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VIOLÊNCIA URBANA

Apenas 1,6% das armas apreendidas em São Paulo são de grosso calibre

A polícia pouco consegue desarmar o crime organizado. Criminosos fazem bunkers para esconder fuzis e submetralhadoras

Armas e munições apreendidas pela polícia do Rio de Janeiro em 2010.
Armas e munições apreendidas pela polícia do Rio de Janeiro em 2010. ABr

Por mais que nos últimos anos tenha crescido o número de armas apreendidas na cidade de São Paulo, dificilmente a polícia consegue tirar de circulação os armamentos mais pesados que costumam estar nas mãos de grandes quadrilhas ou grupos criminosos que agem na capital paulista, a cidade mais populosa do Brasil onde 14 pessoas são roubadas por hora, em média.

Uma pesquisa feita por uma das principais ONGs que estudam o tema da violência urbana, o Instituto Sou da Paz, constatou que apenas 1,6% das armas apreendidas em São Paulo entre 2011 e 2012 são consideradas de grosso calibre. Ou seja, são fuzis, submetralhadoras ou carabinas. O levantamento analisou 14.488 exemplares que foram periciados pela Polícia Técnico-Científica do Estado.

Baseado nesses dados, estudiosos do tema concluíram que facções criminosas que agem fortemente em todo o Estado, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), são menos afetadas pelas ações policiais do que os pequenos criminosos. Vários fatores explicam essa baixa apreensão dos armamentos com maior poder de fogo. Um deles é que as armas de pequeno calibre, como revólveres e pistolas, são mais fáceis de se esconder.

“No crime do dia a dia, num assalto em um semáforo, você não vai ver um ladrão com uma arma longa. Ele prefere as mais discretas”, afirmou o coordenador da pesquisa, Bruno Langeani.

A outra razão é que esse tipo de arma pesada é mais cara. Enquanto revólveres e pistolas custam entre 550 reais e 8.000 reais, as submetralhadoras e fuzis custam a partir de 5.000 reais, podendo chegar aos 50 mil reais no mercado ilegal.

Por conta desses custos, nem todas as quadrilhas conseguem comprar esse tipo de arma. Apenas as mais estruturadas ou as que se especializaram em fornecê-las. Uma investigação em São Paulo estima que a facção criminosa PCC tem cerca de 130 fuzis que aluga para seus membros cometerem crimes como assaltos a bancos ou roubos a carros fortes. Os valores variam conforme a ação a ser executada. Os bandidos podem alugá-los por dia ou cobrando uma porcentagem de até 15% do que for obtido com o roubo.

“Só quem porta esse tipo de arma é o criminoso que já espera um confronto com a polícia”, afirmou Wilquerson Sandes, coronel da Polícia Militar do Mato Grosso e colaborador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para ele, o problema não ocorre somente em São Paulo, senão em todo o país. Nas pequenas cidades do Centro-Oeste e do Nordeste, por exemplo, quem possui as armas de grande porte são as quadrilhas que roubam dois ou três agências bancárias ao mesmo tempo. No Rio de Janeiro, os portadores desse arsenal são traficantes que atuam principalmente em favelas.

O cuidado das quadrilhas com as armas mais potentes é tamanho que alguns desses grupos criminosos construíram bunkers subterrâneos para escondê-las. Nas contabilidades do crime apreendidas nos últimos anos durante operações policiais constam vários fuzis como sendo parte do patrimônio dos bandos e apontam ainda os locais onde estariam escondidos.

Outro dado revelado pelo estudo que chamou a atenção dos pesquisadores foi o de que quase a metade das 83 submetralhadoras apreendidas eram artesanais. Ou seja, foram adaptadas para terem seu poder de fogo ampliado. Diz o estudo: “com a dificuldade de abastecimento desse tipo de arma, estão sendo organizadas produções próprias, inclusive com indícios de produção em escala”. Boa parte desse armamento apreendido tinha números de série próximos o que indica que poderiam estar sendo produzidos em um mesmo local.

“Essas armas não são fáceis de fabricar, por mais que sejam artesanais. É preciso ser torneiro mecânico ou ter conhecimentos de armeiros”, ponderou Langeani. Um próximo passo para a polícia seria desbaratar essa fábrica clandestina.

Soluções

Autor de um livro que aborda a questão dos confrontos entre policiais e criminosos, o coronel Sandes diz que uma das alternativas para ampliar a apreensão desse tipo de armamento é melhorar as investigações assim como investir em tecnologia.

“Hoje, a polícia combate pólvora com pólvora. Precisamos melhorar nossa forma de atuação, com armas não letais para conseguir prender mais pessoas que estão usando essas armas pesadas”, disse.

Uma das conclusões do estudo vai nessa mesma linha. “A presença desse tipo de armamento entre criminosos resulta na necessidade das instituições policiais adaptarem suas táticas de ação e, muitas vezes, adquirirem equipamentos especiais para esse enfrentamento”.