Os saques a lojas provocam duas mortes na Argentina

Um idoso e um jovem de 20 anos que participava dos roubos morreu ao ser atingido por um disparo de origem ainda desconhecida e outras 110 pessoas ficaram feridas O dono de uma loja morreu de asfixia depois de os saqueadores incendiarem o local

Assalto em Córdoba, nesta terça-feira.
Assalto em Córdoba, nesta terça-feira.STR / AFP

Um protesto da polícia por aumento salarial provocou na cidade argentina de Córdoba -cidade de 1,3 milhões de habitantes situada a 700 quilômetros ao noroeste de Buenos Aires- saques a mais de 30 supermercados, lojas de eletrodomésticos e outros centros comerciais durante a tarde de terça-feira e a madrugada da quarta-feira. Um jovem de 20 anos que participava dos roubos morreu ao ser atingido por um disparo de origem ainda desconhecida, um idoso de 85 anos faleceu quando saqueadores entraram na sua casa, e outras 110 pessoas ficaram feridas enquanto donos e empregados de comércios defendiam suas propriedades com armas brancas e de fogo. Além disso, 52 saqueadores foram presos por policiais que não aderiram à greve. O advogado dos grevistas anunciou na manhã desta quarta-feira um acordo para elevar os salários, o que os faria voltar a suas funções. Os policiais de Córdoba voltaram a vigiar as ruas entre aplausos e insultos dos cidadãos.

Aos saques em Córdoba acrescentou-se outro na madrugada da quarta-feira na localidade de Glew, na Grande Buenos Aires (periferia da capital). Ali ocorreu a segunda morte. Vários vizinhos tentaram roubar um supermercado de propriedade de imigrantes chineses. O dono do local tentou resistir, mas os saqueadores reagiram incendiando o comércio. Ele acabou morrendo de asfixia, segundo disseram os bombeiros voluntários de Glew ao El País. O saque foi a reação de alguns vizinhos depois que um temporal deixou cinco mortos e 1,2 milhões de usuários sem eletricidade nesta segunda-feira nas províncias de Córdoba e Buenos Aires.

O governador da província de Córdoba, o dissidente peronista e opositor ao Governo José Manuel de la Sota, estava no Panamá e voltou ao país com urgência durante a madrugada. De la Sota afirmou, primeiro, que não tinha dinheiro para pagar os aumentos que os agentes pedem, mas depois o encontrou. O Governador precisou pedir ajuda ao grupo militar Corpo Nacional da Gendarmería, mas disse que não recebeu resposta. Somente um pequeno grupo de policiais, formado por uns 100 agentes, tentavam conter os vândalos em diferentes pontos da cidade. Na manhã da quarta-feira, o Governo da peronista Cristina Fernández de Kirchner anunciou que pela noite chegariam a Córdoba uns 2.000 militares.

“Aqui há grupos de delinquentes que andam em moto, que quebram vitrines… Diante dessa situação, a força policial está em seu recinto, sem agir”, disse o governador. “A polícia da província de Córdoba tem uma remuneração que está acima das outras forças policiais. Mas aqui se trata de que abandonem sua atitude”.

As câmeras de televisão gravaram dezenas de pessoas sem o rosto coberto que roubavam tudo o que encontravam: bebidas, telefones, carrinhos de bebês, aparelhos de ar condicionado, televisores, alimentos, colchões, geladeiras… Alguns chegavam a pé e outros em motos. Se os agentes tentavam chamar a atenção sobre a importância de seu trabalho, conseguiram plenamente.

A prefeitura decretou na quarta-feira dia de folga administrativa e a suspensão das aulas. Houve várias tentativas de chegar a um acordo com os 2.200 agentes em greve, mas todas estavam condenadas ao fracasso até a manhã desta quarta.

Nas últimas semanas, registraram-se algumas tentativas de saques em outras cidades argentinas, como já aconteceu em outros finais de ano no país. Na semana passada, em Rosario e seus subúrbios, na província de Santa Fé, governada pelo socialismo, a polícia local prendeu 65 pessoas em ataques frustrados a comércios que deixaram quatro feridos. Há duas semanas, em um município da periferia de Buenos Aires, San Fernando, governado pelo peronismo dissidente, também houve tentativas. Os saques muitas vezes são organizados por dirigentes políticos dos bairros, que respondem a outros de maior envergadura, mas deles participam muitos cidadãos em situação de pobreza. Na Argentina, 24,5% da população ainda é pobre, segundo a Universidade Católica, isto é, muito menos que os quase 60% registrados na crise de 2002, enquanto a inflação, que ascende 25%, está afetando mais os preços dos alimentos, que são o principal consumo dos que menos têm.

Nota: Uma versão anterior desta reportagem informava sobre a morte de três pessoas pelos saques. A polícia argentina confirmou apenas duas mortes relacionadas com o ocorrido.

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