As ‘viúvas do tigre’, mulheres malditas nas áreas rurais de Bangladesh

Quando o animal selvagem mata um homem, sua esposa se transforma em pária em sua própria casa pela crença de que traz azar

Mosammat Rashida com uma foto de seu marido em Shyamnagar, Bangladesh.
Mosammat Rashida com uma foto de seu marido em Shyamnagar, Bangladesh.Munir Uz Zaman / AFP
Sam Jahan|AFP
Shyamnagar (Bangladesh) - 19 feb 2020 - 21:03 UTC

Seus filhos a abandonaram e seus vizinhos a evitam porque a consideram uma bruxa. Que crime cometeu Mosammat Rashida? Um tigre de Bengala matou seu marido e a culpam pela desgraça. Em muitas aldeias de Bangladesh outras mulheres têm o mesmo destino.

“Meus filhos me disseram que sou uma bruxa azarada”, conta em sua maltratada casa construída com tábuas em Gabura, um vilarejo de coletores de mel, nos limites dos Sundarbans, uma floresta pantanosa que se estende ao longo de Bangladesh e Índia. Seu marido morreu enquanto coletava mel na selva.

“Os coletores de mel preferem trabalhar no sudoeste dos Sundarbans, onde vive a maioria dos comedores de homens (tigres)”, diz Monirul Khan, especialista em tigres de Bengala na Universidade Jahangirnagar.

Os tigres são uma espécie em perigo de extinção. A mudança climática e o desenvolvimento humano reduzem seu habitat, forçando-os a se aproximar dos povoados à procura de comida. As organizações de defesa da vida silvestre estimam que existem 100 no lado bengali dos Sundarbans. Pelo menos 519 homens morreram por ataques desses animais em 50 povoados de um distrito com meio milhão de pessoas, entre 2001 e 2011, de acordo com a Ledars Bangladesh, uma organização que ajuda as viúvas a reintegrarem-se nas aldeias.

As viúvas sofrem um golpe duplo. Perdem seu marido e da noite para o dia se transformam em ‘viúvas do tigre’, párias em suas próprias casas e aldeias justo quando precisam de mais apoio. Rashida está inconsolável, mas não se surpreende que seus filhos adultos, de 24 e 27 anos, tenham abandonado ela e seus irmãos menores. “No final das contas são parte dessa sociedade”, diz a mulher de 45 anos, enquanto enxugas as lágrimas. Sua pequena cabana não tem teto. Foi destruído por um ciclone, mas seus vizinhos não lhe ofereceram ajuda. É obrigada a usar uma lona para se proteger.

A mudança climática e o desenvolvimento humano reduzem o habitat dos tigres, forçando-os a se aproximar dos povoados à procura de comida

Na casa ao lado, Mohammad Hossain conserta o telhado de chapas metálicas. Diz que sua esposa lhe ordenou que não falasse com Rashida. “Afetaria o bem-estar de minha família e poderia trazer azar”, afirma o coletor de mel de 31 anos.

As autoridades negam ter excluído Rashida da ajuda fornecida após o ciclone. O diretor da Ledars Bangladesh, Mohon Kumar Mondal, afirma, entretanto, que os maus-tratos às viúvas do tigre são generalizados em comunidades muito conservadoras, que costumam ter preconceitos “centenários”.

“O principal desafio é mudar as crenças das pessoas”, diz. “A mudança é muito lenta. Ainda assim, diria que houve um progresso”, acrescenta, afirmando que os mais jovens e instruídos têm menos medo das viúvas. Rijia Khatun, que disse que aprendeu a lutar contra o ostracismo de seus vizinhos após a morte de seu marido, também coletor de mel, há 15 anos, contou com o apoio secreto de seu sobrinho e de sua família.

“Meus filhos eram jovens. Mas ninguém me ajudou. No começo me senti mal porque continuavam me culpando pela morte de meu marido. Não sabia que culpa eu podia ter”, lembra. “Mas agora aprendi a viver com essa adversidade”.

Seu sobrinho Yaad Ali, que foi testemunha de vários ataques, incluindo o de seu tio, disse que mesmo querendo ajudar, não poderia fazê-lo publicamente. “Tínhamos que fazê-lo de forma confidencial porque caso contrário os habitantes da vila também teriam nos condenado ao ostracismo”, confessou.

“Meus filhos eram jovens. Mas ninguém me ajudou. No começo me senti mal porque continuavam me culpando pela morte de meu marido. Não sabia que culpa eu podia ter”

A coleta de mel é um trabalho mais acessível aos locais que não podem pagar o equipamento e os barcos necessários para se dedicar à outra profissão predominante na região: a pesca. Mas o medo de morrer por ataques dos predadores e as consequências às esposas que deixam atrás faz com que os homens optem por outros ofícios.

Harun ur Rashid, cujo pai morreu atacado por um tigre, é pescador apesar de descender de gerações de coletores de mel. O jovem de 21 anos diz o motivo: “Minha mãe não quer que eu acabe como meu pai. E eu quero continuar vivo e cuidar dela porque sofreu muito”.

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