Um ex-ministro libanês de oposição a al-Assad é assassinado

Um carro-bomba acaba com a vida de Mohamad Chatah e outras quatro pessoas em Beirute O conselheiro do ex-premiê Saad Hariri enfrentava a milícia xiita Hezbolá

(reuters_live)

A explosão de um carro-bomba às 9.40 desta sexta-feira (horário local) matou cinco pessoas no centro de Beirute, a capital do Líbano. O alvo do ataque, que ainda não foi reivindicado por nenhum grupo, foi Mohamad Chatah, de 62 anos, que foi ministro das Finanças do ex-premiê Saad Hariri, um de seus assessores mais próximos e sunita destacado por suas críticas abertas ao regime alauíta de Bashar al-Assad na Síria e a seu aliado libanês, a milícia xiita Hezbolá.

Chatah morreu, confirmou a polícia de Beirute, junto a um de seus acompanhantes. Ainda não é conhecida a identidade das outras três vítimas, que poderiam ser membros do comboio político ou civis que passavam pela região. Hariri acusou veladamente o Hezbolá de estar por trás do atentado.

O jornal The Daily Star informa que o ex-ministro estava a caminho de uma reunião da Coalizão 14 de Março, um conglomerado de partidos de corrente anti-Síria no qual está incluída a ramificação à qual Chattah pertencia, o Movimento do Futuro. A reunião aconteceria na casa de Saad Hariri, quem lidera esse partido.

Minutos antes de seu assassinato, Chatah denunciava no Twitter que o Hezbolá está tentando conseguir prerrogativas em segurança e política externa similares “às que a Síria exerceu” sobre o país durante sua ocupação militar entre 1976 e 2005. O assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, pai de Saad, neste mesmo ano foi o estopim para a retirada do regime de Bashar al-Assad, cujo governo foi acusado de orquestrar o assassinato do líder sunita.

O ataque ocorre três semanas antes da abertura do julgamento contra cinco militantes do Hezbolá pelo assassinato de Hariri e outras 21 pessoas em 14 de fevereiro de 2005. O Tribunal Especial para o Líbano, criado especialmente pelas Nações Unidas para este caso, irá revisar a acusação. O ataque poderia estar relacionado a esse julgamento ou às diferenças geradas no país pelo conflito na vizinha Síria desde março de 2011. A sociedade e a política se dividiram entre partidários e detratores de Damasco, um confronto que foi se radicalizando até descambar para uma tensão sectária com atentados e tiroteios. A confirmação, em abril deste ano, de que o Hezbolá participava ativamente na Síria, com pessoal, armas e dinheiro postos a serviço de Assad, acentuou esse enfrentamento.

A área onde a explosão aconteceu fica no distrito de Ain El Merasa, a parte mais residencial de uma região repleta de edifícios financeiros e hotéis, muito central e perto do mar. As imagens divulgadas pela imprensa local mostram danos significativos causados pela explosão no asfalto – onde deixou uma cratera – e nos edifícios próximos. Uma coluna poderosa de fumaça podia ser vista de todas as partes de Beirute. A Cruz Vermelha informa que o resgate foi complicado pela cortina densa de fumaça em torno das vítimas. Os feridos têm queimaduras graves e cortes devido aos numerosos metais.

Chatah era um pilar importante no círculo dos Hariri. Sob o governo de Rafik, ele foi embaixador do Líbano nos Estados Unidos por três anos. Depois, trabalhou no Fundo Monetário Internacional e voltou a Beirute para assessorar o ex-primeiro-ministro Fuad Siniora e o filho de Hariri, Saad, quando assumiu o cargo. Seu rosto tornou-se internacionalmente conhecido em 2006, quando atuou como porta-voz do governo durante a guerra com Israel.

As explosões voltaram a se tornar usuais no país. Só em novembro, foram dois atentados suicidas. Um deixou 23 mortos na porta da embaixada do Irã - aliado essencial de Assad - na capital libanesa. O último ataque foi em 17 de dezembro, no Vale do Bekaa, que alvejou um ônibus carregado de apoiadores da milícia.