“Estávamos dispostos a tudo pela reforma energética”

O presidente do PRI encerra o ano do Pacto pelo México reconhecendo que pagou caro pela aprovação da abertura no setor dos hidrocarbonetos

Camacho, o presidente do PRI.
Camacho, o presidente do PRI.Pradip Phanse

César Camacho (Estado do México, 1959) foi governador do Estado do México dez anos antes de Enrique Peña Nieto, hoje presidente do país. Desde dezembro de 2012 ele dirige o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que nas eleições locais deste ano obteve 55% dos votos, 70% das vagas de vereador e 59% das prefeituras em disputa. Seu escritório na sede do partido está decorado com retratos a óleo dos pais da pátria. Sobre sua mesa chama a atenção um peso de papéis com um dinossauro (assim são informalmente chamados os priistas). “Foi um presente da família de um velho político ao que íamos visitar em busca de conselhos”, explica.

Pergunta. A reforma energética acaba de ser promulgada. É um fecho de ouro para 2013?

Resposta. Começamos o ano com uma reforma educacional de amplo consenso. E a reforma com maiúsculas é a energética. Uma reforma que durante muitos anos dividiu o México. A muitos faltava uma dose de arrojo, falo dos líderes políticos, para ir atrás de uma reforma de calado profundo, que mudasse radicalmente nossas possibilidades de crescimento econômico.

P. Sempre se sublinhou o pragmatismo do PRI. Vocês votaram uma reforma muito semelhante à que foi apresentada em 2008 pelo PAN. Na ocasião se opuseram a ela.

R. Que bom que você me pergunta isso, porque tenho uma boa explicação. O PRI em termos ideológicos se assume como um partido de centro, de centro-esquerda inclusive. É óbvio que admito haver uma boa dose de pragmatismo no exercício da política pelo PRI. Digo isso porque algumas coisas que pactuamos tiveram um alto custo para nós. É evidente que parte desse pragmatismo é saber calcular. Saber onde se pode ganhar e onde se pode perder.

O que aconteceu com a nossa aparente mudança de critério de 2008 para cá? Aquela não era a reforma que aprovamos hoje. Era um reforma privatizadora. A mesma proposta que o PAN expôs em 2008 foi a que expôs há alguns meses no Senado. E não foi essa a aprovada.

P. Mas a que foi aprovada está mais próxima da proposta do PAN do que da de vocês.

R. Isso me parece mais um discurso do que uma argumentação sólida. Vou lançar mão de um recurso que eles utilizaram: que a reforma energética é azul [cor do PAN]. E eu corrijo, é tricolor. Não só pelas cores do PRI, mas sim porque é uma reforma a favor dos mexicanos. A parte central, a privatização, não apareceu de nenhum lado, é o coração e a coluna vertebral da proposta de 2008, à qual não aderimos pelas mesmas razões que hoje não aderiríamos. Precisamos sacrificar posições originais incorporando o termo “licenças”, mas não “concessões”. Há quem analise superficialmente e diga que é a mesma coisa. Claro que não. No mundo jurídico é diferente autorização, permissão, licença e concessão.

P. Que custo vocês pagaram na reforma política para obter a energética?

R. Há um setor do PRI que viu isso como uma concessão muito cara. Eu o que digo é que no fim das contas é um acordo. E os acordos são honrados e implicam um cálculo. Para nós, o INE [o instituto nacional eleitoral criado para tirar poderes dos organismos locais encarregados de organizar eleições] é muito custoso, politicamente falando. Continuamos tendo restrições sobre como ele pode funcionar. Restrições que vamos superando com uma atitude bem intencionada ao fazer a lei complementar. É um pouco contraditório que, querendo fortalecer o federalismo, se viole seriamente o federalismo. O maior número de governadores, 20 de 32, é nosso, e assumimos as decisões com virilidade e força. E direi sem recato, se me perguntasse o que é que estávamos dispostos a pagar pela reforma energética: tudo.

P. Menos a incorporação de um segundo turno nas eleições, pelo que entendi.

R. Bom, quase tudo. É correto. [Mas] apostamos muito na reforma energética.

P. O PRI ganhou as eleições com 38% dos votos. Por que não incluir o tema do segundo turno numa ambiciosa agenda de reformas políticas e eleitorais?

R. É um tema que o PRI precisa voltar a comentar internamente. Assim como admitimos temas dos quais não gostamos, houve temas que gostávamos e não entraram. Numa mesa de negociação, ninguém perde nem ganha tudo.

P. O PRD abandonou o Pacto pelo México. O PRI tem a intenção de salvar-lhe a vida, ou já obteve o que necessitava com o Pacto?

R. A marca Pacto pelo México pode não ter vida futura, porém é inevitavelmente necessária a atitude pactuária. O Pacto é criado como uma mesa fora do Congresso, mas se não houver mesa fora do Congresso haverá dentro do Congresso. O importante, acredito eu, é não perder essa inércia negociadora e eficaz que todos nós conseguimos. E faço votos de que o PRD retorne à mesa, porque cedo ou tarde eles precisarão se pronunciar para as leis complementares nas questões energética e político-eleitoral. Seria uma lástima que o processo ficasse truncado por uma atitude de indisposição política.

P. Foi obtida uma agenda muito bem sucedida de reformas em tempo recorde. Entretanto, a aprovação de Enrique Peña Nieto caiu quatro pontos em um ano, até 49%. Por quê?

R. É arriscado dizer. As opiniões da cidadania mudam todos os dias. Mais do que isso, eu diria que mudam a cada hora. Os índices que você fala que foram registrados, alguns não incluem o fator da reforma energética. Não está incorporado. Tampouco esperaria que uma reforma, como um elixir, mude o ponto de vista de alguém da noite para o dia. Conseguir que haja uma total compreensão desse tipo de fenômeno leva tempo e obriga a uma campanha persuasiva.

O presidente Peña investiu muito do seu capital político nessas reformas, que acarretam riscos. São reformas que serão comunicadas junto com o seguro-desemprego e a pensão universal que entrarão em vigor no próximo ano. Para financiar melhor a “Cruzada contra a Fome” e a redução das tarifas na energia elétrica.

P. O que acontecerá com os setores da esquerda que traçaram um caminho que prenuncia um desafio ao Governo?

R. Acreditamos que a violência verbal ou física seja a antipolítica. Há uma sociedade ávida de que haja ordem e não se subverta a convivência, que não se lancem por terra as conquistas alcançadas. Um governo democrático deve saber escutar, mas um governo democrático também, chegado o momento, tem de aplicar a lei.

P. Jesús Zambrano [dirigente do PRD] disse que deseja reverter a reforma energética mediante uma consulta popular em 2015.

R. Em um país democrático não se deve ir contra a certeza jurídica. Se as decisões tomadas estão sujeitas a consulta não avançaremos nunca. É costume consultar os cidadãos sobre as decisões antes de serem tomadas.