Morre Colin Powell, ex-secretário de Estado dos EUA, aos 84 anos

Ele foi o primeiro negro a ocupar o cargo de chefe do Estado Maior das Forças Armadas

O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, durante a Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável em Johanesburgo, em setembro de 2002.
O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, durante a Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável em Johanesburgo, em setembro de 2002.EFE
Yolanda Monge
Washington -

O ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell, morreu nesta segunda-feira, aos 84 anos por complicações devido à covid-19, segundo informou sua família. “Perdemos um marido, um pai, um avô e um grande americano”, escreveram seus familiares em um comunicado publicado nas redes sociais, que acrescentam que o ex-secretário havia completado o esquema vacinal contra o coronavírus. Lloyd Austin, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, prestou homenagens a quem chamou de “um dos maiores líderes que já vimos”. “O mundo perdeu um de seus maiores homens”, declarou Austin, durante uma viagem a Tblisi, capital da Geórgia. “Perdi um grande amigo e um mentor”, acrescentou.

Powell foi o primeiro negro a ocupar o cargo de Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas —sob o mandato de George Bush pai, entre 1989 e 1993— e também o primeiro a representar a diplomacia dos Estados Unidos —com o filho Bush, entre 2001 e 2005—. Sua imagem brandindo em 2003 com um gesto grave perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas um tubo de laboratório que simulava conter um gás letal —na verdade era sal— para provar a existência de armas de destruição em massa no Iraque marcou para sempre seu trabalho de bom soldado. Essa manobra política serviu de desculpa para os EUA invadirem o Iraque, evento do qual o general se arrependeu ao longo dos anos. Em sua defesa, ele invocou um senso de dever e obediência à autoridade presidencial. “É exatamente o mesmo que acontece no contexto militar: você argumenta e debate, mas uma vez que o presidente toma uma decisão, essa decisão deve ser adotada pelo gabinete”, disseram os militares em entrevista à CNN com Larry King em 2009.

Pragmático e um devoto firme das alianças internacionais, o General Powell era uma ave rara no governo George W. Bush, dominado por ideólogos neoconservadores que duvidavam da utilidade da ONU e da OTAN e que estavam sempre muito dispostos a responder perguntas com poder militar. “Eu sabia que não tinha outra escolha”, disse Powell ao The New York Times em julho de 2020, sobre seu papel na invasão do Iraque. “Que escolha eu tinha? Era o presidente”.

Nascido no Harlem, em Nova York, em 1937, filho de pais imigrantes jamaicanos, Powell se formou na escola com poucas realizações acadêmicas, mas se destacou no Corpo de Treinamento de Oficiais da Reserva do Exército. Desde que entrou na ativa, em 1958, o então tenente iniciou sua carreira militar na Guerra do Vietnã. Sua experiência no país asiático, quando ainda era um jovem soldado, o levou a desenvolver uma doutrina pessoal —a Doutrina Powell: prega que os Estados Unidos, assim que decidam usar a força militar, devem agir de forma implacável e avassaladora, com objetivos políticos claros e um plano de retirada das tropas no campo de batalha.

Powell veio para a Casa Branca em 1972 com uma bolsa de estudos que o levou a ser mentor de dois futuros secretários de defesa, Caspar Weinberger e Frank Carlucci. A partir daí, o militar foi adquirindo estrelas até somar quatro. Com a terceira, ele serviu como número dois do conselheiro de segurança nacional de Ronald Reagan.

Com o fim da Guerra do Vietnã, seu trabalho se concentrou em restaurar parte do orgulho militar perdido após uma guerra impopular. Durante seu serviço sob a administração Reagan, o general ajudou a pôr fim às operações secretas do Conselho de Segurança Nacional (NSC), incluindo o escândalo Irã-Contra, a venda secreta de armas ao Irã para desviar ilegalmente fundos destinados à milícia contrarrevolucionária que tentou derrubar o governo sandinista da Nicarágua com o apoio dos Estados Unidos, nos anos 1980.

General Colin L. Powell, former U.S. Secretary of State and Chairman of the Joint Chiefs of Staff, passed away this...

Posted by General Colin L. Powell on Monday, October 18, 2021

A Guerra do Golfo Pérsico, em 1991, fez dele um herói nacional e o primeiro negro a chefiar o Estado-Maior Conjunto. No entanto, oito meses depois que Bill Clinton iniciou seu mandato, Powell deixava o cargo. Foi então que considerou um futuro político e uma candidatura à Casa Branca, após a publicação de 1995 de seu livro de memórias ‘My American Journey’. Mesmo assim, a oposição dos setores mais à direita do Partido Republicano e a falta de entusiasmo o levaram a desistir da ideia.

Powell, um republicano respeitado em todo o país, terminou os anos votando como um democrata. Em 2008, ele deu as costas ao partido que o consagrou e, desde então, pediu apoio a Barack Obama, Hillary Clinton e, finalmente, Joe Biden. Morreu no hospital militar Walter Reed em Bethesda (Maryland, nos arredores de Washington). O militar condecorado foi uma das figuras mais críticas ao presidente Donald Trump que, para ele, carecia de ética.

“A palavra que uso a respeito do que ele fez nos últimos anos é uma palavra que nunca teria usado antes, que não usei com nenhum dos quatro presidentes para os quais trabalhei: mentir.” Após o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro, o general anunciou que não considerava mais o Partido Republicano sua casa na política. “Neste momento, me preocupo com o meu país, não com os lados da política”, disse ele.

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