Os pró-europeus endurecem nas ruas contra o presidente da Ucrânia

A oposição a Yanukovich espera reunir 1 milhão de pessoas na praça da Independência, em Kiev, contra o distanciamento em relação à União Europeia

Manifestação de oposição em Kiev.
Manifestação de oposição em Kiev.GLEB GARANICH (REUTERS)

É impossível prever como terminará a tensa jornada de domingo na capital da Ucrânia. Pode ser que nesta noite manifestantes e policiais, com flores presas às fardas, se confraternizem numa festa popular em Kiev, mas também é possível que o bloqueio dos edifícios governamentais permaneça por tempo indeterminado, numa guerra de desgaste, ou então que haja vítimas, que se derrame sangue e se repita de alguma forma a situação do domingo passado, quando a Berkut (tropa de choque) atacou com violência a multidão que tentava bloquear a sede da presidência.

Centenas de milhares de pessoas voltaram a sair à praça para pedir a demissão do presidente Viktor Yanukovich e do seu gabinete, bem como a aceitação de um tratado de associação com a União Europeia e punições pela repressão do fim de semana passado. A bandeira estrelada da UE tremula nas praças e ruas de Kiev e dá abrigo a uma multidão animada e resoluta, que está simplesmente farta e tem muito claro o que deseja: a revolução.

No confronto que está em curso na Ucrânia convergem muitas linhas de argumentação, das mais prosaicas às mais globais e geoestratégicas. Algumas coisas ficaram claras: a Guerra Fria não terminou na Europa, e o império soviético, na maior parte do seu território, ainda não deu lugar a países estáveis e democráticos, com instituições capazes de canalizar reivindicações democráticas.

Os líderes da revolução ucraniana não controlam a multidão que deseja a revolução. Isso pode assustar, mas tudo depende de como o jogo irá terminar. Se os revolucionários vencerem e o regime de Yanukovich cair sem sangue, e se o grito da rua for canalizado para um processo eleitoral, então talvez quem tenha mais motivo para inquietação será Vladimir Putin, o líder da Rússia, já que a Ucrânia pode se tornar um exemplo do que poderia ocorrer no seu próprio país.

Mas, se os manifestantes fracassarem e a violência e a anarquia se apoderarem de um país como a Ucrânia, e isso justificar uma brutal repressão política, aí todos poderão se assustar, de Washington a Moscou, passando por Bruxelas. E, nesse caso, pode ser que nós, analistas, tenhamos de começar a examinar a perspectiva real de desmoronamento de um país que pertence em parte – no sul e leste – à esfera cultural russa, enquanto no oeste fica o berço do nacionalismo ucraniano. O fantasma da Iugoslávia então surgiria no horizonte.

Mas, independentemente de qual seja a análise da situação a posteriori, a quantidade de pessoas de meia-idade decididas a exigir a queda do Governo não deixa dúvidas: as centenas de milhares de pessoas que saem à praça de Kiev estão fartas. Na rua Hrushevskoho, em frente à sede do Governo, grupos de manifestantes erguiam as cercas metálicas dos canteiros em torno das árvores. Com uma peça metálica na mão, um homem já maduro respondia às perguntas desta correspondente:

– Por que o senhor está com esse ferro na mão?

– Este ferro é para construir uma barricada. Não temos nada mais. Não temos outros métodos. Temos paus e o que conseguimos, e nos defenderemos dessas autoridades.

– E não pode ser que o senhor acabe usando esse ferro para atacar?

– Acho que, se esses dirigentes ficarem, eu pessoalmente vou ser castigado, porque já filmaram todos os que estamos participando nisto. Não temos saída. Precisamos vencer.

– De onde o senhor é? Que idade tem?

– Sou de Donetsk. Tenho 55 anos.

– O senhor trabalha em minas?

– Não. Só tenho quatro filhos e seis netos, e quero que vivam em um país europeu.

– A Europa não precisa de gente agressiva, e sim de gente que se ponha de acordo pacificamente.

– E por acaso vocês precisam desses bandidos [aponta para a sede do Governo]? Já tentamos, e não entendem. Batem nos nossos filhos que se manifestam pacificamente. Precisamos esperar que batam em todos? Nós não batemos neles, e estas grades são propriedade da prefeitura –, diz ele, sacudindo o pedaço de jardineira que tem na mão.

– Isso é um grande pedaço de ferro.

– E servirá para as nossas barricadas. Não as ergueremos contra eles [as forças de segurança] como eles erguerem seus cassetetes contra nós.

– Como o senhor se chama?

Meu interlocutor me dá o nome completo – nome de batismo e sobrenome. Faz isso diante do gravador, tranquilo, decidido, com a grade na mão, com o rosto descoberto. E esse rosto descoberto, esse nome dado sem hesitações, são uma afirmação de responsabilidade imponente e também assustadora. Tudo dependerá de como acabe.