Pandemia de coronavírus

É verdade que o vírus SARS-CoV-2 está perdendo virulência?

O vírus se propaga pouco na Espanha devido às medidas de confinamento, mas não existe nenhuma prova científica de que tenha perdido força

Médico polonês examina um teste para detectar o coronavírus, em Cracóvia, em 21 de abril.
Médico polonês examina um teste para detectar o coronavírus, em Cracóvia, em 21 de abril.LUKASZ GAGULSKI / EFE

A pergunta surgiu das declarações de um médico italiano, anestesista de um hospital de Milão e médico de Silvio Berlusconi, que afirmou que, quando se coletam amostras de um paciente de covid-19 com um cotonete, a carga viral detectada é muito menor agora do que há algumas semanas. Para começar, é preciso dizer que essas declarações são um desserviço, principalmente nos países mediterrâneos, nos quais existe gente que pensa que isto acabou. A realidade é muito diferente. Para começar, o vírus não desapareceu. Não podemos esquecer que a segunda-feira desta semana foi o primeiro dia na Espanha em que não foi registrada nenhuma morte pelo novo coronavírus desde o início de março. Não podemos esquecer isso. Também não podemos esquecer que continua havendo infectados, continua havendo focos de infecção.

O vírus continua circulando. Circula pouco porque estamos dificultando cada vez mais as coisas para ele, mas se relaxarmos, o vírus continuará infectando porque continua havendo uma população suscetível. Não podemos pensar que acabou porque não é assim: na população espanhola temos uma imunidade que pode estar entre 5% e 20%, ou seja, muito longe dos 60% considerados necessários para que exista uma imunidade coletiva capaz de acabar com a transmissão do vírus.

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Portanto o vírus existe e o vírus tem capacidade de infectar. Sabemos disso porque continuamos tendo novos casos de pessoas que se infectam. Não sei quais evidências o médico italiano tem para fazer essa afirmação, mas as que tenho me dizem o contrário. E na ciência trabalhamos com evidências, com dados. Os dados de que dispomos na Espanha dizem que o vírus se propaga pouco porque internalizamos a necessidade da distância social, porque a maioria das pessoas usa máscara (embora devessem ser mais numerosas) e porque todas essas barreiras dificultam a contaminação. Mas se perdermos o rumo e deixarmos de seguir essas medidas aparecerão surtos como os de Córdoba, Ceuta, Murcia ou Lérida. Isso nos diz que podemos retomar nossa vida aos poucos, mas mantendo todas essas questões de higiene, distância social e máscara.

Quanto à questão de que atualmente, ao coletar as amostras, menos carga viral é encontrada, isto se deve ao fato de que a doença está sendo detectada mais cedo. Agora estão sendo feitos testes em pessoas assintomáticas, que antes nem se viam porque a prioridade era salvar as centenas de pessoas que estavam nas UTIs. Agora que, felizmente, já não temos essa prioridade, foram implementadas detecções epidemiológicas e rastreabilidade dos contágios que estão detectando os assintomáticos e sintomáticos nos estágios iniciais e, em ambos os casos, a carga viral é menor que a de uma pessoa que já está com a doença em estágio grave.

Também há quem diga que o vírus sofreu uma mutação e que agora é menos virulento. Neste momento, uma grande quantidade de coronavírus está sendo sequenciada em todo o mundo e está sendo observado que o vírus está se modificando e sofre mutação porque é um vírus RNA. Mas, até o momento, não vi nenhum dado ou sequência associado à baixa virulência com dados comprovados; existem hipóteses, mas ainda é cedo. Nós, cientistas, não temos esses dados. Pode ser uma percepção dos médicos, mas enquanto não tivermos os dados não se pode afirmar. Esclarecido esse ponto, os vírus em geral, quando passam para um novo hospedeiro, como neste caso, em que o SARS-CoV-2 (que passou de um animal às pessoas) fazem todo o possível para se espalhar. A melhor estratégia para um vírus não é matar o hospedeiro, mas que os hospedeiros continuem vivos para que possa se multiplicar e se transmitir da maneira mais eficiente possível. Assim, em geral, nesse tipo de transmissão entre espécies, acontece que após algum tempo as variantes menos agressivas vão sendo selecionadas e são as que permanecem na população. No entanto, aqui fizemos um corte, dissemos: “Confinamento”. Isso salvou muita gente e impediu que o vírus circulasse como normalmente circularia. Portanto, devido a esse estado da situação, agora não sabemos se o vírus evoluirá selecionando as variantes mais brandas. Agimos para o bem, mas detivemos o ciclo evolutivo natural do vírus. Portanto, enquanto não tivermos dados sobre a evolução do vírus, só podemos especular.

María Montoya é chefe do grupo de Imunologia Viral do Centro de Pesquisas Biológicas Margarita Salas (CSIC na sigla em espanhol), faz parte do conselho diretivo da Sociedade Espanhola de Imunologia e investiga o SARS-CoV-2.

Pergunta enviada por e-mail por Ada Luanda García

Nosotras respondemos é um consultório científico semanal patrocinado pela Fundação Dr. Antoni Esteve e pelo programa L’Oréal-Unesco ‘For Women in Science’, que responde às dúvidas dos leitores sobre ciência e tecnologia. São cientistas e tecnólogas, parceiras da AMIT (Associação de Mulheres Pesquisadoras e Tecnólogas), que respondem a essas perguntas. Envie suas perguntas para nosotrasrespondemos@gmail.com ou pelo Twitter #nosotrasrespondemos.

Coordenação e redação: Victoria Toro

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