Ataque terrorista em Paris

“Só consideram provocação quando desenhamos Maomé”

Leia reportagem sobre diretor da 'Charlie Hebdo', Stéphane Charbonnier, publicada em 2012 Charb morreu nesta quarta-feira após atentado a revista que foi invadida por atiradores

Diretor do semanário satírico Charlie Hebdo, Charb, em Paris.
Diretor do semanário satírico Charlie Hebdo, Charb, em Paris.

Leia abaixo reportagem sobre o diretor da "Charlie Hebdo", Stéphane Charbonnier, conhecido como Charb, publicada no EL PAÍS no dia 19 de setembro de 2012. O diretor morreu nesta quarta-feira após atentado a revista francesa que foi invadida por homens com fuzis Kalashnikov .

O diretor da Charlie Hebdo, Stéphane Charbonnier, Charb, vive sob escolta policial desde novembro de 2011. Na quarta-feira foi fotografado com o punho no alto e mostrando sua capa, defendeu as vinhetas “em nome da liberdade de imprensa” e afirmou que “respeitam as leis da República”. Charb explicou que não fizeram nada de extraordinário, e que é muito mais perigosa a autocensura do que a publicação: “Se nos fizermos a pergunta: temos direito de desenhar ou não Maomé, é perigoso ou não publicar, a questão que virá depois será se podemos representar os muçulmanos no jornal, e depois nos perguntaremos se podemos mostrar seres humanos... E no final, não publicaremos mais nada, e o punhado de extremistas que se agitam no mundo e na França terão ganhado.”

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Charb foi o protagonista indiscutível da quarta-feira na França. Percorreu todos os meios concedendo entrevistas, rechaçou a condenação divulgada por seu Governo e afirmou que o primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, “deveria defender a liberdade de imprensa e a República em vez de ficar impressionado pelos palhaços que se manifestam”. O advogado da revista, Richard Malka, lembrou que o presidente da República, François Hollande, defendeu em 2007 a liberdade de crítica às religiões e considerou “insuportável a ideia de que existam tabus dos quais não se pode falar. Estamos em um país laico, a tradição de fazer caricaturas do fato religioso se remonta a mais de um século e o delito de blasfêmia não existe.”

Teoricamente irreverente e surdo aos desejos do poder, o semanário fundado em 1992, que sucedeu outra publicação chamada Hara Kiri, há muitos anos faz sátira e humor mais ou menos pesado com todos os tipos de fundamentalismos, principalmente o católico e o islâmico. E ao mesmo tempo se beneficiou da popularidade e da mercadotecnia que em um país tão laico como a França gera o fato religioso.

Em fevereiro de 2006, o semanário republicou as 12 caricaturas de Maomé da revista dinamarquesa Jyllands Posten — que geraram uma onda de protestos e dezenas de mortes nos países islâmicos – e acrescentou outras em uma edição cuja capa mostrava o profeta chorando e dizendo: “É difícil ser amado por babacas.”

Aquele número vendeu 300.000 exemplares e ganhou uma reprimenda do presidente Jacques Chirac e um processo de três organizações islâmicas por “racismo”. Durante o julgamento, Nicolás Sarkozy enviou uma carta apoiando a tradição da sátira e Hollande se juntou à defesa da imprensa livre. O diretor, Philippe Val, bom amigo de Carla Bruni, terminou absolvido.

Em 2010, Val foi substituído por dois desenhistas: Charb e Riss (Laurent Sourisseau). E hoje, apesar de serem chamados de irresponsáveis, os diretores não assumem a acusação de jogar gasolina no fogo: “É como reprovar uma mulher que foi violentada porque estava usando minissaia. Somos os provocadores porque usamos minissaia, ou o estuprador que é o provocador?”

“Fazemos caricaturas de todo mundo e só quando sai o Maomé é uma provocação”, acrescentaram. “É a mesma provocação de todas as semanas. Tivemos 14 disputas com a extrema direita católica e só uma com o Islã. Qual é o problema na França, o Islã ou a extrema direita católica? Estamos de acordo com apelar para a calma. Se alguém tem problemas conosco, que faça o que é feito na República. Apresentem uma denúncia, vamos ao tribunal e depois jogamos a partida tranquilamente, no marco da lei.”

Charb fez ironias sobre sua vida sob escolta policial. “Se esta é a condição para se expressar livremente na França, seremos protegidos pela polícia. Prefiro ter dois agentes ao meu lado durante um tempo, assim não se dedicam a expulsar ciganos”, brincou.