Biden apoia o Panamá na confusão com Cuba por enviar armas a Pyongyang

As autoridades panamenhas detiveram em julho um barco norte-coreano que transportava armamento cubano sem autorização

Biden com o presidente do Panamá, Ricardo Martinelli (esquerda).
Biden com o presidente do Panamá, Ricardo Martinelli (esquerda).A. F. (AFP)

O vice-presidente dos Estados Unidos, Joseph Biden, afirmou nesta terça-feira no Panamá que a América Latina e o Caribe deixaram de ser o quintal dos Estados Unidos. Garantiu que agora são o “jardim da frente”, e respaldou o governo panamenho na confusão com Havana e Pyongyang pela retenção, em julho passado, de um barco norte-coreano que transportava clandestinamente armas enviadas por Cuba à Coreia do Norte.

No primeiro dia de uma visita ao Panamá que começou na segunda-feira à noite e terminará nesta quarta-feira, Biden afirmou que o governo panamenho atuou de maneira “responsável” ao deter a embarcação que zarpou de Havana com destino a um porto norte-coreano, carregada de armas escondidas entre 10.000 toneladas de açúcar, numa violação ao embargo armamentista imposto pelo Conselho de Segurança da ONU em 2006 a Pyongyang como punição ao país por seu programa nuclear.

“Os Estados Unidos estão agradecidos pela tomada de responsabilidade internacional, e vocês fizeram uma contribuição significativa para a real segurança global, não só para a segurança dos Estados Unidos. Nós somos capazes de gerir nossa própria segurança, mas vocês [panamenhos] contribuíram com a segurança global. É isso que as nações responsáveis fazem, e vocês fizeram”, afirmou.

Após reunião com o presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, no palácio de Las Garzas, na parte antiga da capital panamenha, Biden elogiou o país anfitrião por sua ação no caso da embarcação e, em tom irônico, salientou que teria sido bom “se fosse uma carga doce – mas não era açúcar”.

“E o Panamá fez algo que não esperávamos em todo o mundo. Deu um passo à frente onde outros teriam dado um passo atrás. Nós achamos que [a carga] é uma violação das sanções dos Estados Unidos. Mas, no entanto, o Panamá deu o passo à frente. Vocês encontraram e confiscaram armas que se dirigiam de Cuba para a Coreia do Norte”, destacou.

Devido a suspeitas de transporte de drogas, o barco norte-coreano Chong Chon Gang, com 35 tripulantes, foi retido por autoridades panamenhas em julho, quando se preparava para cruzar o canal do Panamá vindo do setor caribenho da rota interoceânica, rumo à Coreia do Norte. O Panamá anunciou em 15 de julho que foi encontrado no porão do barco, escondido no açúcar, um carregamento bélico “não declarado”. No dia seguinte, Cuba reconheceu que as armas eram de sua propriedade, mas alegou que eram obsoletas e que estavam sendo levadas para serem reparadas por um sócio norte-coreano.

Segundo Cuba, trata-se de armamento “defensivo obsoleto”, com dois complexos de foguetes antiaéreos e aviões Mig-21, entre outras peças, e que tudo foi fabricado em meados do século XX, e por isso a carga iria para a Coreia do Norte para ser consertada e devolvida à ilha. Antes de se pronunciar com uma decisão, o Conselho de Segurança da ONU aguarda o parecer de uma missão que inspecionou a carga, enquanto o Panamá deve entregar nos próximos dias a embarcação e 32 tripulantes aos norte-coreanos.

Biden também assegurou que a América Latina e o Caribe ocupam agora uma posição de maior importância para Washington. A declaração ocorreu um dia depois de o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, dizer na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA) que a era da Doutrina Monroe – base da política intervencionista da Casa Branca no continente, sob a premissa da “América para os americanos” – terminou.

Em outras épocas, recordou o vice-presidente, a política norte-americana na região se baseava no critério de “o que podemos fazer pelos nossos irmãos da nossa América?”. Agora, acrescentou, “esse já não é o nosso papel. Essa não é a minha visão nem a do presidente [Barack] Obama. O que dizemos é: o que podemos fazer juntos, como podemos andar juntos?”.

Biden elogiou o Panamá e disse que “o que vocês fizeram com o Canal é um exemplo das possibilidades mútuas que podem ser criadas. Esta é uma região, o hemisfério é uma região que cresce e tem um potencial ilimitado. Então se trata do que podemos fazer juntos, e não mais, como eu disse antes, não é mais aquilo de falar de quintal dos Estados Unidos. É o jardim da frente”.

“É um mundo diferente, são oportunidades diferentes para todos nós, e isso é o que falamos com o presidente Martinelli, e, como dissemos antes reservadamente, já o havíamos feito, falamos de um avanço na nossa sociedade econômica. Nós apoiamos a visão de longo prazo do Panamá, de construir uma economia que rivalize com a de Cingapura”, observou.

Já Martinelli declarou que na “proveitosa” conversa com Biden analisou assuntos de comércio, cooperação hemisférica, segurança, narcotráfico, terrorismo e ampliação do Canal, que deve ser concluída em 2015. Acompanhado de congressistas e de outras autoridades norte-americanas, o vice-presidente visitou nesta terça-feira as obras de ampliação da via interoceânica.

O presidente destacou que as novas instalações do Canal serão essenciais para o comércio mundial, e afirmou que uma série de portos norte-americanos no litoral atlântico devem ser dragados a 50 pés (15,2 metros) para aproveitar o serviço de navios de maior capacidade, denominados Post-Panamax, que transitarão pela via interoceânica a partir de 2015.

“Isso vai trazer uma enorme quantidade de benefícios, não somente para o Panamá e para a economia mundial, como também para a enorme quantidade de posto de trabalho e oportunidades que serão criados numa enorme quantidade de portos dos Estados Unidos”, disse o governante.

Panamá, Estados Unidos e “um grupo de países amigos” devem iniciar “desde já” um estudo sobre as possibilidades de uma segunda ampliação do Canal, disse Martinelli, citando a necessidade de construir um “quarto conjunto” de eclusas na atual via interoceânica, construída por Washington entre 1904 e 1914, e prestes a completar 100 anos.