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O nefasto assédio recreativo do brasileiro no Egito

Assédio recreativo é dos mais difíceis de identificação da violência contra a vítima, pois a violência ganha a cumplicidade do riso de quem assiste ou compartilha a imagem. É quando a mulher é assediada como parte de um projeto de dominação para o riso de outros homens

O médico Victor Sorrentino, no Egito, em uma imagem publicada em suas redes sociais.
O médico Victor Sorrentino, no Egito, em uma imagem publicada em suas redes sociais.

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A cena circulou países distantes: do Brasil ao Egito em 24 horas. As imagens foram postadas por um homem brasileiro, branco, como uma câmera na mão, filmando uma jovem mulher egípcia que demonstrava papiros à venda. Enquanto a mulher descrevia o produto, o homem fingia conversar em português. A mulher sorria, como fazem as pessoas gentis em encontros interculturais e linguísticos em que se acolhe a tentativa do outro em se comunicar. Ela não sabia, mas o brasileiro anônimo a assediava: ao invés de fazer perguntas sobre o papiro, ele enunciava perguntas obscenas sobre sexo ou tamanho do falo masculino— “vocês gostam mesmo é do bem duro, né? Ninguém é de ferro. Comprido também fica legal, né?”, dizia na gravação, gargalhando junto com outro homem brasileiro. Era um caso de assédio recreativo.

Por que falar em assédio recreativo e não apenas em assédio? Porque o assédio recreativo é dos mais difíceis de identificação da violência contra a vítima, pois a violência ganha a cumplicidade do riso de quem assiste ou compartilha a imagem. O assédio recreativo é quando uma mulher é assediada como parte de um projeto de dominação para o riso de outros homens. Não é um riso libertador (ridendo castigat mores), porém fundamentado em estereótipos e regimes de dominação. Assim José Adilson Moreira definiu o “racismo recreativo”: uma política cultural que se fundamenta em práticas discriminatórias contra minorias raciais que, disfarçadas pelo riso opressor, naturalizam a hostilidade racial e dificilmente são reconhecidas pelos ordenamentos jurídicos como ilegais. Em diálogo com Moreira, Carla Akotirene escreveu sobre o inseparável racismo-sexismo recreativo de situações em que o humor de memes é arma de ridicularização de mulheres negras com propósitos variados, seja para estereotipar fragilizações corporais impostas pela pobreza, como a perda de dentes, seja para tentar controlar as insubmissas vozes de intelectuais negras, descritas como “divas” ou “lacradoras”. A vítima do brasileiro anônimo foi uma mulher estereotipada pela islamofobia—uma jovem mulher muçulmana com véu.

O evento poderia ser tomado como um caso isolado de um macho latino-americano em terras distantes. Mas nem isolado é: em 2014, o brasileiro também divulgou em vídeo o momento em que assedia uma mulher australiana, pedindo que ela repetisse frases de cunho sexual em português. Há um padrão no assédio: o sarcasmo para humilhar pessoas marcadas pelo gênero ou sexualidade, pela raça ou pela religião, é uma tática de poder de quem se imagina em posição de superioridade. Por trás dos comentários obscenos da gravação recente, estavam estereótipos culturais e de gênero sobre as mulheres egípcias. A arrogância do sarcasmo se alimentava em um senso de superioridade étnica e de gênero—um patriarca branco que ora opera em casa ou no estrangeiro sob a certeza da impunidade pela naturalização de seus privilégios. Sem qualquer estranhamento sobre o que fazia, o homem publicou as imagens em sua conta de Instagram com quase 1 milhão de seguidores.

O homem anônimo que perambulava pelas ruas de Luxor é um tipo conhecido no Brasil. Um médico “coach” de técnicas de culto ao corpo, apoiador de presidente Bolsonaro que, após mais de um ano de pandemia, abusa de vocabulário de frágil verniz científico para seguir defendendo tratamentos sem evidência científica comprovada, como hidroxicloroquina. É melhor descrevê-lo para além de sua nacionalidade paroquial, como um representante sem-fronteiras do patriarcado racista que persegue as mulheres. Quando foi confrontado sobre a cena, o médico tornou sua conta de Instagram privada e justificou-se, “eu sou assim. Sou um cara muito brincalhão”. Feministas brasileiras copiaram o vídeo, o traduziram e enviaram para movimentos de mulheres no Egito, como o perfil de redes sociais Speak Up, uma “iniciativa feminista de apoio às vítimas de violência”. A mobilização online foi imediata e hashtags passaram a circular entre os dois países, em três idiomas, árabe, inglês e português: “expulsem o assediador brasileiro do Egito”, “investiguem o assediador brasileiro”, “nós não queremos assediadores em nosso país”.

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O médico foi identificado pela polícia egípcia e é investigado por crime de assédio sexual, cuja pena pode ser desde multas financeiras até pena de prisão entre seis meses e três anos. A nomeação da cena como de assédio partiu das feministas e não das regras de convivência do Instagram, cuja plataforma permitiu a postagem e a circulação das imagens na conta do médico. Após a intensa mobilização e solidariedade entre jovens feministas brasileiras e egípcias é que o Instagram passou a classificar as imagens como de “discurso do ódio ou desrespeitosas”. As desculpas do médico à vítima mostram quanto o caminho é árduo para as mulheres: “como eu vi que tu és uma pessoa risonha e estava brincando junto com a gente, eu acabei brincando”. Não, as vítimas não riem; o sarcasmo recreativo é exclusivo dos agressores.

Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Brown University.

Giselle Carino  é argentina, cientista política, diretora da IPPFWHR.

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