanque”. O ceticismo marca também a opinião do historiador Enrique Krauze, quando ele diz que Cuba é para o México apenas “uma jogada de realismo político para voltar a ter peso na orientação futura da ilha. Mas não sei se renderá frutos. Já assistimos a esse filme americano várias vezes e, no final, ganham sempre os que têm peso ideológico, os irmãos Castro”. É o que Manuel Alcántara qualifica de “magnético simbolismo que mantém o decadente processo político cubano”.

Mas tudo isso é possível porque Cuba, à margem de para onde leve o caminho reformista empreendido por Castro, o Mais Novo (81 anos) já não é a representante de um marxismo-leninismo filtrado pelo cabaré Tropicana. Lenier Gonzálex, editor da publicação Espacio Laical, que como seu nome não indica é um órgão da igreja católica, faz uma nítida taxonomia dos políticos cubanos. São “quatro conjuntos de atores. 1) a poderosa direita cubano-norte-americana e opositores na própria Cuba, que aspiram que se produza uma revolta no estilo da Primavera Árave; 2) o governo de Raúl Castro, que impulsiona uma “atualização” do modelo econômico sem abordar plenamente a crise, mas também sem voltar ao imobilismo do passado; 3) o setor ultra, enquistado no partido e no Estado, que quer manter o status quo e tacha os reformistas de traidores; 4) o plural centro político na ilha e fora dela, que desejaria uma transformação gradual, sem traumas, nem derramamento de sangue”. E Ricardo Veiga, associado ao anterior e responsável pela comissão de Justiça e Paz da arquidiocese de Havana destaca nessa nova ilha a flexibilização da legislação migratória, uma liberdade religiosa que é preciso ampliar, da mesma forma que a liberdade de expressão, e um crescente respeito pelo debate desinibido em determinados espaços públicos”.

Mais que o princípio do fim, talvez isso seja o fim do princípio. O castrismo nem vai desaparecer, nem se transformar, por uma alquimia política, num sistema democrático. Mas se diria que alguns tentam preparar uma aterrissagem fora da ortodoxia, que lhes permita se reciclar numa transição que prefeririam fosse prolongada. O Brasil e o México parecem ter entendido assim essa grande operação de retorno ao negócio político normalizado de toda a América Latina; para que, quando Washington, hipnotizado por sua própria retirada queira se dar conta, comprove que duas potências que se querem emergentes estão já instaladas ao sul dos estreitos da Flórida. Havana, hoje mais do que nunca, a pérola do Caribe.