Venezuela se parte nas ruas

Leopoldo López, que desafia ao Governo de Maduro, se entrega à policia em uma jornada de grandes marchas dois grupos

Leopoldo Lopez antes de se entregar.
Leopoldo Lopez antes de se entregar. (CARLOS GARCÍA RAWLINS (REUTERS))

“A saída tem que ser pacífica, a saída tem que ser dentro da Constituição, mas também tem que ser na rua”. Foram palavras de Leopoldo López, dirigente da Voluntad Popular, antes de entregar-se a servidores públicos da Guarda Nacional Bolivariana. López estava sendo procurado desde quarta-feira, 12 de fevereiro, por ordem das autoridades venezuelanas, que o acusam de instigar os protestos opositores que desde esse mesmo dia sacodem ao país.

Depois de sua entrega, o ex-prefeito do município Chacao, na área metropolitana de Caracas, foi levado à sede da polícia política, Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência), onde prestaria declaração e poderia ficar preso. Dezenas de milhares de pessoas atenderam ao apelo feito pelo próprio López durante a clandestinidade para que se reunissem na praça Brión de Chacaíto para apoiá-lo. Piquetes da Guarda Nacional e da Policial Bolivariana tinham sido montado desde cedo para bloquear o acesso ao local. Eles eram apoiados por veículos blindados apoiavam. Seu objetivo era sustentar a promessa do Governo: o “fascismo” não voltaria a entrar ao município Libertador, cuja fronteira com a rica cidade de Chacao é justamente a praça.

O aparato de segurança montado pelo Estado não significou que López voltasse atrás no que havia combinado. Quando convocou a concentração por um vídeo em sua conta de Twitter, o líder opositor esclareceu que os eventuais participantes —aos quais pediu que fossem vestidos de branco— o acompanhariam “até um certo ponto”, para evitar confrontos e violência. Assim foi, literalmente; a multidão reunida escutou palavras da deputada María Corina Machado, a atual aliada de López na campanha insurgente que denominaram de La Salida (A Saída), montada em um caminhão com uma tribuna improvisada. Mal terminou suas palavras, dentre a multidão apareceu Leopoldo López, que caminhou, entre gritos e empurrões, uma centena de metros da avenida Francisco de Miranda até o primeiro cordão de agentes policiais.

Ali tomou um megafone para dirigir um curto discurso à multidão que dificilmente podia o ouvir. Explicou que, ao contrário do que assinalam seus críticos dentro da oposição, os protestos dos últimos dias sim têm propósitos definidos: “Protestamos pelos reprimidos, protestamos pelos que foram assassinados, protestamos pelos que não têm emprego”. Assegurou que nunca se proporia abandonar o país, e que era consciente de que se entregava a uma “justiça injusta” onde a promotoria recebe ordens do Executivo.

Os que atenderam ao chamado eram jovens em sua maioria. Muitos riscaram lemas sobre cartolinas que mostravam a quem quisesse ler e também a quem não, como os soldados da Guarda Nacional que resguardavam o acesso norte. Os rapazes colocavam as mensagens nas caras dos oficiais. Surpreendentemente, eram poucos os gritos a favor do líder perseguido. Com frequência, referiam-se à situação de crime e insegurança que reina em Venezuela.

Outras figuras da oposição apareceram no ato. Os cargos maiores da Mesa de Unidade Democrática (MUD), representada por seu ex-coordenador, Ramón Guillermo Aveledo, e o ex-candidato presidencial, Henrique Capriles Radonski, somaram-se depois de marchar desde o próximo comando da Aliança. Foi significativo, no entanto, que não os convidassem a dirigir palavras aos presentes e que a presença deles não tenha sido anunciada no megafone. Parece outro episódio que simboliza a frágil convivência que prevalece entre a diretiva da MUD, somada a uma estratégia de acumulação de força eleitoral, e a corrente de López e Machado, que impulsiona o protesto da rua.

A multidão soube se sobrepor a um momento prévio de confusão. Antes de aparecer López, os oficiais da Guarda Nacional que comandavam o cerco da praça Brión começaram a correr ao ouvirem que os líderes opositores, diante o bloqueio do local, optaram por mudar o protesto para a Praça Altamira, tradicional bastião opositor, mais ao leste da cidade. Alguns acreditaram no boato, mas a maioria dos manifestantes marchou para o local correto.

Arquivado Em: