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Crônica do imunoprivilégio

Até o início de abril, 87% das vacinas já aplicadas haviam sido distribuídas entre habitantes de países de renda alta ou média alta; só 0,2% das vacinas foram aplicadas em países de renda baixa

Uma mulheres recebe a vacina da Pfizer contra covid-19.
Uma mulheres recebe a vacina da Pfizer contra covid-19.Facultad de Medicina de la Unive -- / Facultad de Medicina de la Unive

Somos imunoprivilegiadas. O predicativo parece ser um neologismo para aos corpos vacinados contra o covid-19, mas não é bem essa a verdade. Já éramos imunoprivilegiadas quando passamos a trabalhar desde casa e não empobrecemos, quando não estivemos na linha de frente de cuidados à pandemia ou, simplesmente, quando não adoecemos de covid-19 porque vivemos a paratopia do isolamento social. Agora, vacinadas, agregamos mais uma camada de privilégio ao predicativo—além de mulheres latino-americanas documentadas nos Estados Unidos, recebemos as vacinas antes que nossos velhos pais na Argentina ou no Brasil.

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Há desconforto e alívio em ser um corpo imunoprivilegiado pelas desigualdades da vida. Se é certo que todo privilégio é uma forma de imunização, nem toda imunização vem na forma de uma vacina. Ser homem em uma sociedade patriarcal é uma forma de imunização à misoginia, assim como ser um corpo branco frente a violência policial. A vacina apenas transforma em mercadoria o que nossos corpos já viviam como privilégios naturalizados pelas políticas da vida. E como toda mercadoria há disputa por seu acesso, controle ou distribuição. Enquanto os Estados Unidos já vacinaram totalmente (ou seja, com as duas doses da vacina quando necessário) 26% de sua população, a Argentina só chegou a cerca de 2% da população, e o Brasil, a 5 %. O Haiti, país mais pobre das Américas e do Caribe, sequer começou a vacinar. Menos de 2% do total de vacinas de covid-19 administradas no mundo até o momento foram distribuídas no continente africano, que concentra 16% da população mundial.

Há uma geopolítica do imunoprivilégio: até o início de abril, 87% das vacinas já aplicadas haviam sido distribuídas entre habitantes de países de renda alta ou média alta; só 0,2% das vacinas foram aplicadas em países de renda baixa. Se as taxas globais de vacinação forem mantidas, a imunidade de rebanho (70 a 85% da população tendo recebido as duas doses das vacinas) só será alcançada entre 4 e 5 anos. É evidente que a desigual distribuição da vacina tem consequências globais imediatas—maiores chances de variantes e novos riscos de contágio entre as pessoas previamente vacinadas. Mas já sabemos por outras formas de vivência dos privilégios que o enfrentamento das desigualdades não é matéria de fácil racionalização para as políticas distributivas: a mercadoria passa a ser um objeto de disputa entre nações. A lógica é a de acumular para controlar e um nacionalismo egoísta tome a dianteira das negociações entre os países.

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Os países ricos garantiram reservas de vacinas várias vezes superior ao necessário para vacinar suas populações. O excedente foi garantido como condição para o desenvolvimento das vacinas, pois sem o investimento dos governos não haveria vacina em tão curto tempo. Mas, ao invés de terem negociado acordos de propriedade intelectual que facilitassem o acesso equitativo às vacinas por países de renda média, porém com condições de produção, os governos de países ricos optaram por garantir o excedente da mercadoria embaixo do colchão. Primeiro salvam-se os seus, para daí olhar os outros. É nessa lógica que Estados Unidos já doaram doses ao México e Canadá, e a China negocia com o Brasil.

Os países miram suas fronteiras ou suas agendas comerciais—trata-se de outras gentes cuja distribuição do imunoprivilégio importa não apenas por valores elegantes de dignidade ou direito à vida, mas porque são parceiros de negócios ou aliados políticos. É em meio a essa torta racionalidade de quem se imuniza e quem se deixa morrer que nos vemos como corpos privilegiados não por quem somos, mas por sermos habitantes autorizadas de um território que não é nosso de origem. Tristemente, não temos como distribuir nosso imunoprivilégio, ele se torna uma propriedade individual inalienável. Mais uma para corpos já sobreviventes porque privilegiados, agora por algo que não reconhecíamos como propriedade: a legitimidade de, temporariamente, habitar um país acumulador de vacinas.

Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown.

Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPFWHR.

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