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Morto a tiros, à luz do dia, o grande repórter do tráfico no México

O jornalista Javier Valdez é o sexto morto pelo crime organizado até agora, neste ano

O corpo sem vida do jornalista Juan Valdez na segunda-feira.
O corpo sem vida do jornalista Juan Valdez na segunda-feira. CUARTOSCURO

A violência dos traficantes voltou a assassinar um jornalista no México. Javier Valdez, jornalista do Ríodoce, um dos repórteres que mais e melhor contou a violência do tráfico em Sinaloa, foi baleado na segunda-feira em plena luz do dia em Culiacán, capital do estado, depois que homens interceptaram seu veículo, segundo as primeiras versões levantadas pelo semanário em que trabalhava. Valdez é o sexto jornalista assassinado até agora, neste ano, no México, mais que a metade do ano passado, que bateu recordes com 11 execuções. Desde 2000, mais de 100 foram mortos.

“O jornalista do Ríodoce, Javier Valdez Cárdenas, foi assassinado há pouco na rua Vicente Riva Palacio, entre Ramón F. Iturbe e Epitacio Osuna, da Colonia Jorge Almada”, afirmava a concisa nota com a qual Ríodoce confirmava a morte de seu repórter. “De acordo com informações preliminares, o autor da coluna Mala Yerba, dirigia um Corolla vermelho de modelo recente, por aquela rua, quando foi interceptado por indivíduos que o balearam”, acrescenta o texto.

O golpe para o jornalismo, para a sociedade mexicana, é terrível, ainda mais pela escandalosa impunidade instalada e o silêncio das instituições. Não houve nenhuma prisão pelos seis assassinatos de jornalistas este ano. O presidente, Enrique Peña Nieto, condenou o atentado contra Valdez. A reação às cinco mortes prévias à de Valdez tinha sido até agora a nomeação de um procurador para crimes contra a liberdade de expressão, uma medida no mínimo irrisória se considerarmos a magnitude da tragédia.

Javier Valdez era uma eminência, o grande cronista do tráfico de drogas em Sinaloa, um dos jornalistas especializado em crime organizado mais respeitados do México. Seu livro Narco Periodismo. La prensa en medio del crimen y la denuncia aborda o trabalho dos jornalistas que não se calam em meio à violência dos traficantes. Depois que Miroslava Breach, correspondente do La Jornada em Chihuahua recebeu, no final de março, oito tiros ao sair de casa, Valdez escreveu em sua conta no Twitter: “Miroslava foi morto por falar demais. Que nos matem a todos, se essa é a sentença de morte por informar sobre este inferno. Não ao silêncio”.

Javier Valdez, novembro passado em Guadalajara.
Javier Valdez, novembro passado em Guadalajara. AFP

Era comum que os jornalistas que viajavam a Sinaloa ou escreviam sobre o lugar de nascimento do cartel de El Chapo perguntassem pela visão de Valdez. Apenas duas semanas atrás, quando Dámaso López, El Licenciado, um dos sucessores de El Chapo foi preso, uma repórter deste jornal pediu a opinião de Valdez sobre como ficava a estrutura do cartel, mas ele não quis responder. “Desculpe, agradeço seu interesse, mas por razões de segurança não posso dar declarações, a situação ficou complicada”, escreveu em uma mensagem.

A violência voltou a cair sobre Sinaloa após a extradição para os Estados Unidos, no começo do ano, do líder do cartel, o traficante Joaquín El Chapo Guzmán. Nos primeiros quatro meses de 2017 foram registrados 492 homicídios, um número que os analistas da zona afirmam que já duplicou. O aumento da violência foi acompanhado por um aumento das maneiras usadas para matar. Um mês atrás, quando o tráfico jogou de um avião um corpo em Sinaloa, Javier Valdez analisava neste jornal o aumento da irracionalidade do crime organizado. O jornalista acreditava que a escalada da violência tinha atingido níveis semelhantes aos de 2008, quando os Beltrán Leyva, a família de Guzmán e El Mayo Zambada, disputavam o poder. “Temos uma geração mais violenta de traficantes. Não é suficiente apenas matar, é necessário mostrar o corpo”, afirmava Valdez, que também lamentava a forma como a atmosfera em Sinaloa era diferente: “Tudo é confuso, a paranoia, não sair de casa, a ausência de autoridade por cumplicidade ou omissão... A única diferença é que agora a violência se deslocou para as zonas rurais de Culiacán, não para a própria cidade como na época, quando se transformou em um necrotério”, afirmava.

Fundador do semanário Ríodoce, correspondente do jornal La Jornada, Valdez foi autor de vários livros sobre o tráfico de drogas, como Miss Narco, Huérfanos del narco e Malayerba, nome também de sua coluna no semanário, sendo que a última foi tuitada na própria manhã do seu assassinato. Em 2011, o Comitê para a Proteção de Jornalistas concedeu o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa pelo seu trabalho. O discurso que leu ecoa hoje com mais força: “Em Culiacán, Sinaloa, é um perigo estar vivo e fazer jornalismo é caminhar sobre uma linha invisível marcada pelos bandidos que estão no tráfico de drogas e no Governo(...) Devemos nos cuidar de tudo e de todos”.

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