Renan Antunes, um repórter de coração selvagem

Premiado jornalista que fez da cobertura internacional sua maior aventura morreu em Florianópolis, de parada cardíaca. "Se tivesse alguma crença em Deus, teria tentado entrevistá-lo”, escreveu

O jornalista Renan Antunes e sua filha Angelina Guadalupe Leona.
O jornalista Renan Antunes e sua filha Angelina Guadalupe Leona.
Aline Torres
Florianópolis - 06 May 2020 - 20:22 -03

Faleceu na manhã do dia 19 de abril, aos 71 anos, o multipremiado jornalista gaúcho de Nova Prata, repórter independente, crítico e marginal, Renan Antunes de Oliveira. Sofreu uma parada cardíaca, em casa, no bairro Rio Vermelho, em Florianópolis, onde se recuperava de uma infecção pulmonar. A suspeita era covid-19.

Renan havia feito, em fevereiro, um transplante de rim bem sucedido. Estava com a imunidade baixa e contraiu um patógeno. Ao ler a tomografia a equipe médica que o atendia no Imperial Hospital de Caridade, em Florianópolis, suspeitou que fosse o novo coronavírus. O Hospital de Caridade solicitou que Renan ficasse em isolamento em casa e receitou tratamento com coquetel à base de hidroxicloroquina e azitromicina —motivo de preocupação para Renan. Ingerindo imunossupressores em função do transplante de rim e muito bem informado, temia a denúncia da ANSM (Agência Nacional de Vigilância de Medicamentos Francesa), que relatou mortes por parada cardíaca em pacientes submetidos a estes medicamentos, contou sua esposa, a jornalista Blanca Rojas. No sábado, véspera de seu falecimento, cinco dias após o início do tratamento com as drogas, veio o resultado negativo para coronavírus.

Com texto texto ágil, irônico, ácido, Renan era a metralhadora das pautas não realizadas. O caçador das pontas soltas. Gostava de causas fora dos eixos, cenas engraçadas, crimes pequenos. Não passava panos na miséria. Não disfarçava a dor. Fez das coberturas internacionais sua maior aventura de repórter. Foi dos Andes ao Alaska, de Hong Kong a Berlim. Na China, escapou de ser deportado pelo Governo ao se acorrentar na embaixada. Preso no Irã, em 2001, foi levado para uma cadeia, encapuzado, e interrogado durante 30 horas com guardas brincando de roleta russa com sua cabeça. Conheceu o Brasil farejando pautas complexas. Cobriu o conflito em Raposa Serra do Sol, tiroteios no Complexo do Alemão, apurou histórias na calçada da Boate Kiss.

Em seu livro Carne Viva com Calda de Chocolate, Renan vangloriava-se de ter estado em lugares tão altos quanto o Tibet, tão complicados quanto o Afeganistão, tão calmos quanto o santuário catarinense de Madre Paulina. “Busquei personagens em Bagdá e na cidadezinha de Mariluz, em Tegucigalpa e Sarajevo, no Timor, Tailândia, em Paris e em La Realidad, vilarejo mexicano. Estive em mesquitas da arábia, sinagogas americanas, monastérios tibetanos e catedrais de Roma. Se tivesse alguma crença em Deus, teria tentado entrevistá-lo”.

Esse era Renan, um homem de coração selvagem —e teimosia de mula. Rebelde incorrigível, foi processado em cinco Estados, preso em quatro países e expulso de dois. Muitos leitores não o conheceram porque bateu de frente com os donos de quatro dos sete maiores conglomerados de comunicação do Brasil. Virou um pária na mídia.

Era chefão quando se acorrentou no jornal e fez greve de fome em busca de aumento para os funcionários —repórteres, diagramadores, fotógrafos—, todo povo que rala muito e paga a conta. Liderou revoltas contra os patrões. Primeiro em Brasília, depois em Santa Catarina.

Trabalhou para 16 portais, quatro televisões e as rádios BBC, de Londres, Internacional, da China, Farroupilha e SBS, da Austrália. Faliu duas vezes, recusou cargo irrecusável na Globo e, nos últimos anos, escrevia para site Diário do Centro do Mundo (DCM).

Renan Antunes de Oliveira foi o primeiro e, provavelmente, o único repórter a levar o Prêmio Esso com a reportagem A tragédia de Felipe Klein publicada num jornal nanico, o valente , de Porto Alegre. O cara havia desbancado grandes veículos, no principal prêmio nacional de jornalismo da época, com um texto eletrizante, humano, único e sobre suicídio, tabu antigo na imprensa. Em 2004, ao subir no palco para receber o troféu foi vaiado pelos colegas dos jornalões. Se apropriou do microfone por 25 minutos, insubordinado estourou o limite da fala, os organizadores planejaram até desligar o som, mas após contar sua história foi aplaudido em pé por todos no salão. Esse era o Renan e não existia indiferença diante dele.

O jornalista deixa a esposa Blanca, seis filhos e a mãe.

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