Extrema direita abre caminho ao Congresso argentino com ataques à “casta política”

Pesquisas para as Legislativas de 14 de novembro indicam uma bancada ultraconservadora pela primeira vez desde o retorno à democracia, em 1983

O economista ultraliberal Javier Milei, no ato de encerramento da campanha do Avança Liberdade em Buenos Aires neste sábado.
O economista ultraliberal Javier Milei, no ato de encerramento da campanha do Avança Liberdade em Buenos Aires neste sábado.Ricardo Ceppi - ceppi@ricardoceppi.com (Getty Images)

Liberdade, Guns (Armas), Bolsonaro, Trump, LGBT. A tergiversação da sigla identificada mundialmente com a diversidade sexual era reproduzida em broches e camisetas negras de simpatizantes do candidato de extrema direita na Argentina, Javier Milei, no ato de encerramento de sua campanha em Buenos Aires, na noite de sábado. Simbolizam a ideologia e as referências políticas do economista ultraliberal que considera o Estado e a casta política inimigos a se combater, mas que em 14 de novembro será eleito deputado nacional pelo Avança Liberdade, como indicam as pesquisas. A coalizão que lidera tem uma intenção de voto de pelo menos 13% na capital argentina nas eleições legislativas de domingo. Na província de Buenos Aires, o principal distrito eleitoral do país, a previsão é que supere os 5%.

“Milei é direto, diz o que muitos pensamos e queremos dizer”, disse Nicolás, segurança privado de 25 anos, no anfiteatro do parque Lezama, no sul da capital argentina. “Todos poderíamos ter uma arma para nos defender. Os ladrões teriam medo dos trabalhadores, não os trabalhadores dos ladrões, como ocorre agora”, afirmou. Além da camiseta com a sigla mencionada, usava uma máscara negra com a bandeira norte-americana estampada de um lado e calças militares.

Entre as milhares de pessoas que foram ao comícios do candidato liberal predominavam os homens jovens. São o grosso dos simpatizantes do economista que se tornou popular por suas polêmicas declarações na televisão antes de dar o salto à política. “Os esquerdistas têm medo”, “Em 50 anos a Argentina será a maior favela do mundo”, “Eu no Banco Central? Seria o último presidente porque o fecharia”, “Sou contra todos os impostos”, são algumas de suas frases, entre as que também se destacam questionamentos ao feminismo, um dos movimentos de maior crescimento nos últimos cinco anos na Argentina.

“Eu era um feminista meio radical fanático aos 13. Depois fui me acalmando, me abri e me aproximei do liberalismo porque aqui na Argentina nos matam com impostos, vejo minha mãe se matando de trabalhar e não consegue viver porque metade do que ganha não vai para ela, vai para um sistema que funciona mal e não nos devolve nada”, disse Agustín, estudante de informática de 18 anos.

No palco, Milei se comprometeu a jamais votar uma lei que signifique um aumento de impostos e um orçamento que inclua déficit fiscal. “A contrapartida de que não exista déficit é que será preciso ajustar. Faremos com que a casta política pague esse ajuste”, prometeu em meio a aplausos e gritos de “filhos da puta” da plateia.

Crise do sistema bipartidário

O candidato libertário atacou todos os outros partidos políticos, mas os mais virulentos vão para Horacio Rodríguez Larreta, prefeito de Buenos Aires pela aliança de centro-direita Juntos pela Mudança (JxC, na sigla em espanhol) e provável candidato à presidência em 2023. “Quando nos deixar trancados rendia 50% de rating, Larreta se sentava com o presidente, situação que não mudou enquanto as pesquisas não mudaram”, lembrou em referência ao apoio inicial da oposição ao isolamento obrigatório imposto pelo presidente Alberto Fernández para deter a pandemia de covid-19. Por esse apoio, Milei considera Larreta cúmplice de “um Governo criminoso que não testou, não vacinou a tempo e a todos. A negligência e a corrupção desse Governo custaram a vida de mais de 100.000 argentinos”.

Há décadas, a sociedade argentina oscila entre governos peronistas e antiperonistas. Mas a decepção de muitos eleitores com o Governo de Fernández após seus dois primeiros anos no poder e a recordação ruim deixada por Mauricio Macri após sua presidência entre 2015 e 2019 enfraqueceram o sistema bipartidário e desviaram votos a opções radicais, tanto à esquerda como à direita. Milei quer tirar eleitores da JxC, a coalizão que venceu nas eleições primárias de 12 de setembro e que as pesquisas também apontam como favorita nas Legislativas do próximo domingo. “Não se deixem levar pelo canto da sereia, estão mentindo. Se querem liberalismo, não elejam a cópia falsificada, elejam o melhor liberalismo, o da Liberdade Avança”, vociferou. “Viva a liberdade, caralho”, respondiam seus simpatizantes.

Caso não ocorram surpresas, quando os novos legisladores assumirem em 10 de dezembro a extrema direita estará representada pela primeira vez no Congresso argentino. A segunda da chapa de Milei é a advogada Victoria Villarruel, presidenta do Centro de Estudos Legais sobre o Terrorismo e suas Vítimas (CELTyV). Villarruel negou várias vezes a existência do terrorismo de Estado durante a última ditadura, apesar da Justiça argentina ter condenado mais de mil militares pelos crimes de lesa humanidade perpetrados entre 1976 e 1983.

“Peço a vocês que não tenham medo de se sujar, sejam protagonistas, me ajudem a mudar a Argentina, voltemos a ser potência. Viva a liberdade, caralho. Viva a liberdade, caralho. Viva a liberdade, caralho”, finalizou Milei. A euforia dos que o aplaudiam contrastava com a inquietação dos que passavam pela avenida em frente ao parque voltando da marcha do Orgulho Gay realizada na mesma hora no centro da cidade.

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