REPESCAGEM PARA A COPA DE 2014 | FRANÇA-UCRÂNIA

A França triunfa com o coração

Os “bleus”, enfim com um futebol intenso, decidido e afiado, garantem vaga para o Brasil depois de reverterem a derrota frente à Ucrânia, com dois gols de Sakho e outro de Benzema

FRANCK FIFE (AFP)

Vinte anos e dois dias depois do fiasco de 1993, quando um gol do búlgaro Kostadinov no último minuto tirou a seleção de Michel Platini da Copa dos Estados Unidos, a França se vingou na noite de ontem e já pode marcar a passagem para o Brasil, após uma eletrizante virada contra a Ucrânia. Em uma partida de vida ou morte para Didier Deschamps, os bleus superaram uma Ucrânia que esteve na corda-bamba, sempre na retranca. A França tentou por todos os caminhos penetrar a muralha amarela – com a eletricidade de Ribéry, a calma de Benzema e o alvoroço de Valbuena. E finalmente jogou de forma intensa, decidida e afiada. Criou ocasiões num ritmo constante, apertou muito em alguns momentos, e quase sempre pareceu ter a presença suficiente para a virada depois dos 2-0 de Kiev. Foi a primeira vez na história de uma repescagem das Eliminatórias da Copa que um time se recupera de um 2-0, e essa glória foi uma bênção para um país que chegou ao confronto entre o cepticismo e a cólera.

FRANÇA 3 X 0 UCRÂNIA

França: Lloris; Debuchy (Sagna, min 78), Varane, Sakho, Evra; Matuidi, Cabaye, Pogba; Valbuena, Ribery, Benzema (Giroud, min 82). Não utilizados: Mandanda, Landreau; Sissoko, Grenier, Mavuba, Nasri, Clichy, Abidal e Payet.

Ucrânia: Pyatov; Rakitskyi, Khacheridi, Shevchuk, Mandzyuk; Yarmolenko, Bezus (Gusev, min 64), Edmar, Rodam; Konoplyanka e Zozulya (Seleznov, min.71). Não utilizados: Stepanenko, Dedechko, V. Fedorchuk, Devic, Tymoshchuk, Sydorchuk, Khudzhamov, Khomchenovsky e Morozyuk.

Gols: 1-0, min 21, Sakho; 2-0, min 33, Benzema; 3-0, min 71, Gusev, contra.

Árbitro: Skomina (Eslovênia). Deu cartão amarelo a Sakho, Evra, Debuchy, Rodam e Mandzyuk, e vermelho a Khacheridi por dupla advertência (min 45 e min 47).

80.000 espectadores no Saint Denis.

A seleção tricolor, vaiada por seu público antes da partida por causa da sua suposta falta de compromisso, ganhou a torcida do presidente da República, François Hollande, e da oposição de centro-direita. Em campo, 80.000 espectadores pressionaram como feras desde o apito inicial. Alguns haviam pedido união aos depressivos rapazes da seleção da França. Deschamps trocou o 4-3-2-1 por um 4-3-3 muito dinâmico, com Valbuena como armador, tratando de conservar e recuperar rápido a bola com Cabaye e de aproveitar as chegadas de Pogba pelo meio.

O plano funcionou por esmagamento, aos trancos e barrancos, em parte graças à própria agitação dos azuis: já no segundo minuto a França havia criado duas ocasiões seguidas, mas o arqueiro ucraniano apareceu com uma mão milagrosa, e no instante seguinte ninguém conseguiu arrematar um cruzamento rasteiro e venenoso de Benzema, que passou pela pequena área.

Consciente de que era uma aposta de tudo ou nada, o técnico francês havia modificado mais de meia equipe. Benzema entrou no lugar de Giroud e foi um pouco menos indolente que o habitual. Ribéry teve empenho e bons dribles. Varane blindou a zaga com o canhoto Sakho, e os dois subiram para finalizar passes fornecidos por Valbuena, embora tenha sido Pogba quem arrematou fraco e para fora aos oito minutos, e Benzema quem cabeceou por cima pouco depois.

