Pandemia de coronavírus
Tribuna
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Saúde, economia e sensatez na pandemia

O distanciamento social tem custos econômicos, mas adotá-lo parcialmente ou renunciar a ele pode custar muito mais caro

Fila à espera de atendimento do Médicos Sem Fronteiras em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, nesta quarta-feira.
Fila à espera de atendimento do Médicos Sem Fronteiras em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, nesta quarta-feira.Andre Penner (AP)
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AME3585. SAO PAULO (BRASIL), 01/06/2020.- Personas con tapabocas caminan frente a tiendas cerradas por la situación del coronavirus, este lunes, en la ciudad de Sao Paulo (Brasil). Varias ciudades de los estados brasileños de Sao Paulo, Ceará, Amazonas y Pará, cuatro de los más azotados por la crisis de coronavirus, iniciaron este lunes la reapertura gradual de sus economías, pese a la todavía creciente expansión de la enfermedad. Sao Paulo, la región más industrializada y rica del país, comenzó hoy una desescalada por fases aún no materializada en la capital homónima y su zona metropolitana, que concentran prácticamente la mitad de sus 46 millones de habitantes. En número absolutos, Sao Paulo, donde rige una cuarentena "blanda" desde finales de marzo, es el estado de Brasil más afectado por la pandemia, con 7.615 muertes y 109.698 casos confirmados de COVID-19, según el último boletín del Ministerio de Salud. EFE/ Sebastião Moreira
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Krakow (Poland), 21/04/2020.- A Polish medical staff works at a drive-thru COVID-19 testing lab in Krakow, southern Poland, 21 April 2020. Countries around the world are taking increased measures to stem the widespread of the SARS-CoV-2 coronavirus which causes the COVID-19 disease. (Polonia, Cracovia) EFE/EPA/LUKASZ GAGULSKI POLAND OUT
É verdade que o vírus SARS-CoV-2 está perdendo virulência?

É “natural” que haja um “tensionamento” para a flexibilização das medidas de distanciamento social por conta dos impactos econômicos gerados. Os resultados divulgados da economia no primeiro trimestre mostram queda de 3,4% na população ocupada e redução de 2% no consumo das famílias. O déficit primário em Abril foi de 92,9 bilhões de reais, e parece haver pouco espaço para uma expansão fiscal vigorosa como uma crise dessa magnitude exige.

Porém, precisamos reforçar que a economia é feita por pessoas. Os números revelam que apenas o Estado do Rio de Janeiro ultrapassou a marca de países inteiros (China, Índia e Rússia!) em número de mortes confirmadas por covid-19: 5.686 mortes e 56.732 casos confirmados.

Um estudo da Fiocruz indica que, mesmo com a restrição parcial ou total ―o chamado lockdown― o coronavírus continuará circulando, e qualquer nível de relaxamento resultará em aumento de casos e mortes (dezenas de milhares), uma vez que, na ausência de uma vacina ou medicamento para covid-19, as medidas de distanciamento social são necessárias por alguns períodos até 2024.

“(...) a adoção das medidas de distanciamento social resulta em custos econômicos, mas adotá-las parcialmente ou renunciar a elas pode significar não só custos maiores, mas também graves impactos para a saúde. (...) Podem gerar dezenas de milhares de óbitos que seriam evitáveis", dizem os pesquisadores.

Relembrando: a economia é feita por pessoas. Convido você, leitor, a fazer a seguinte reflexão: Quanto tempo leva para que um profissional se torne capacitado para desempenhar tal função? Quanto tempo VOCÊ levou para se tornar apto para executar o seu trabalho? Lembrando que os processos de “ficar de pé”, “andar”, “falar”, “ler”, “escrever”, “fazer contas” e todo o período acadêmico são inclusos no seu tempo de aprendizado.

Na economia é preciso haver quem produza e quem compre, e para isso é necessário haver saúde. Consultas, exames, internações e medicamentos têm um custo elevado, basta olhar o percentual do PIB estadunidense destinado a assistência à saúde.

Segundo dados da Subsecretaria de Atenção Hospitalar Urgência e Emergência, do início de abril até a semana passada, 1.298 pacientes morreram com síndrome respiratória aguda grave na fila à espera de um leito nas 26 emergências da Prefeitura do Rio. E neste momento, leitor, haveria centenas de pessoas na fila por leitos de enfermaria e UTI.

Levantamento feito pela Ministério Público do Rio de Janeiro mostra que há 1.886 leitos impedidos de funcionar em 27 hospitais da rede federal, estadual e municipal, e 55% deles, por conta de falta de profissionais, seguido de infraestrutura.

Enquanto isso, em plena pandemia, investigações expõem possíveis relações entre lideranças políticas, empresários, o governador do Rio e o escritório de advocacia da primeira-dama, cenário semelhante a um “passado bem recente”.

Mais de 700 milhões de reais foram destinados à montagem e ao funcionamento de sete hospitais de campanha, porém, dos sete hospitais prometidos para o final do mês de abril, apenas um está em funcionamento, o Hospital do Maracanã, que, apesar de inaugurado, segundo reportagens, tem demonstrado desorganização e precariedade.

Em 31 de dezembro a China enviou o alerta à Organização Mundial de Saúde sobre a covid-19. Após um mês, a Itália registrou os dois primeiros casos (dois turistas chineses). Em 26 de fevereiro, anunciamos o primeiro caso, um homem que retornou de viagem da Itália. Ou seja, o Brasil acompanhou antecipadamente a gravidade e as medidas sanitárias adotadas pela China, Europa e EUA.

Ainda não existe vacina ou medicamento para eliminarmos o vírus. Por ser uma doença nova, ainda estamos pesquisando e buscando entender quais os efeitos do vírus em nosso organismo. Precisamos ganhar tempo! Por isso a importância de não sobrecarregarmos o nosso sistema de saúde. A retomada gradual da economia requer, primeiramente, respeitar e seguir com as medidas de distanciamento social, implantação de um programa de testagem em massa da população e ampliação da oferta de leitos hospitalares. Economicamente falando: toda vida importa!

Leandro Farias é farmacêutico sanitarista da Fiocruz, fundador do Movimento Chega de Descaso

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