A ponte que unirá a fronteira mais movimentada do mundo

Um projeto binacional busca conectar o aeroporto de TIjuana (México) com San Diego (EUA) e quintuplicar o número de passageiros que viaja por uma região com quatro milhões de habitantes

Infografia da ponte que unirá os dois aeroportos
Infografia da ponte que unirá os dois aeroportos

A fronteira mais movimentada do mundo não é a mais acolhedora. É dividida por um muro de concreto branco, acompanhado paralelamente por outros dois muros de alumínio com arame farpado no alto. Em Tijuana, no noroeste do México, ele é chamado de A Linha, e é o que separa a cidade da vizinha San Diego, na Califórnia. As duas compartilham uma zona metropolitana binacional de mais de quatro milhões de habitantes. Pela guarita de San Ysidro, passam por ano 50 milhões de pessoas. Um ambicioso projeto busca uni-las com uma ponte de pedestres que permitiria que os viajantes que passam pelo aeroporto de Tijuana chegassem a San Diego após caminhar apenas 155 metros. Isso não deveria surpreender, já que nesta região do mundo as contradições são abundantes.

A ponte permitirá que os quatro milhões de passageiros que voam por Tijuana e aos 17 milhões que fazem o mesmo a partir de San Diego façam suas viagens mais facilmente. No total, somam 21 milhões de pessoam. Os melhores prognósticos apontam que, se fosse consolidado, o projeto triplicaria esse número. Juntas, as cidades irmãs são a terceira região mais frutífera da Califórnia, um Estado dos EUA que, independente, seria a nona maior economia do mundo. O plano é promovido pela Otay Tijuana Venture, uma empresa com sede nos EUA, e pelo Grupo Aeroportuário do Pacífico (GAP), uma empresa mexicana com capital privado e governamental que administra 12 aeroportos no México.

O projeto busca beneficiar os visitantes das duas cidades, que multiplicariam por dez suas populações. Mas existe certo consenso dos dois lados da fronteira de que as cidades-irmãs não poderiam ser mais diferentes: Tijuana conduz com encanto sua má fama, que remonta aos anos 30, a época da proibição do álcool nos EUA. E San Diego é um bastião WASP: de população branca, anglo-saxão e protestante. Em outras palavras, é uma cidade conservadora que é tradicionalmente republicana. Qual é, então, o ponto em comum? “San Diego está muito longe de Washington, e nós estamos muito longe da Cidade do México. O centralismo nos prejudicou”, explica Juan Manuel Hernández, do Conselho Coordenador Empresarial de Tijuana.

Não são muitos os receios, que provêm, na maior parte, da metade mexicana. “Será um golpe a curto prazo”, comenta Hernández. Segundo ele, o desaparecimento do trânsito fronteiriço de viajantes afetará principalmente os pequenos empresários e motoristas de táxi da cidade de Tijuana, onde 70% das corridas se dirigem para “A Linha”. Hernández destaca também que os lucros iriam, em sua maioria, para o Governo federal mexicano. “Só nos devolvem 20% dos impostos que pagamos”, afirma. “Queremos apenas que, do dinheiro que será ganho com o aeroporto, uma boa parte seja destinada para a Prefeitura local”. Os aeroportos administrados pelo GAP não pagaram, até agora, parte de seus lucros diretamente às Prefeituras das cidades. Se Tijuana conseguir, criará um precedente.

Hernández reconhece que San Diego e Tijuana “se complementam até mesmo quando competem”, mas atribui suas dúvidas à possibilidade de que a construção da ponte atinja o já enfraquecido comércio de Tijuana. A recente reforma fiscal promovida pelo presidente Enrique Peña Nieto, aprovada no ano passado e iniciada em janeiro, elevou o IVA (imposto sobre valor agregado) pago na fronteira mexicana de 11% para 16%, fazendo com que os consumidores locais prefiram fazer suas compras em San Diego. “Há gente que prefere cruzar a fronteira para o outro lado para fazer compras em supermercados. Eu mesma pago um quarto do valor a mais pelo meu remédio”, afirma Alejandra Santos, executiva local.

“Estou convencido de que o projeto beneficiará a cidade a médio prazo”, afirma Humberto Jaramillo Rodríguez, presidente do Conselho de Desenvolvimento Econômico (CDE) de Tijuana. “O aeroporto de San Diego já não tem para onde crescer. Está predestinado a ser esse aeroporto”. O projeto do aeroporto binacional não é o único no mundo, há diversos exemplos similares na Europa, mas nenhum desta magnitude. Jaramilla diz que os obstáculos impostos por seus respectivos Governos federais – o aumento de impostos mexicanos, as restrições imigratórias impostas por Washington – apenas aumentam o sentimento que é definido em Tijuana como “fronteiriço”.

A oferta para o viajante norte-americano é tentadora. Mais da metade dos passageiros que desembarcam em Tijuana são americanos: a cidade tem, depois da Cidade do México, o maior número de destinos dentro do México. E é 50% mais barato comprar o bilhete aqui. Os promotores do projeto asseguram que os destinos de Tijuana aumentariam de 20 para 100 depois da construção da ponte. “Aqui não há fazendas de gado, não temos campos agrícolas e não temos petróleo. Aqui existem apenas güeros (loiros)”, afirma José Galicot, empresário e presidente do projeto Tijuana Inovadora, que impulsiona a imagem da cidade.

David Álvarez, vereador de San Diego, define: “Apenas os políticos e empresários locais entendem o verdadeiro funcionamento da fronteira”. O empresário tijuanense Humberto Jaramillo concorda: “Estamos acostumados a trabalhar com agendas regionais. Os empresários dos dois lados vão ao centro (dos países) e pensam ‘esse camarada não tem ideia do que está acontecendo’”.

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