Os defensores da floresta

A decisão de Vero de ajudar mulheres que dão à luz sozinhas na floresta

O parto é considerado sagrado para o povo achuar, por isso as mães dessa comunidade vão à floresta parir a sós. Mas uma jovem indígena do Equador está mudando essa realidade

Verónica é uma indígena achuar que trabalha como parteira em uma cultura em que, segundo ela, as mulheres têm vergonha de dar à luz. À esquerda, Verónica deitada no chão. À direita, o jardim de plantas medicinais, onde ele cultiva plantas ancestrais para tratar seus pacientes. Pablo Albarenga

Verónika Yunkar, ou Vero Cestsenk em seu nome indígena achuar, é uma mulher corajosa. Uma mulher que assumiu o controle da sua própria biografia. A luta de Vero é melhorar a vida das mães achuar e de seus bebês, ajudar a melhorar a saúde das mulheres e de seus filhos e reduzir a mortalidade materna e infantil. Essa é sua maneira de contribuir para a defesa da floresta, que Vero mantém com orgulho e determinação.

"Nós somos mulheres. Como a floresta. É por isso que devemos ser respeitadas. Somos sagradas, como a floresta”, diz. Mas o trabalho de Vero é complexo. Ela tenta combinar a dimensão sagrada da maternidade com a melhoria ativa da saúde das mulheres indígenas.

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Compreender o contexto em que a luta de Vero como uma mulher achuar ocorre é essencial para entender a dimensão do trabalho que ela está realizando. Em meados do século XX, entre as décadas de 40 e 50, os diferentes povos da etnia que deram nome ao território chegaram a cavalo na região localizada entre Equador e Peru, deixando de viver como caçadores-coletores nômades para ocupar pedaços de floresta, cultivar lotes de terra e formar comunidades assentadas. E a partir da virada do século, essas comunidades começaram a crescer muito rapidamente e estão se adaptando a esse novo modo de vida, garantindo que isso não signifique perder sua forte identidade no processo.

Isso também está acontecendo na comunidade achuar de Sharamentsa, a várias horas de barco desde o final da estrada em construção que leva de Puyo – capital da província de Pastaza, localizada a 237 quilômetros da capital Quito – ao território Achuar. A estrada, que no momento termina em Wisuy, ameaça entrar floresta adentro e quebrar o isolamento que protege essas comunidades. “A estrada é puro veneno para nós”, diz José, um dos líderes desta comunidade. “Não queremos o que eles fizeram lá, em suas cidades. Esta é uma cidade verde. Queremos continuar com o sonho de mantê-la como é e de viver o natural, não de viver tecnologicamente”.

No momento, a comunidade de Sharamentsa só é acessada de canoa através do rio Pastaza ou por via aérea, com pequenos aviões que conseguem pousar em uma pista de terra, construída anos atrás por missionários determinados a evangelizar até mesmo esses territórios remotos.

Assim como outras comunidades Achuar, os fundadores de Sharamentsa estão se adaptando à vida em assentamentos permanentes há algumas décadas. Um mundo em que as mulheres necessariamente adquirem um novo papel e podem começar a repensar seu relacionamento com o universo masculino que domina completamente a governança da comunidade. Ainda existem muitas barreiras simbólicas, obstáculos psicológicos. Mas uma das chaves para essa transformação contínua está em trabalhar em tudo relacionado à saúde reprodutiva.

Para as mulheres achuar, a reprodução foi e continua sendo um assunto sagrado. “Antes, as mães davam à luz na floresta sozinhas, sem nenhum acompanhamento”, diz Vero. “A floresta tinha uma energia saudável, então iam dar à luz lá. A criança nascida lá tinha muita energia e a mãe também. Elas iam para a floresta porque ninguém as via lá. As mulheres achuar tinham vergonha, não queriam dar à luz em casa. Para elas, o parto é algo transcendente, que tem a ver com a energia da floresta, com a fertilidade”.

As mulheres da família (as avós, as mães, as irmãs) esperavam atentamente para ouvir o choro do recém-nascido. E só então iam cortar o cordão umbilical e ajudar a mãe. Dar à luz era uma prova da força e resistência das mulheres, sozinhas diante do destino de mãe. “Até hoje as mulheres achuar têm vergonha”, continua Vero, “mas nosso projeto é muito respeitoso. Tenta convencê-las de que assistência é melhor para elas, para proteger suas vidas". Antes davam à luz sozinhas, ninguém as assistia. Assim, aquelas mulheres que no momento do parto estivessem exauridas pelas tarefas diárias, anêmicas ou desnutridas por algum motivo, ou se o feto não estivesse na posição correta ou se surgissem complicações, morriam no parto ou depois, por uma infecção.

O costume de dar à luz sozinha na selva refere-se a um período recente em que esses povos viviam como nômades

“Só quando as parturientes que iam para a floresta demoravam muito para voltar”, continua Vero, “e depois que passava um tempo sem gritos, nada, algumas mães ou sogras ia procura-las. Mas às vezes a mãe já estava morta. É por isso que queremos ajudar”. Mas mudar esse hábito ancestral leva tempo. Não é uma tarefa imediata. O costume de dar à luz sozinha na selva refere-se a um período recente em que esses povos indígenas viviam como nômades nessas florestas primárias. Lá, apenas os mais fortes, os mais preparados para resistir, sobreviviam e prosperavam.

Mas hoje esse darwinismo perdeu sentido. E é aqui que Verónica intervém. “Agora, quando ficamos sabendo que uma mulher está grávida, vamos à casa dela e perguntamos: como você se sente? Como o bebê está se desenvolvendo? Ou, se está maltratada, tentamos conversar, ajudá-las”.

Vero conhece em primeira mão os problemas das mulheres achuar. “Às vezes, os homens achuar têm duas esposas, ou três esposas, ou estão procurando. Às vezes eles batem nelas, às vezes as controlam. Eles também batem em mulheres grávidas. É por isso que às vezes ficam doentes”. Diante disso, Vero decidiu se rebelar, traçar um novo caminho. Não têm filhos. Em vez disso, ajuda outras mulheres a tê-los em segurança, deixando para trás a violência, o silêncio.

Uma decisão consciente

“Eu não me casei”, diz Vero, ciente da transcendência da sua declaração, “porque vi quando criança, como minhas irmãs, e até mesmo a minha mãe, eram maltratadas por seus maridos. Por isso eu disse a mim mesma: não vou me casar rapidamente. É melhor eu estudar, me preparar, para poder me defender. Para ajudar as mulheres que estão sendo espancadas. Eu gosto que as famílias vivam bem, sem violência”.

A decisão de Vero levou-a a integrar um programa de treinamento e capacitação para mulheres indígenas de uma ONG internacional, no âmbito de um projeto chamado “mães da floresta” ou Ikiama Nukuri, na língua achuar. Verónica viajou, aprendeu o ofício com mulheres maias no Yucatán mexicano. Visitou o Peru para participar de um congresso e fez estágios em um hospital da cidade.

Hoje, Vero não apenas ajuda as mulheres em Sharamentsa, mas também vai a outras comunidades Achuar. E além, atuando até nas comunidades Shuar (entre o Peru e Equador), e também Quichua (na fronteira entre o Equador e a Bolívia). Vero é a coordenadora de toda a província de Pastaza, a maior do Equador. Ela treinou Graciela, uma colega da comunidade, que segue seus passos, e que já acompanha as mulheres que a solicitam quando Vero está ausente.

A decisão de Vero foi permanecer em Sharamentsa. As longas ausências para concluir seu treinamento fizeram que sua casa, na falta do fogo permanente que seca os pilares e as coberturas vegetais, acumulara tanta umidade que parcialmente desmoronou. Por isso, decidiu construir uma nova, em frente a casa antiga. As vigas e barras transversais de madeira maciça, à vista na nova edificação, simbolizam a vontade inequívoca de Verónica de permanecer em sua comunidade. Em breve a nova casa estará de pé.

Veronica sabe que seu lugar se encontra nessa comunidade. “Meu sonho é ser médica, terminar de estudar. Sou uma mulher achuar e quero trabalhar ajudando outras mulheres como eu, irmãs, primas, vizinhas”. Em seu jardim, Vero cultiva as diferentes plantas tradicionais que complementam os modernos instrumentos médicos. “Às vezes usamos plantas medicinais para infecções, muito comuns na gravidez. Ou se a futura mãe estiver tossindo, usamos um remédio chamado alho-do-mato, que também ajuda se ela tiver dor de cabeça ou tontura”.

Gradualmente, as mães conseguem ganhar autonomia, convencer seus maridos das vantagens do monitoramento da saúde da gravidez e do parto. Apesar das limitações óbvias, Vero age com uma determinação insubornável. Melhorar a vida das mulheres e de seus filhos na comunidade é uma missão vital para ela. Para esta mulher, o futuro da floresta e sua defesa também significa melhorar as condições de vida de seus habitantes. Se suas mães e bebês nascerem e crescerem com saúde e sem violência, a vida da comunidade dará um passo definitivo. Mas, como qualquer processo complexo, o resultado não é imediato. Isso levará tempo.

A história da Vero representa um passo importante na história de Sharamentsa e da nacionalidade achuar. As novas gerações que nascem hoje e enfrentam o grande desafio de fazer a floresta sobreviver às múltiplas ameaças que a cercam, já têm a oportunidade de chegar ao mundo de uma maneira mais segura e menos hostil.

“Nascemos como nascem as plantas. E somos sagrados, como elas ”, diz Vero, e aos seus olhos há um brilho de emoção. Ele confirma que seu compromisso com a maternidade e a vida, que encarna sua maneira de defender a floresta à qual ela pertence, já está valendo a pena. E hoje, em Sharamentsa, já existem mães mais saudáveis ​​e robustas, como a própria floresta. Aquela floresta virgem à qual Vero decidiu se render por toda a sua vida.

Este artigo pertence à série sobre defensores de florestas que começou no Brasil e agora continua no Equador. É um projeto da openDemocracy / democraciaAbierta e é realizado com o apoio do Rainforest Journalism Fund do Pulitzer Center.

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