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A sombra da violência ameaça o turismo no México

Um motociclista francês e dois cidadãos colombianos desaparecem em Michoacán em menos de um mês e um casal de canadenses é assassinado em Jalisco

Harry Devert, cidadão francês desaparecido em Michoacán
Harry Devert, cidadão francês desaparecido em Michoacán

A situação vivida no Estado mexicano de Michoacán tem rendido ultimamente manchetes que não gostaria de ver nenhum secretário de Turismo. Nas últimas horas, foi noticiado que um cidadão francês residente nos Estados Unidos, que viajava de moto rumo ao Brasil - para a Copa do Mundo de futebol - desapareceu na região. A última vez que se teve notícia de Harry Devert, de 32 anos, foi no último dia 25 de janeiro. Seu desaparecimento não é a única de turistas que se registrou no Estado. Dois cidadãos colombianos foram sequestrados no final de 2013 em Uruapan, também em Michoacán.

Devert havia estado em uma reserva de borboletas-monarca no município de Macheros, no Estado do México, limítrofe com Michoacán. Se dirigia à cidade de Zihuatanejo (norte do Estado de Guerrero), o que o obrigava a atravessar o território michoacano. Na última mensagem que enviou a sua namorada, contava que havia sido "escoltado" durante uma hora e meia porque a região "era muito perigosa" para ele. "Aparentemente, há outra escolta militar que me espera em outra cidade. Estou me atrasando por todas essas coisas loucas dos militares", dizia na mensagem. O desaparecimento se deu apesar de, naquele momento, o Governo federal já ter enviado membros do Exército para a região para tentar diminuir a tensão.

A família do motociclista criou uma página no Facebook em que estão sendo divulgadas fotografias de Devert e pedindo colaboração sobre qualquer pista de seu paradeiro. Nela, conta quem "as Embaixadas da França e Estados Unidos estão trabalhando com as autoridades mexicanas para localizar Harry".

Além disso, no domingo um casal de canadenses foi encontrado assassinado em sua casa em Ajijic (Jalisco), onde fica uma das principais comunidades de estrangeiros no México, especialmente norte-americanos e canadenses aposentados. As primeiras investigações mostram que o casal foi morto durante um assalto. O Estado de Jalisco faz fronteira com Michoacán.

A escalada da tensão entre os grupos de autodefesa e os membros do cartel dos Cavaleiros Templários, na região conhecida como Tierra Caliente, fez com que o Governo dos EUA emitisse um sinal de alerta um mês atrás, recomendando a seus cidadãos não visitar determinadas zonas do México, entre as quais se incluía Michoacán. Também aconselhava não viajar a algumas regiões de Aguascalientes, Baja Califórnia, Coahuila, Colima, Durango, Estado do México, Guerrero, Jalisco, Nayarit, Nuevo León, San Luis Potosí, Sinaloa, Sonora, Tamaulipas, Veracruz e Zacatecas. O aviso assegurava que, entre abril e novembro de 2013, 81 cidadãos norte-americanos morreram no México e cerca de 90 foram vítimas de sequestro.

O desaparecimento do motociclista se soma ao de dois cidadãos colombianos que foram sequestrados no dia 31 de dezembro em Morelia, onde passavam férias de final de ano. As esposas dos jovens desaparecidos - que também se encontravam no México - denunciaram que tiveram de pagar um resgate de 10.000 pesos (1.800 reais).

"Meu marido, Arnoldo, me ligou e dava para escutar que estavam batendo nele. Conseguiu dizer que estava em Uruapan (município michoacano), que eu fosse para lá, e até agora não tivemos notícias deles", contou uma das mulheres a Notícias MVS.

A percepção exterior sobre a insegurança é um dos piores inimigos do turismo, como explica Francisco Madrid, diretor da Escola de Turismo da Universidade Anáhuac México Norte no livro Diagnóstico e Oportunidades do Turismo no México (2012). Neste setor, a ideia do falem mal, mas falem de mim, é a mais distante da realidade desejada. O México recebeu durante 2013 quase 9% a mais de visitantes por transporte aéreo - quase 12 milhões de pessoas no total - e, nos últimos dois anos, o setor cresceu, mas a um ritmo menor do que a média mundial. Isso fez com que o país saísse do top ten de destinos internacionais, o que aconteceu em 2013 e foi recebido como um golpe para a indústria turística, apesar do crescimento.

A pesquisa sobre as expectativas econômicas que o Banco do México realiza mensalmente entre os especialistas do setor privado mostrou, no mês de janeiro, um dado que ilustra o risco que supõe a situação em Michoacán. Para os especialistas consultados, o principal fator que poderia atrapalhar o crescimento econômico do país são os "problemas de insegurança pública", à frente da "instabilidade financeira internacional". Algo que não ocorria desde maio de 2011.