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“No México somos receptivos com o estrangeiro desde que ele seja loiro”

‘A fila índia’, de Antonio Ortuño, descreve o inferno de milhares de centro-americanos que atravessam o país para chegar aos EUA

O escritor mexicano Antonio Ortuño.
O escritor mexicano Antonio Ortuño.

A fila índia (Oceano, 2013), de Antonio Ortuño, é um livro cheio de raiva. Raiva pela injustiça, pela corrupção, e por um país que devora como um processador de carne milhares de imigrantes centro-americanos. Pese o fato de que sua tragédia era quotidiana no México havia vários anos, só foi com o achado de 72 cadáveres em San Fernando (Tamaulipas, ao nordeste do país) que ficaram claras as miseráveis condições com as que homens, mulheres e meninos tentam chegar aos EUA. Mas a raiva de Ortuño, de início, não foi disparada por nenhum dos macabros acontecimentos que envolveram imigrantes desde o início da guerra contra o narcotráfico de Felipe Calderón. Foi o racismo de seu país. “Acho que após alguma das derrotas da seleção mexicana li alguns milhões de mensagens xenófobas no Twitter contra os centro-americanos”.

O livro de Ortuño, finalista do prêmio Herralde em 2007 com o romance Recursos Humanos, é um tipo de romance negro que descreve o inferno a que desce uma servidora pública com uma missão: repatriar as vítimas de um massacre em um povo perdido (a fictícia Santa Rita) no sudeste do México. E a parte mais escura do desolador panorama não são os crimes descritos, senão a absoluta indiferença que os rodeia.

Ortuño nasceu em Zapopan, um município ao lado de Guadalajara, em 1976. A cidade, a segunda maior do país, converteu-se em um ponto de descanso para milhares de pessoas que atravessam o México para tentar chegar aos EUA. E cada vez mais, já que a rota mais curta, que atravessa a costa do golfo de México, se converteu em um autêntico buraco negro devora-imigrantes. “Como sociedade, não estamos nem sequer no caminho de entender e defender os direitos de imigrantes. Sempre há gente mais sensível e que tem empatia com eles mas, em termos gerais, diria que Guadalajara prefere esconder os problemas embaixo do tapete. Foi só no momento que o governador disse que os imigrantes vinham para roubar na cidade que eles se tornaram visíveis. E não é um problema só de Guadalajara, é de todo o país”.

Ortuño descreve um México que se orgulha em mostrar como é generoso e receptivo com os estrangeiros, mas que é ao mesmo tempo uma sociedade classista, racista e gandalla (palavra mexicana para abusivo). “Existe em todo o país: de Tijuana até San Cristóbal das Casas. Oficialmente, o México não é um país racista, gostamos de nos mostrar muito receptivos, mas isso  desde que os estrangeiros sejam güeros [loiros]. E somos uma sociedade completamente fértil para tratar aos centro-americanos como os tratamos. Quando escuto alguém se referindo [aos indígenas] como oaxacos, quero agarrar o pescoço deles. Há muitos mexicanos que falam dos centro-americanos como os xerifes do Arizona falam dos mexicanos”.

"Quando escuto que alguém se refere [aos indígenas] como oaxacos, quero agarrar o pescoço"

O jovem autor tem um sentido de humor afiado e sem piedade. “No México temos o racismo que não se atreve a dizer seu nome”. Recorda uma frase de Pérez Reverte –“e olha que não gosto de citá-lo”, sublinha- que diz que no México os assaltantes pedem as carteiras “por favor”. Ele menciona um episódio de um amigo diplomata, que perguntou a um indiano como era o sistema de castas. “O indiano morreu de rir e disse: ‘E quando foi a última vez que você jantou com um pedreiro?’. Descendente de imigrantes espanhóis, reconhece que sua herança influiu na escrita do livro. “Estou aqui porque uma família saiu correndo da Espanha. E não todos eram José Gaos”.