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A guerrilheira durona que se tornou a presidenta do Brasil

Dilma Rousseff, uma ex-filiada do PDT, foi alçada de forma inesperada pelo petista Lula ao governo do país e pode agora chegar a um segundo mandato

Dilma cumprimenta simpatizantes em Porto Alegre.
Dilma cumprimenta simpatizantes em Porto Alegre. REUTERS

Foi numa reunião com outras 15 pessoas incumbidas de decidirem os rumos do programa energético do então candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, que Dilma Rousseff chamou a atenção do metalúrgico. Em meio a especialistas da área, a economista de 53 anos, secretária de energia do Rio Grande do Sul, chegou ao encontro munida de um computador que ela acionava conforme os dados eram necessitados pelos presentes. A “objetividade e o alto grau de conhecimento” impressionaram Lula, que relatou ter visto ali um certo “jeito de ministra”.

Longe dos holofotes das disputas partidárias, Rousseff não era um nome óbvio para ocupar cargos de importância após a vitória de Lula em 2002. Por isso, a decisão do sindicalista de colocá-la a frente do Ministério de Minas e Energia causou surpresa. O órgão era responsável por um dos principais programas da gestão petista, o Luz para Todos, e ela o assumia logo após a crise do apagão energético, que fulminou os tucanos no final do Governo de Fernando Henrique Cardoso. “Havia quem pensasse que esse ministério era coisa de homem. Mas vamos provar que ele pode ser liderado por uma mulher”, disse Lula ao anunciá-la.

Rousseff tinha experiência na área. Havia ocupado a secretaria de energia do Rio Grande do Sul por duas vezes. A primeira, em 1993. E a segunda em 1999, no Governo do petista Olívio Dutra, em uma vaga reservada ao PDT, partido ao qual era filiada, em troca do apoio dado no segundo turno. Mas a quantidade de cargos cedida ao partido foi considerada insuficiente pelo pedetista Leonel Brizola, que dois anos depois rompeu com os petistas. Rousseff decidiu se filiar ao PT.

Quando em 2005 o escândalo do mensalão varreu da administração os braços mais importantes de Lula, o então presidente lançou mão novamente de seu “elemento-surpresa. Rousseff acabou convocada para assumir a Casa Civil no lugar de José Dirceu e de lá coordenar o trabalho de todos os ministérios. Tornou-se a primeira mulher neste cargo. Foi apelidada pelo padrinho político de “mãe do PAC" [Programa de Aceleração do Crescimento], o principal programa do segundo mandato do petista. A maternidade conferia a ela a imagem de realizadora e de boa gestora, necessária a um bom candidato à sucessão presidencial. Ela também tinha fama de durona cujas broncas já teriam provocado o choro de muitos políticos.

A decisão de que ela seria a escolha petista na disputa de 2010 foi a terceira surpresa de Lula. Três anos antes ele começara a sondar a possibilidade, sempre em tom de brincadeira. A vontade, entretanto, chegou até a imprensa e o partido não teve tempo de reagir. Ela passou a ser preparada politicamente e no primeiro dia de 2011 entrou no Congresso Nacional onde iniciou o seu primeiro discurso como governante do país: "Hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher". Aos 63 anos, uma ex-guerrilheira passaria a ocupar a mesma cadeira usada pelos que a torturaram durante a ditadura militar, 41 anos antes.

Dilma (no alto), com os irmãos e os pais.
Dilma (no alto), com os irmãos e os pais.

Filha do búlgaro Pétar Rusev, que ao chegar ao Brasil ganhou o sobrenome Rousseff, e de Dilma Jane Silva, filha de tradicionais pecuaristas mineiros, Dilma Vana Rousseff (14/12/1947) teve uma infância confortável. O pai se dedicava a construir e vender imóveis. Ela foi educada em tradicionais escolas mineiras e fazia aulas particulares de música e francês, conta o livro Rousseff, do jornalista brasileiro Jamil Chade e do repórter búlgaro Momchil Indjov. Pétar morreu em 1962 e em 1967 ela se filiou ao grupo Política Operária (Polop), que se transformou depois no Colina, movimento que defendia a difusão de revoluções marxistas.

Em um perfil da presidenta publicado na revista Piauí em abril de 2009, de autoria de Luiz Maklouf Carvalho, ele conta que dentro do movimento ela tinha como funções preparar aulas sobre o marxismo, dialogar com sindicatos e organizar um jornal. Foi treinada para atirar e recebeu conhecimentos sobre bombas. Ela chegou a afirmar em uma entrevista para a revista Isto É, em dezembro de 2005, que sabia montar e desmontar, de olhos fechados, um fuzil automático leve. “Tinha que ser rápido, muito rápido. E, se você quer saber, eu sei atirar”, disse ela. 

A Colina se fundiu com a Vanguarda Popular Revolucionária e formou a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária), que tinha como estratégia o militarismo e chegou a planejar o sequestro de Delfim Netto, símbolo do milagre econômico da ditadura, sem colocar o plano em prática. Rousseff nunca assumiu ter feito parte de qualquer ação militar do grupo, que chegou a roubar um cofre com 2,5 milhões de dólares do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros. A organização se dividiu em 1969 porque parte do grupo não concordava com a estratégia de luta – Rousseff inclusa. Foi na organização que ela conheceu o ex-marido, com quem teve uma filha, Paula, que deu a presidenta o neto Gabriel.

Em 16 de janeiro de 1970, a militante foi presa aos 22 anos no centro de São Paulo e acusada de subversão. A Luiz Maklouf Carvalho, ela relatou que as sessões de tortura incluíam palmatória, pau-de-arara e choques. Um dia, teve que ser levada a um hospital por conta de uma hemorragia. Em 1972, quando deixou a prisão, pesava dez quilos menos e tinha um problema na tireoide, curado posteriormente.

Retrato policial da presidenta..
Retrato policial da presidenta.. AFP

Quando em 1o de janeiro de 2011 ela subiu a rampa do Palácio do Planalto vestida em um impecável tailleur branco para receber de Lula a faixa presidencial, a esperança era de que houvesse um avanço na punição dos torturadores da ditadura. Ela criou a Comissão da Verdade, mas não fez a revisão da Lei da Anistia para responsabilizar os agentes do Estado. Também se esperava que as pautas feministas historicamente relegadas sairiam do papel. Em outubro de 2007, durante uma sabatina no jornal Folha de S.Paulo, ela havia defendido a descriminalização do aborto. “É um absurdo que não haja”, disse. Mas, quatro anos depois, o assunto não avançou.

Na mesma entrevista, ela se definiu como “socialista”, mas nos últimos quatro anos houve uma diminuição no número de famílias assentadas pela reforma agrária e estagnou a demarcação de terras indígenas. A política sobre drogas também não sofreu alterações significativas.

Com pautas importantes à juventude progressista abandonadas, Rousseff enfrentou a fúria de jovens em uma série de protestos que tomou as ruas brasileiras em junho de 2013, iniciada pelo aumento de tarifas de transporte em diversas cidades e incendiada pela extrema violência policial. À essa massa inicial de descontentes, acabou se somando uma classe média com uma pauta de reivindicações difusa: que englobava o fim da corrupção e pedidos de mais qualidade nos serviços públicos, como a saúde e a educação. Posteriormente, vieram as críticas contra os gastos com a Copa do Mundo, que culminaram nas vaias recebidas pela presidenta no dia de abertura do evento, já por parte de uma parcela conservadora e rica da sociedade, refratária historicamente ao PT.

Essa montanha-russa que demorou a ser compreendida, tanto por analistas como por políticos, teve efeitos devastadores na imagem de Rousseff. A aprovação a seu Governo despencou de 55% para 31%. O desgaste à sua imagem e a avaliação de que a presidenta tem dificuldades de dialogar com a juventude e os movimentos sociais e sindicais fez com que uma ala de seu próprio partido fizesse coro a um “volta Lula”. Lula não voltou e Rousseff tentou mudar: melhorou a relação com os movimentos e passou a convocar jornalistas nacionais e internacionais para conversas.

Ela também criou programas de peso, como o Mais Médicos, que trouxe profissionais formados no exterior, incluindo cubanos, para atuar em áreas distantes do Brasil. E se articulou para aprovar o Plano Nacional de Educação, que quase dobrou a verba para a área.

As ações se somaram a outros avanços destes quatro anos, como a criação do Minha Casa, Minha Vida e do Plano Brasil Sem Miséria, que fortaleceu o Bolsa Família de Lula, conseguindo tirar o Brasil do mapa da fome da ONU. A aprovação a seu Governo voltou a subir e chegou a atingir 41% em fevereiro deste ano, apesar das críticas ao desempenho econômico e a desaceleração do PIB (Produto Interno Bruto). O desejo de mudança expresso nos protestos do ano passado foi incorporado nesta campanha petista pelo slogan “muda mais” e, após uma eleição conturbada, ela se encaminha para uma vitória mais tranquila. Nos bastidores, Lula, que parecia afastado em muitos momentos do mandato, já afirma que pretende participar mais de um eventual segundo governo de sua presidenta-surpresa.

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