A história do repórter de dois países e de nenhum

O jornalista Alfredo Corchado, autor de 'Medianoche en México', retrata o sentimento do imigrante e fala sobre sua motivação profissional

O jornalista Alfredo Corchado, em Guadalajara.
O jornalista Alfredo Corchado, em Guadalajara.SAÚL RUIZ

Alfredo Corchado nasceu em San Luis de Borrego, Estado de Durango, um diminuto povoado de 2.000 habitantes ao noroeste do México. Sua avó e seu tio enterraram seu umbigo debaixo de um cacto e umas mata de ocotillo (uma espécie de arbusto). Deixou sua terra ainda muito pequeno, depois que sua irmã Lupita morreu em um acidente em 1964, para ir aos Estados Unidos. Foi “chutando e gritando” recorda em seu livro Medianoche en México (sem tradução para o português). E jurou voltar.

Lembra o episódio em um carro, rumo ao aeroporto de Guadalajara. Medianoche en México foi publicado em inglês há alguns meses e Corchado afirma que a apresentação em espanhol o assombrava um pouco. “Tinha verdadeiro nervosismo”, afirma. “Além disso, eu sou um filho de camponeses e aqui [na Feira Internacional do Livro] estão os meros meros (a elite). Para mim é uma honra que tenham me convidado”.

Corchado deixou o México quando era um menino e trabalhou com seus pais nos campos de laranjas da Califórnia. Conseguiu ir à universidade de Texas e depois se dedicou ao jornalismo. É o chefe da redação de The Dallas Morning News na capital do país. Medianoche en México traça um emotivo retrato de seus mais de 20 anos de experiência como repórter em seu país, ou em um de seus dois países conforme de onde se veja. Como mais de 40 milhões de pessoas, Corchado é mexicano e norte-americano. Conhece bem o sentimento de se sentir às vezes de dois países e às vezes de nenhum.

Não é outro livro de narcotráfico. É um livro sobre os sentimentos encontrados de um homem que jura voltar a seu país e o encontra convulso e ferido. “Meu tio Delfino costumava dizer que o maior problema de México é a traição. Eu quis me livrar desse fatalismo, me perguntei muitas vezes se realmente somos tão maus. Muitos dos que se foram chegaram bem longe. Eu não conheci gente mais trabalhadora que os mexicanos. Então não entendo por que não exigimos mais. México é como esse botão de flor que nunca termina de se abrir”.

Se algo ensinaram a Los Zetas é que o narcotráfico não é responsabilidade inteira dos Estados Unidos

Corchado é um dos jornalistas que mais e melhor escreveu sobre a atividade do narcotráfico e o crime organizado na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Foi o repórter que batizou ao braço armado do cartel de Juárez como La Línea. Foi o primeiro que descreveu os macabros métodos de Los Zetas (cartel de narcotraficantes), e dos primeiros que alertaram de que a máfia já não se dedicava somente ao tráfico de drogas, senão também à extorsão, ao sequestro e ao tráfico de imigrantes. “Se algo ensinaram a Los Zetas é que o problema do narcotráfico não é responsabilidade inteira dos Estados Unidos. Claro que têm uma enorme culpa, mas quando eles começaram a se dedicar a outros crimes, ficou claro que o assunto não é tão branco e negro”. Suas investigações causaram que um dos chefes do grupo, Miguel Ángel Treviño Z-40, pedisse sua cabeça. Corchado deu a notícia em primeira mão de sua captura em julho passado.

Medianoche en México não é somente um livro sobre o narcotráfico. É um relato de um homem dividido entre dois países, que quer contar aos gringos como é o México e que busca entender México como mexicano. E não é uma tarefa singela. É um texto agridoce. Narra os acontecimentos mais duros dos últimos seis anos da história do país, marcados pela ofensiva contra o narcotráfico do ex-presidente Felipe Calderón, e também descreve o México. Sua tequila, sua música, suas praias, em seus dias ensolarados. Com a meticulosidade de um apaixonado.

Afirma que muitos imigrantes, obrigados a deixar seu país por falta de oportunidades, não só sentem nostalgia do México. Também guardam um pouco de ressentimento. “Um se pergunta, por que o México me obrigou a ir, e por que não se importou? Há melancolia, mas também um pouco de nojo. E ainda o vendo desde lá, dói igual. Não podemos entender por que permitimos que isto lhe passe ao país, por que regressou ao PRI”. Enoja-se com o México com frequência? “Claro. Inclusive teve um momento em que pensei deixar tudo. Em ir daqui e não voltar”. E o que o fez mudar de ideia? “É triste… quando cobri o massacre de Vilas de Salvárcar”. No dia 31 de janeiro de 2010, um grupo de pistoleiros invadiu uma festa juvenil. Matou 17 pessoas. Em uma das passagens mais dolorosas de Medianoche en México, Corchado relata o depoimento do pai de uma das vítimas. “Aí me dei conta de que queria seguir fazendo isto. É doloroso, sim, mas isso é o que quero contar. Por isso sou repórter”.