As manifestações pelo ‘bom senso’ chegam ao futebol brasileiro

Os jogadores profissionais criam um time para exigir um calendário mais enxuto e, assim, evitar lesões

Faixa do Bom Senso F.C. é exibida em campo.
Faixa do Bom Senso F.C. é exibida em campo.Rubens Chiri/saopaulofc.net

Os jogadores dos principais times brasileiros de futebol transformaram suas camisas em bandeiras políticas. Nas últimas semanas, antes das partidas que disputaram pelo Campeonato Brasileiro, fizeram do gramado um palanque, onde deram abraços coletivos, exibiram faixas e cruzaram os braços por alguns instantes, com a bola já em jogo. No dia 13, durante a disputa entre Flamengo e São Paulo, donos da primeira e da terceira maiores torcidas do futebol brasileiro, as duas equipes atrasaram em um minuto o início da partida com um bate-bola amistoso entre os rivais. Nos dias 24 e 25 de novembro, em partidas importantes, como São Paulo e Botafogo, eles se ajoelharam em campo. O objetivo era chamar a atenção da torcida, que respondeu com aplausos.

 A união de camisas concorrentes tem um motivo. Inspirado nas manifestações sociais iniciadas nas ruas do Brasil em junho, o futebol brasileiro também despertou e exige que os dirigentes do esporte tenham “bom senso”. O grupo de manifestantes formou um time de futebol próprio, chamado Bom Senso F.C, que já reúne 1.000 jogadores profissionais das séries A e B. Dentre eles, as estrelas do São Paulo Rogério Ceni e Paulo Henrique Ganso, do Corinthians, Alexandre Pato, e o meia do Palmeiras, Jorge Valdívia. Eles querem um calendário de jogos mais enxuto, que não permita 87 partidas em um ano, como aconteceria com o time do São Paulo, caso avançasse nas cinco competições das quais participou em 2013. O grupo usa como comparação times europeus, que disputam, em média, 58 partidas no ano.

Os jogadores pedem que o cronograma respeite o mês inteiro de férias previsto na lei trabalhista brasileira, tenha no máximo sete jogos a cada 30 dias e contemple um período maior de treinos antes da temporada para a readequação física e técnica pós- descanso. Também querem que os jogadores tenham voz nos conselhos técnicos dos campeonatos e das entidades esportivas para que opinem não só sobre a agenda de jogos, mas também sobre o regulamento dos campeonatos e sobre o preço dos ingressos.

O movimento começou informalmente, entre jogadores que creditavam o cansaço que sentiam após as partidas ao ritmo e ao excesso de torneios. O que a princípio estava restrito às conversas de vestiários, ganhou força após a criação de um grupo no Whatsapp, aplicativo de troca de mensagens no celular, que chegou a reunir 70 jogadores. A fúria aumentou quando, em 20 de setembro, o calendário oficial das partidas de 2014 foi divulgado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e estava mais apertado por conta da Copa do Mundo. Alguns times teriam quatro dias de pré-temporada e as férias estavam prejudicadas.

Três dias depois, uma página no Facebook foi criada por eles para tornar as queixas públicas. Cerca de 800 jogadores já estavam unidos. Logo, o número subiu para 1.000 e a página obteve mais de 36.000 likes de torcedores. Mais confiantes, os jogadores formaram uma comissão para negociar as reivindicações com a CBF.

Depois da primeira rodada de protestos, iniciada em 19 de outubro de forma tímida, o presidente da confederação, José Maria Marin, os encontrou para conversar. A confederação, geralmente distante dos jogadores, considerou a reunião “proveitosa”. Prometeu ao grupo que os 30 dias de férias seriam garantidos em 2014, mas não chegou a um acordo sobre os demais pontos, reclamam os jogadores. “Foi uma reunião inédita na história do futebol brasileiro. Mas, na prática, não mudou nada até agora", conta Alex, meia do Coritiba, equipe do sul do Brasil que disputa a primeira divisão. Com passagens pelo Parma, da Itália, e pelo Fenerbahçe, da Turquia, onde se tornou ídolo e ganhou uma estátua em frente ao estádio, Alex é um dos “técnicos” do Bom Senso.

A mobilização dentro dos times chega em um momento delicado para a CBF, que tem eleições presidenciais previstas para abril do próximo ano, dois meses antes da Copa do Mundo. Marin assumiu a gestão em março de 2012, após 23 anos de administração de Ricardo Teixeira, que renunciou ao cargo depois de ter o nome envolvido em um escândalo de fraudes – ele havia pedido licença antes, alegando problemas de saúde. Agora, tenta emplacar seu braço-direito, Marco Polo del Nero, vice-presidente da CBF, mas enfrenta a concorrência de Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians, clube que tem a segunda maior torcida do país.

Os jogadores, no entanto, desconversam quando o assunto é a eleição. As reivindicações, afirmam eles, estão relacionadas ao excesso de trabalho que leva a contusões cada vez mais numerosas pelos gramados. “O futebol brasileiro mudou muito desde os anos 1970, tornado-se mais veloz, mais intenso, e menos técnico", conta João Paulo Medina, ex-preparador físico da seleção brasileira e de alguns dos principais clubes do país. Criador da Universidade do Futebol, que realiza estudos sobre o esporte, ele auxiliou os jogadores do Bom Senso a elaborar o dossiê com as solicitações apresentadas à CBF.

"O excesso de atividades deixa o jogador cansado, ele não entra em campo com a mesma energia nos lances. Isso expõe mais os atletas às lesões", afirma. Medina cita o exemplo de alguns craques, como o holandês Seedorf, que joga no Botafogo; Zé Roberto, do Grêmio, que teve passagens por times da Alemanha; Juninho Paulista, que jogou na França, e hoje atua no Vasco; e do próprio Alex, idealizador do Bom Senso. Todos tiveram lesões e desfalcaram seus times neste ano.

Rene Jorge Abdalla, professor do departamento de ortopedia e traumatologia da Escola Paulista de Medicina, de São Paulo, aponta ainda que a exigência física tem prejudicado até os atletas de base. "Hoje, no Hospital do Coração, realizamos em média dez procedimentos cirúrgicos no joelho de atletas profissionais todos os anos. E fazemos outras 15 em atletas das categorias sub 15 e sub 18". Para Abdalla, essa mudança no estilo de jogar no Brasil, associada ao excesso de atividades, tem encurtado a carreira dos atletas.

Com a ausência de craques em momentos importantes, os jogadores argumentam que o interesse dos torcedores pelas partidas tem diminuído. O dossiê da Universidade do Futebol mostra que no ano passado e neste ano a ocupação média nos estádios foi de 38% no Campeonato Brasileiro, atrás do que foi visto, por exemplo, na Bundesliga alemã, que teve 95% de ocupação, e nos campeonatos de países com menos tradição na modalidade, como a China (44%) e a Rússia (63%).

Sem uma nova rodada de negociações com a CBF, os jogadores, agora, ameaçam cruzar os braços de vez e paralisar a última rodada do campeonato, em dezembro. Outro fato que seria inédito no cordial país do futebol.

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