A espionagem da inteligência colombiana afetou jornalistas

O escândalo das escutas ilegais que compromete a inteligência militar se estende aos repórteres que cobrem as negociações de paz com as FARC

O chefe negociador da Colômbia com as FARC, em Havana.
O chefe negociador da Colômbia com as FARC, em Havana.Ernesto Mastrascusa (EFE)

O escândalo das escutas ilegais feitas aos negociadores de paz do Governo colombiano por parte de membros do Exército do país deu na segunda-feira uma reviravolta depois que se descobriu que também foram interceptadas conversas de jornalistas que cobrem o processo de paz feito com a guerrilha das FARC em Havana.

Assim revelou no domingo a cadeia norte-americana Univisión, que teve acesso a duas contas de emails interceptados com um total de 2.638 mensagens entre dois guerrilheiros que fazem parte da delegação das FARC em Havana e jornalistas colombianos, de agências internacionais e outros meios da América Latina e Europa. Nas mensagens, os repórteres pediam entrevistas com membros dessa guerrilha que permanecem na ilha desde novembro de 2012.

Segundo a cadeia de televisão, eles foram interceptados por “grupos de hackers da inteligência militar colombiana”. Marisol Gómez, jornalista do El Tiempo, cujas mensagens estavam na lista de conversas interceptadas, disse à Univisión que “não a incomodava particularmente a interceptação de suas mensagens porque as FARC é uma organização que os jornalistas sabem que é visada pelos serviços de inteligência”. Por sua vez, Ignacio Gómez, presidente da Fundação para a Liberdade de Imprensa na Colômbia, FLIP, assinalou a meios locais que “este tipo de interceptações afeta um dos valores mais importantes para o exercício do jornalismo, que é a confiança da fonte nos jornalistas”.

Estas revelações são divulgadas justamente no momento em que a Colômbia celebra o dia do jornalista e quando a FLIP lançou seu relatório anual sobre o estado da liberdade de imprensa em 2013. Segundo a análise, registraram-se 123 agressões diretas que deixaram 194 vítimas, incluindo dois assassinatos (que acumulam 142 desde 1977). “Em boa parte dos casos, as agressões mais graves aconteceram a jornalistas que tratavam de assuntos relacionados com irregularidades do interior do Estado, que tiveram como consequência atentados de morte, assassinatos e ameaças coletivas”, diz o relatório, que destacou que embora os jornalistas não tenham maiores dificuldades para conseguir a proteção do Governo, a Unidade Nacional de Proteção teve dificuldades administrativas e orçamentas para a implementação oportuna destas medidas.

Um dos casos de agressão mais destacados foi o que sofreu Ricardo Calderón, jornalista da revista Semana que sobreviveu a um atentado em maio de 2013. Seu carro recebeu cinco impactos de bala quando investigava temas de denúncia que envolviam o Exército. Também estão no exílio Ariel Ávila e Claudia López, depois que se revelou um plano para assassiná-lo supostamente por suas investigações que envolviam um governador eleito e um narcotraficante.

Embora o número de ameaças tenha diminuído em relação a 2012, a FLIP esclarece que a quantidade de vítimas foi a mesma e que aumentaram as obstruções à imprensa. Também mostrou preocupação pelo risco que representa para os repórteres cobrir os protestos sociais, como os que ocorreram entre junho e agosto passados. Nesse momento registraram-se 24 agressões à imprensa, em sua maioria das mãos da Força Pública. “Os jornalistas foram objeto de prisões ilegais, tiveram  retidos seus equipamentos de trabalho, que em muitos casos não voltaram a ser vistos. Também foram atacados com pedras e acusados de pertencer a grupos guerrilheiros ou de ser policiais infiltrados pelo fato de cumprir com seu trabalho”.

A justiça também segue em dívida com o jornalismo. A FLIP ressalta que durante 2013 prescreveram cinco casos de assassinato e ficaram assim na total impunidade. “O único caso que se salvou deste destino foi o de Eustorgio Colmenares, ex diretor do diário A Opinião (assassinado em 1993), que foi declarado crime de lesa humanidade”. Diante deste panorama, Colômbia ocupa o quinto lugar de impunidade em agressões contra a imprensa no mundo.