O Vaticano reconhece na ONU a existência de abusos a crianças na Igreja

"Encontram-se abusadores entre membros do clero e profissionais da igreja", afirma o cardeal Silvano Tomasi

O embaixador do Vaticano na ONU, Silvano Tomasi (à esq.) antes de comparecer ao Comitê dos Direitos das Crianças.
O embaixador do Vaticano na ONU, Silvano Tomasi (à esq.) antes de comparecer ao Comitê dos Direitos das Crianças.FABRICE COFFRINI (AFP)

O Vaticano afirmou nesta manhã na ONU que não existe  desculpas para os casos de exploração e violência contra crianças, ao mesmo tempo em que enfatizou que existem responsáveis por abusos "em todas as profissões, inclusive entre membros do clero e profissionais da igreja". "Encontram-se abusadores nas profissões mais respeitadas do mundo e, mais lamentavelmente, entre membros do clero e outros profissionais da igreja", disse o monsenhor Silvano Tomasi, representante do Vaticano nas Nações Unidas, em Genebra.

Tomasi iniciou a apresentação do Vaticano no Comitê da ONU de Direitos da Criança, o que representa a primeira oportunidade na qual a hierarquia da Igreja Católica participa em um escrutínio público de uma organização internacional centrada nos abusos sexuais de menores cometidos por sacerdotes em todo o mundo. O comparecimento do arcebispo Tomasi é histórico já que, até o momento, nenhum organismo internacional tinha se atrevido a questionar o Vaticano. Organizações e vítimas norte-americanas, europeias e mexicanas aproveitaram a ocasião para enviar ao Comitê dos Direitos da Criança em Genebra um informe com suas denúncias e numerosos casos de pedofilia documentados.

O chefe da delegação enviado pelo Vaticano reconheceu que a  questão dos abusos contra crianças é particularmente grave quando se trata de pessoas que desfrutam de uma grande confiança e estão chamadas para proteger todos os elementos da pessoa, incluída sua saúde física, emocional e espiritual. "Esta relação de confiança é crítica e requer um grande sentido de responsabilidade e respeito para a pessoa que se serve", disse Tomasi.  "O Vaticano tem delineado políticas e procedimentos para ajudar a eliminar tais abusos e colaborar com as autoridades estatais respectivas para lutar contra este delito", acrescentou.

Em relação aos casos comprovados de abusos sexuais de menores sob custódia ou influência de clérigos, a posição das autoridades da Igreja foi que, quando se comprova um crime, este deve ser castigado aplicando as leis do Estado onde ocorreu. Durante seu comparecimento, Tomasi assegurou que a Santa Sede "está comprometida a ouvir cuidadosamente a vítima de abuso e a abordar o impacto de tais situações nos sobreviventes e suas famílias".

Depois da apresentação introdutória de Tomasi, vários especialistas do comitê formularam perguntas à delegação do Vaticano, sobre como, e se eles adotaram mecanismos para pesquisar e sancionar de forma efetiva os culpados de abusos dentro da Igreja, e também sobre os programas de segurança que foram implementados. Assim, pediram esclarecimentos a respeito da posição do Vaticano sobre como garantir "o interesse superior da criança" diante de qualquer outra consideração, e as medidas de "reparo físico e psicológico" em favor das vítimas.

O caminho até o encontro de hoje em Genebra começou em 1990 quando o Vaticano assinou como Estado a Convenção sobre os Direitos da Criança. O tratado obriga a todos os membros a apresentar relatórios quinquenais sobre o cumprimento dos artigos em seus países. O Vaticano não cumpriu. Só entregou um primeiro relatório em 1995 e não voltou a fazer outro até 2011, quando os escândalos de pedofilia já atingiam a instituição. Em todo o documento não havia uma só menção aos abusos sexuais.

O Comitê dos Direitos da Criança aproveitou o julho do ano passado, quando foi entregue o relatório com atraso, para questionar a Igreja pela primeira vez na história. Solicitou, entre outras coisas, “informação detalhada de todos os casos de abusos sexuais cometidos por clérigos, monges e freiras ou postos em conhecimento do Vaticano”. O Vaticano, em sua resposta, conhecida no início de dezembro do ano passado, não cita casos concretos e alega que a investigação corresponde aos países onde os delitos são cometidos. “Quando o Vaticano acenou que iria a ratificar o tratado, não o fez em nome de todos os católicos do mundo. Cada membro da Igreja Católica está sujeito às leis do país onde vive”, diz o documento.