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Professores, aliados fundamentais para o fim da violência contra a mulher

Em todo o Brasil, profissionais de educação apostam no audiovisual e na criatividade para conscientizar adolescentes sobre relacionamentos abusivos e suas possíveis consequências. No país, 7% das vítimas de feminicídio têm entre 15 e 19 anos

Mariana Kaipper Ceratti
Imagem do vídeo 'Isso não é amor', de Sofia Rambo.
Imagem do vídeo 'Isso não é amor', de Sofia Rambo./ Concurso Lei Maria da Penha.

Quando um relacionamento se torna abusivo, como perceber isso e romper o ciclo de violência? Se a pergunta é desafiadora para adultos e especialistas ―tanto em comportamento quanto em segurança pública―, que dirá para quem está recém começando a vida amorosa e tem milhares de dúvidas e anseios.

Saber respondê-la, no entanto, pode significar a diferença entre a vida e a morte ―ou entre uma adolescência divertida ou traumática― em um país como o Brasil, onde as jovens estão todos os dias expostas à violência de gênero. Segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública, as mulheres de 15 a 19 anos corresponderam a 7% das vítimas de feminicídio no Brasil em 2019. Além disso, para as mulheres, o auge da vitimização por estupro ocorre aos 13 anos: são 12% das vítimas, segundo a mesma publicação.

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Por isso, pensar em maneiras de identificar relacionamentos abusivos e mudar essa situação foi o desafio lançado a jovens de 14 a 18 anos de todo o Brasil, pelo Concurso Lei Maria da Penha, organizado pelo Banco Mundial, Câmara dos Deputados, Facebook e Instituto Avon. De 70 vídeos enviados sobre o tema, foram premiados cinco (um de cada região do Brasil), todos com até um minuto e escolhidos em votação popular pela internet. A resposta veio nas formas de dramatização e poesia, ora em formato de animação, ora com atores amadores, mas sempre de forma clara e didática:

· “Primeiro, ele vai te tratar como uma rainha. Depois é que começam as agressões... Você normalmente começa a ser agredida psicologicamente”, descreve a aluna Sofia Rambo, de Pareci Novo, Rio Grande do Sul, em Isso não é Amor.

· “Ele não me deixava sair com minhas amigas... Não me deixava conversar com minha mãe nem minhas irmãs... Me proibia de vestir as roupas que eu queria... Não me deixava pegar no meu celular... Me xingava...”, conta a moça entrevistada por Carmo dos Santos Sousa, de São Julião, Piauí, no minidocumentário Estudar + Trabalhar = Empoderar.

· “Ele fala: ‘Amor, eu nunca mais vou fazer isso’; e você, boba de amor, acredita”, diz a jovem do vídeo 1, 2, 3..., de Lucas Henrique Costa, da zona rural de Bonito, Mato Grosso do Sul.

· “Desde muito meninas, ouvimos que quando o garoto da escola chega e puxa o nosso cabelo ou implica com a gente o tempo todo, faz isso porque gosta da gente. E taí: aprendemos errado desde o começo”, reflete uma das participantes do vídeo Prelúdio, de Sofia Borodiak, de Sorocaba, São Paulo.

· “A mim resolvi amar / Antes que minha vida findasse, às mentirosas juras pus fim / E um canto de liberdade ecoou dentro de mim”, conclui de modo poético o vídeo Dona de Mim, dirigido por Mary Lene Santos, de Manaus, Amazonas.

Para levar a reflexão a cantos tão diferentes e distantes do país, uma figura é fundamental: a dos professores, não importa a disciplina que ensinem. Outro papel importantíssimo cumprido por eles e pela comunidade escolar em geral é identificar e evitar relacionamentos abusivos entre os próprios jovens, segundo as professoras que orientaram os vencedores do concurso.

“No primeiro dia em que abordei o tema na turma, uma aluna me procurou após a aula e contou que vivenciou uma relação abusiva, e dessa relação teve uma filha. Conversei com ela sobre a chance de tornar o trauma sofrido uma oportunidade de aprender, ensinar e alertar outras jovens sobre o relacionamento abusivo. Pedi a ela que escrevesse sua história e pensaríamos numa forma de contá-la. Assim, eu e a pedagoga reunimos o grupo e começamos a buscar a melhor forma de conseguir fazer o vídeo”, recorda Ivane Mariano dos Santos, professora de artes e orientadora do vídeo Dona de Mim.

“Muitos adolescentes e crianças veem a escola como seu único espaço seguro e têm os professores como os únicos adultos que escutam de fato e estão ali para apoiar”, comenta a professora de história Milene Martinez, orientadora do vídeo Prelúdio e vencedora do concurso pela segunda vez (a primeira foi em 2014). Atuando na mesma escola há oito anos, Milene se define como feliz e orgulhosa por ter a confiança dos colegas, dos alunos e dos pais, mas reconhece que nem todos os professores contam com as mesmas liberdade ou estrutura para trabalhar o tema em sala de aula.

O obstáculo principal de um trabalho desses, muitas vezes, são os preconceitos e resistências dos próprios alunos, ainda mais numa fase da vida em que eles costumam desafiar a autoridade dos professores.

“Já enfrentei resistência de alunas que se achavam merecedoras de uns tapas dos namorados, pois acreditavam que estavam erradas e eles poderiam puni-las”, lembra Jaqueline Aparecida dos Santos, professora de biologia, química, física e português e orientadora do vídeo 1, 2, 3...

A professora de português e literatura brasileira Lidiane Chagas de Carvalho, que coordenou o vídeo Estudar + Trabalhar = Empoderar, tem uma experiência semelhante. “Em temas delicados como relacionamentos abusivos e agressão, noto que às vezes alguns alunos não dão a devida importância: levam na brincadeira, não refletem nem participam, como se o assunto fosse fora da realidade”, comenta. Ela continua o trabalho mesmo assim e acredita que, com acesso a metodologias melhores, seria possível sensibilizar ainda mais os alunos.

Na falta dessas metodologias, Lidiane e outros profissionais apostam no audiovisual e na criatividade para criar confiança entre os alunos e se conectar com eles.

“Ser professores vai além de ensinar a matéria na qual somos formados; também devemos estar atentos para questões das culturas juvenis”, reflete Maria Eduarda Götz, professora de matemática e física e orientadora de Isso não é Amor. O vídeo começou como projeto de três alunas ―que já tinham levado o assunto para uma feira de ciências em 2019― e acabou envolvendo toda uma turma de 1º ano do ensino médio.

“Nós, como docentes, temos que pensar em diferentes estratégias para abordar situações que estão presentes no cotidiano deles. Além disso, como os índices no Brasil continuam altos, é importante que ocorram debates, reflexões e projetos que promovam a educação no combate à violência contra a mulher”, completa a professora.

Mariana Kaipper Ceratti é comunicadora online do Banco Mundial no Brasil.

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