Conscientes do drama que a não virada representaria, os franceses correram mais do que pensaram, embora tenham tecido algumas combinações elétricas. A Ucrânia nunca conseguiu parar o jogo, porque Cabaye e Pogba cresceram nos desarmes. Embora a França tenha dominado sem perigo excessivo, após defender três escanteios seguidos o gol que prenunciava a ida ao Brasil chegou de forma inesperada. Aproveitando a sobra de uma falta cobrada por Valbuena, Ribéry chutou rasteiro, e o goleiro ucraniano não segurou. Sakho aproveitou o rebote, quase sem ângulo.

OS 31 CLASSIFICADOS*

- Zona Africana:

Camarões, Nigéria, Costa de Marfim, Gana e Argélia.

- Ásia:

Austrália, Japão, Irã e Coréia do Sul.

- Europa:

Alemanha, Bélgica, Bósnia, Espanha, Inglaterra, Itália, Holanda, Rússia, Suíça, Grécia, Croácia, Portugal e França.

- América Central e do Norte:

Costa Rica, Estados Unidos, Honduras e México.

- América do Sul:

Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador.

*Hoje se soma ao grupo o ganhador do confronto eliminatório entre Jordânia e Uruguai. O sorteio dos grupos da Copa acontece em 6 de dezembro, às 13h, em Salvador.

As 25.000 bandeiras tricolores distribuídas pela Federação ainda estavam todas desfraldadas quando o auxiliar anulou um gol legal de Benzema, com passe de Ribéry. A ofensiva se prolongou com um chutão de Valbuena salvo por Pyatov, e aos 33 o bandeira compensou seu erro validando o gol do atacante-poeta, em clara posição irregular. Hollande comemorou feito criança na tribuna, e a torcida cantou duas vezes a Marselhesa e fez o estádio balançar. Difícil imaginar o que fariam os donos da TF1, rede privada que pagou o equivalente a 397,4 milhões de reais pelos direitos da Copa.

O primeiro tempo pareceu uma eternidade para os ucranianos, incapazes de darem três passes seguidos diante da até então desconhecida garra gaulesa. No primeiro minuto do segundo tempo veio o castigo: o zagueiro Khacheridi entrou duro em Ribéry – segundo amarelo e chuveiro. Só faltava esperar o gol de la gloire ou um novo kostadinaço. Poderia ter acontecido no minuto 69, mas Lloris estava atento. E, no minuto 71, o zagueiro Sakho se transformou no herói que a França esperava. O garoto do Liverpool marcou quase sem querer, com a perna “ruim”, mas o trauma de 1993 estava esconjurado, e a Marselhesa foi bradada como nunca. A França mestiça, solidária e comprometida estava de volta. Agora resta ver quanto dura.

Festa no México, Croácia, Grécia, Gana e Argélia

Croácia e Grécia cumpriram os prognósticos e estarão no Brasil, depois de superarem a Islândia e a Romênia. Em Zagreb, a Croácia venceu por 2-0, depois do empate sem gols na ida. E isso apesar de jogar quase uma hora com um a menos, pela expulsão de Mandzukic no minuto 38, curiosamente nove minutos depois de abrir o marcador. A Islândia só se refugiou no contra-ataque, e Srna sentenciou o 2-0 no começo da segunda etapa.

Tampouco houve emoção em Bucareste: 1-1 entre Romênia e Grécia, após a vitória por 3-1 dos helênicos no jogo de ida, quando eles já haviam demonstrado grande superioridade, com um resultado que foi até modesto. É a segunda Copa consecutiva para a Grécia, e a terceira da sua história.

Na América, o México carimbou o passaporte ao superar a Nova Zelândia por 4-2, sendo três gols de Peralta (9-3 para os astecas no placar agregado), e ficou faltando o Uruguai-Jordânia de quarta-feira à noite, com os sul-americanos em clara vantagem (5-0 na ida).

A África também encerrou sua fase de classificação. Gana garantiu vaga para 2014 apesar de perder por 2-1 na sua visita ao Egito, já que fez valer o cômodo placar da ida: 6-1. Irá à sua terceira Copa seguida, depois de chegar às oitavas de final em 2006 e às quartas em 2010. A última vaga africana foi para a Argélia, que se impôs por 1-0 contra Burkina Faso, depois de perder por 3-2 no jogo de ida. Será a sua quarta presença em Copas, depois de 1982, 1986 e 2010.

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