Preocupado com a privacidade no WhatsApp? Aqui vão três alternativas

O popular serviço de mensagens pertencente ao Facebook adiou sua decisão de compartilhar dados de fora da UE com a sua matriz. Mesmo assim, propomos três alternativas

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O susto foi adiado, mas virá: o WhatsApp pretende obrigar seus usuários a compartilharem dados com o Facebook, empresa à qual pertence, para usá-los no resto de seus serviços e propósitos. O anúncio do Facebook –que exclui cidadãos da União Europeia, protegidos pelo Regulamento Geral de Proteção de Dados– não pegou ninguém de surpresa, porque essa decisão já havia sido antecipada no ano passado; a novidade agora é que quem não aceitar as condições não poderá usar a ferramenta.

Há alternativas seguras, sobre as quais não se abata a ameaça da violação da privacidade? Percorremos cinco aplicativos que não bisbilhotam o celular do usuário.

Telegram, a grande alternativa (embora não tão segura)

A polêmica mudança nas políticas de privacidade do WhatsApp provocou uma fuga considerável de usuários para outras plataformas, e a que mais se beneficiou dessa desconfiança foi o Telegram: a empresa de origem russa anunciou a chegada de 25 milhões de usuários em apenas 72 horas depois do anúncio do concorrente. Na Espanha, essa ferramenta é uma velha conhecida, pois conta com uma importante base de usuários e desenvolveu esse crescimento sempre estando um passo à frente do WhatsApp no que diz respeito a funcionalidades. No Brasil o escândalo da Vaza Jato teve origem à partir de mensagens vazadas do aplicativo de conversas do então juiz Sérgio Moro e procuradores da Operação Lava Jato por um hacker —o que coloca a privacidade das mensagens em xeque.

A plataforma se antecipou ao aplicativo do Facebook, por exemplo, ao oferecer os valorizados stickers (adesivos) nas conversas, mas onde realmente o Telegram brilha é nos grupos, onde surgem verdadeiras comunidades muito semelhantes aos fóruns, organizando os usuários não só em torno de interesses comuns, mas também para tarefas específicas, como a transferência de doentes em Madri em pleno açoite do temporal Filomena. Se tem mais funcionalidades, está mais disposta a ouvir seus usuários e não pertence a nenhuma empresa que possa vir a explorar os dados dos usuários, por que todo mundo não usa o Telegram?

Uma possível resposta talvez seja: porque chegou depois. O WhatsApp foi a primeira alternativa real ao SMS e conseguiu acumular em determinados mercados um número de usuários tão elevado que se tornou a plataforma-padrão. Mas quem decidir usar o Telegram por razões de segurança precisa ter em mente que seus chats não têm criptografia de ponta a ponta (exceto os secretos), de modo que, ao menos no papel, o Telegram é menos seguro que o WhatsApp.

Signal, o aplicativo de código aberto que Elon Musk recomenda

A Signal Foundation também pendurou o cartaz de entradas esgotadas depois da mudança na política de privacidade do WhatsApp: num tuíte, essa empresa anunciou que, por causa da avalanche de novos usuários, não estava dando conta de enviar os códigos de verificação em seu aplicativo, o Signal. Por que escolher o Signal? Esse aplicativo foi concebido desde o princípio tendo a privacidade como foco principal, tanto é que Elon Musk, fundador da Tesla, o recomendou abertamente a seus seguidores no Twitter.

Esse aplicativo oferece máxima garantia de privacidade e, naturalmente, criptografia de ponta a ponta. Quanto às funcionalidades, entrega o mesmo que os concorrentes, embora numa interface um pouco mais parca e simplista, denotando que o objetivo fundamental dessa plataforma é a comunicação privada e longe dos olhos de terceiros. Eternamente gratuita, sem fins lucrativos e desenvolvida com a segurança como objetivo: teria algum ponto fraco?

Alguns apontam com o dedo acusador para a sua criptografia, a Open Signal, “financiada pelo Governo norte-americano”, como destaca Manu Contreras, blogueiro e divulgador de questões de segurança cibernética. Trata-se de uma acusação já lançada no passado por Pavel Durov, fundador do Telegram. Acontece que também os aplicativos de mensagens do Facebook (WhatsApp e Messenger) usam a mesma criptografia e, por manterem seus servidos nos Estados Unidos, estão sob a jurisdição desse país, mas quem alimenta essas suspeitas têm lá seus argumentos.

Threema, o encouraçado suíço

Quem for obcecado por privacidade e quiser a máxima garantia de que suas conversas estão fora do alcance de terceiros encontrará um bom refúgio no Threema. A história deste aplicativo de origem alemã é completamente diferente dos seus rivais: não é gratuito, e isto pode gerar certa rejeição por essa história de “por que pagar por algo que é grátis?”, mas, ao mesmo tempo, dá ao usuário certa tranquilidade de saber que há um modelo de negócio sustentável. A empresa financia o produto por uma via dupla: é preciso fazer um pagamento único para baixar o aplicativo de celular, e também existe uma plataforma segura para empresas de pagamento, mediante assinatura.

A cobrança pelo simples fato de baixar o aplicativo já leva ao seu principal inconveniente: tem um número de usuários irrisório em comparação aos rivais. Embora não haja cifras oficiais, estima-se que seu número gire em torno de 8 milhões, muito concentrados na Alemanha, onde em 2014 foi o aplicativo pago mais baixado, devido à conscientização da população sobre a privacidade naquela época.

Com uma base de usuários muito baixa e não sendo grátis, o Threema pode ser uma boa alternativa para grupos fechados de usuários, como familiares ou amigos que compartilhem da preocupação com a privacidade. Esse aplicativo supera constantemente auditorias de segurança, e tanto seus servidores como a jurisdição aplicável se encontram na Suíça, longe de alcance das autoridades norte-americanas e da União Europeia. Na Espanha, a mudança da política de privacidade do WhatsApp catapultou o Threema ao posto de terceiro aplicativo pago mais baixado em iPhones.

O que levar em conta ao escolher um aplicativo de mensagens

O balde de água fria propiciado pela mudança da política de privacidade do WhatsApp motivou uma migração de usuários dessa plataforma para alternativas não tão invasivas no que diz respeito à proteção de dados. “É normal que alguns usuários cogitem mudar de plataforma”, diz Ángel Ortiz, diretor regional da McAfee na Espanha, ao EL PAÍS. “À medida que a conectividade continua crescendo dia após dia, os usuários devem assumir que sua privacidade e identidade vivem em vários dos aplicativos que usam para se comunicar.”

Embora a nova política de privacidade não afete os cidadãos da União Europeia, o especialista adverte que há “cada vez mais convergências deste tipo em grandes companhias tecnológicas, o que pode levar a outros desenvolvimentos de negócio no futuro e a que esses termos mudem”. O que é preciso levar em conta, então, na hora de utilizar um aplicativo de mensagens? Ortiz recomenda observar três aspectos: ler e entender a política de privacidade e saber que dados o aplicativo compartilha com terceiros; rever os acessos autorizados na hora de instalar o aplicativo no celular; e, finalmente, assegurar-se de que tem criptografia de ponta a ponta, uma forma de garantir que “apenas emissor e receptor tenham acesso às mensagens”.

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