Social-democratas saem na frente e lideram por estreita margem as eleições da Alemanha

Projeções indicam que a União Democrática Cristã (CDU), de Angela Merkel, terá o pior resultado de sua história, enquanto que o Partido Social-Democrata (SPD) ressurge como principal força política

Cartazes dos quatro principais candidatos nas eleições alemãs de 26 de setembro: Armin Laschet (CDU), Olaf Scholz (SPD), Annalena Baerbock (Os Verdes) e Christian Lindner (FDP).
Cartazes dos quatro principais candidatos nas eleições alemãs de 26 de setembro: Armin Laschet (CDU), Olaf Scholz (SPD), Annalena Baerbock (Os Verdes) e Christian Lindner (FDP).WOLFGANG RATTAY (Reuters)
Mais informações

As eleições mais emocionantes de que a Alemanha se lembra em muitos anos não decepcionaram. A incerteza perdura até o final. Os primeiros resultados apontam para uma situação de quase empate entre os dois principais partidos, com uma pequena vantagem do Partido Social Democrata (SPD), de Olaf Scholz. A centro-esquerda largou na frente e lidera por estreita margem, com 25,8% dos votos, contra 24,1% da União Democrática Cristã (CDU), de Armin Laschet e da atual chanceler Angela Merkel, de acordo com a rede pública de televisão ARD. A última palavra caberá aos Verdes e aos liberais do FDP, parceiros necessários para levar Scholz ou Laschet à chefia do Governo. É bem possível que os alemães vão para a cama esta noite sem saber ao certo quem vai governar os próximos quatro anos.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

Os Verdes —dispostos a coligar-se tanto com a CDU como o SPD, mas mais inclinados a Scholz—, obtêm cerca de 15%. É o melhor resultado de sua história, embora muito aquém do objetivo de sua candidata, Annalena Baerbock, de se tornar chanceler (primeira-ministra). Os liberais, que claramente se posicionam mais pró-CDU, subiriam alguns décimos, para 11,5%. Com esses dados em mãos, ainda provisórios, tanto Scholz como Laschet poderiam ser chanceleres. Mas quem for o primeiro colocado deve ter a primeira palavra.

Laschet deu declarações somente 45 minutos depois do fechamento dos colégios eleitorais. Primeiro, agradeceu à chanceler Angela Merkel por seus esforços em 16 anos de Governo —ela estava a seu lado, com os olhos ligeiramente avermelhados. As caras tristes eram evidentes na sede de um partido que teve os piores resultados de sua história. “Não podemos estar contentes”, disse Laschet, que mesmo assim insistiu em que buscará liderar o Governo. Pouco depois falou Scholz. “Muitos cidadãos votaram no SPD porque querem uma mudança e que o próximo chanceler se chame Olaf Scholz”, disse ele a alguns militantes empolgados na Casa Willy Brandt, a sede do partido. Scholz, um homem que fez da tranquilidade uma marca da casa, nem mesmo nesse momento em que seu partido pode ter vencido as eleições pela primeira vez em duas décadas se permitiu fazer uma concessão aos sentimentos.

Matematicamente, existem várias coalizões tripartites possíveis, mas as opções mais realistas se reduzem a duas: a chamada coalizão semáforo (SPD, verdes, liberais), e a Jamaica (CDU/CSU, Verdes e Liberais). Tudo parece indicar que os ambientalistas e o FDP terão que entrar em acordo, apesar de suas diferenças programáticas. A queda dos pós-comunistas do Die Linke para 5%, com o risco de deixar de ter representação no Bundestag, fecha as opções para uma tripartite de esquerda e dá aos liberais de Christian Lindner mais poder de barganha numa negociação.

A Alemanha está prestes a entrar em negociações muito longas. Quatro anos atrás, Angela Merkel levou quase meio ano para fechar a terceira grande coalizão em seus 16 anos de Governo. A paralisia do país mais populoso (cerca de 83 milhões de habitantes) e de maior peso econômico na União Europeia ameaça deixar o clube europeu sem liderança justamente quando importantes desafios aparecem no horizonte. A UE terá que decidir sobre questões cruciais como quando restabelecer as regras fiscais para não dificultar a saída da crise ou que resposta dar ao novo cenário internacional que se abre com a crise no Afeganistão e os problemas da Administração Biden com a França pela aliança militar que Washington fez com o Reino Unido e a Austrália.

O SPD alcança um resultado que ninguém havia previsto alguns meses atrás. De acordo com as primeiras estimativas, teria subido cerca de cinco pontos em relação a 2017. Além disso, também ganhou as eleições regionais realizadas neste domingo em Berlim e no Estado oriental de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

O partido conseguiu revitalizar sua campanha no mês passado. E não tanto graças à sigla como ao candidato Scholz, vice-chanceler e ministro das Finanças da atual grande coalizão. Estar ao lado de Merkel e se identificar com suas políticas e sua forma de administrar, reflexiva e sem estridências, permitiu que ele se apresentasse ao eleitorado como o mais merkeliano dos candidatos. As últimas pesquisas mostraram que, se os cidadãos pudessem eleger diretamente o chanceler —no país, o eleitor vota em um partido—, claramente decidiriam pelo social-democrata. Scholz soube aproveitar os erros de seus concorrentes. Os cidadãos também valorizaram sua experiência em gestão e sua longa carreira política.

O golpe para a CDU é enorme. O partido de Konrad Adenauer e Helmut Kohl teve os piores resultados de sua história. Até agora, seu pior desempenho tinha sido 31% em 1949. Com relação às últimas eleições que Merkel disputou, perdeu oito pontos. Se os resultados confirmarem as projeções das pesquisas, as facas vão despontar no partido acostumado desde 2005 a vencer todas as eleições sob a batuta de Merkel.

Laschet se revelou um fiasco como candidato. Não conseguiu convencer o país de que era o homem certo para garantir a estabilidade. E também cometeu erros vultosos, como as risadas transmitidas ao vivo quando visitava áreas alagadas em agosto. Mesmo no dia das eleições, não parou de escorregar. Neste domingo, no colégio eleitoral, mostrou o conteúdo de sua cédula antes de colocá-la na urna. Em vez de dobrá-la para que o conteúdo ficasse para dentro, dava para ver as cruzes que ele havia marcado, uma imagem que toda a mídia imediatamente divulgou. Este é um novo erro pelo qual Laschet recebeu inúmeras críticas, por violar o princípio de que o voto é secreto.

Estas eleições trazem muitas novidades para os alemães. É a primeira vez que a atual chanceler não tenta ser reeleita. Nunca antes a votação foi tão fragmentada, com os dois principais partidos muito igualados e três outros, FDP, Verdes e a extremista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) a uma curta distância. Essa maior diluição dos votos provoca uma incerteza que provavelmente se traduzirá em meses de complicadas negociações para formar um Governo. Merkel permanecerá como chanceler interina durante todo o processo, que pode se estender até o início do ano que vem.

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: