A ONU alerta sobre a prisão de homens e crianças retirados de Homs

O regime de Bachar al-Assad interroga os homens e crianças presas em uma escola nas periferias da cidade síria

Detentos em Homs (Síria) enquanto são evacuados/evacuos. (reuters_live)

A Organização das Nações Unidas mostrou-se “profundamente preocupada” pela detenção de homens e crianças recém evacuadas de Homs, a cidade síria submetida a mais de 600 dias de cerco por parte do regime de Damasco. Eles haviam saído do sitiado centro histórico da cidade, uma comunidade de opositores, e foram levados a uma escola na periferia de Homs, onde estão sendo interrogados por um pessoal do Governo, sem a presença de observadores internacionais ou ONG locais. O porta-voz da comissionada para os Direitos Humanos, Rupert Calville, pediu que seja esclarecido o que se está fazendo com estes homens.

Inicialmente, o resgate dos civis presos na zona rebelde de Homs só ia incluir mulheres, crianças e idosos, mas a ONU informa que foi retirado um grupo de homens de idades entre 15 e 55 anos, considerados em idade de combate. Melissa Fleming, porta-voz da ACNUR em Genebra, explicou que foram 336 os homens retirados de Homs, dos quais 42 foram postos em liberdade depois de prestar depoimento. O resto segue nas mãos do Governo em um colégio desativado, o Andaluzia, em uma zona sob controle dos leais ao regime, sem que se saiba qual é seu destino.

O pessoal da ACNUR não tem estado presente aos interrogatórios, mas pôde falar com vários deles, detalha Fleming. Todos lhes manifestaram seu desejo de ser evacuados a um local seguro junto a suas famílias, depois de ter suportado meses de miséria e bombardeios na cidade considerada como o berço da revolução contra o presidente Bachar al-Assad.

O governador de Homs, Talal ao Barazi, manifestou ao The Wall Street Journal que todos estes homens haviam se “rendido” e agora estavam à “disposição do Governo”, que tem que “investigá-los”. Assegura que estão recebendo um bom tratamento. Os que forem culpados de algum “crime” serão levados a julgamento e o restantes será anistiado. A ONU ressalta que não está “supervisionando” o que acontece com este grupo, cuja saída é inesperada, mas afirma que recebeu “garantias” por parte de Damasco de que eles terão um trato “justo e transparente”, explicou Yacoub El Hillo a um grupo de imprensa internacional ao qual foi permitida uma visita a Homs. Ao Barazi negou a que estes meios entrem na escola onde estão enclausurados os opositores.

A ideia da ONU, destaca o ACNUR, é pedir à Cruz Vermelha que se interesse pelo destino destes homens, dada sua trajetória na atenção a prisioneiros de guerra. Fontes da Cruz Vermelha na capital síria sustentam que ainda não receberam o pedido formal nem tiveram contato algum com os homens. Os Comitês Locais de Coordenação, um grupo opositor que faz balanço dos danos e vítimas no conflito, afirmam que várias mulheres e filhos dos detentos entraram em contato com eles para manifestar seu “temor” de que os interrogatórios impliquem em algum tipo de violência, denunciada como prática rotineira tanto do Governo como dos grupos opositores mais radicais por parte de Nações Unidas, Human Rights Watch ou Anistia Internacional.

Tanto o Escritório de Coordenação Humanitária da ONU como a Cruz Vermelha confirmam que, desde que na sexta-feira começaram as tarefas de resgate de Homs, depois do acordo feito pelo Governo e os opositores em Genebra para auxiliar os civis que sofreram o cerco mais longo neste conflito, 1.132 pessoas foram evacuadas, entre elas 20 mulheres grávidas. Além disso, 400 crianças puderam receber a vacina contra a pólio, depois que se localizasse um foco no última primavera. Por motivos logísticos não esclarecidos, a saída dos civis ficou suspensa ontem, mas esta manhã já foram retomados os trabalhos de assistência. Os caminhões da ONU levaram alimentos às pessoas que iam saindo e, depois de comer um pouco, foram levadas a um ônibus, para serem encaminhadas a uma zona segura, longe dos escombros e da fome. Outras mil pessoas, segundo cálculos das organizações internacionais, permanecem dentro da zona sitiada.

A trégua entre partidários e detratores do regime deve acabar esta noite (primeiro foram fixados três dias que logo foram ampliados para seis), mas o regime mostrou-se disposto a aumentar o prazo, indicam os meios oficiais. A Cruz Vermelha confirma que não houve mais incidentes como os do último fim de semana, quando seus trabalhadores se viram em meio a rajadas de disparos.

A ajuda a Homs foi o único resultado tangível da primeira rodada das negociações de Genebra, iniciadas no último 22 de janeiro. Na segunda-feira retomaram-se, sem que o processo tenha avançado nada. “Não estamos fazendo muitos progressos”, reconheceu Lakhdar Brahimi, o enviado especial das Nações Unidas e da Liga Árabe para a Síria. O de ontem, de fato, foi um “dia perdido”, segundo indicaram à Reuters alguns dos participantes. Supostamente, a terça-feira estava dedicada a estudar em profundidade o fim da violência e a possibilidade de uma trégua permanente. Hoje o ponto da ordem do dia referia-se à formação de um Governo de transição. Os enviados de El Assad defenderam que não terá transferência de poder algum a uma oposição onde estão instalados os “terroristas”, enquanto a Coalizão Nacional Síria, reconhecida pelo Ocidente como legítima representante do povo sírio, ressalta que um gabinete provisório com o presidente atual não é viável.