Mike McCarter, de 72 anos, natural de La Pine, Oregon, admira a reputação politicamente conservadora de Idaho.
Mike McCarter, de 72 anos, natural de La Pine, Oregon, admira a reputação politicamente conservadora de Idaho.Monica Gonzalez / El Pais
Eleições EUA 2020

Jesus é meu Deus, Trump é meu presidente e eu quero ser de Idaho

Milhares de conservadores do progressista Oregon estão tão irritados que promovem a anexação de suas cidades ao feudo republicano vizinho

As águas do rio Deschutes correm turvas, ladeadas por milhares de pinheiros, sob o sol clemente dos primeiros dias frios do outono no noroeste americano. Dizem os moradores de La Pine, um povoado de 1.600 habitantes do Oregon, que esse azul-turquesa do céu não é normal, que desde os incêndios do verão nada mais foi como antes e que o que se via normalmente às quatro da tarde, ao se levantar a cabeça, era uma cor tão intensa que a pessoa se sentia parte do além.

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“Veja, se o projeto das novas fronteira fosse adiante, aqui, onde nós estamos, seria o Oregon, e lá na frente, do outro lado do rio, já começaria o Idaho, o novo grande Idaho”, diz Mike McCarter, ex-fazendeiro, ex-militar, instrutor de armas, caçador, pai de nove filhos.

Jesus é seu salvador, Trump é seu presidente. Esse é o lema de seu boné negro, gasto e apertado no crânio, e assim ele vai contando pouco a pouco, conforme desfia a missão que abraçou aos 73 anos de vida: promover uma mudança de fronteiras de maneira que todo o Oregon rural conservador, que olha a cidade progressista de Portland por telescópio, como se fosse Marte, seja anexado ao seu vizinho Idaho, paraíso da direita e do cultivo de batatas, onde não se vota em um presidente democrata desde Lyndon B. Johnson, em 1964.

“Lá mesmo já começaria o Idaho”, repete McCarter com os olhos voltados ao outro lado da água turva, entre o som dos pássaros.

Há territórios divididos, há comunidades presas da insatisfação e também pessoas fartas dos governantes. E depois surgem Mike McCarter e o movimento que lidera, que estão tão irritados com a política da cidade que já recolheram milhares de assinaturas para poder votar sua anexação ao Estado vizinho. Seu movimento se chama “Mover a fronteira do Oregon para um grande Idaho”.

Com esse caso extremo de fratura campo-cidade o EL PAÍS começa uma série sobre a polarização da sociedade norte-americana, a apenas duas semanas de insólitas eleições presidenciais, assombradas por uma grave crise sanitária, econômica e política.

“Tudo sobre o que nossas autoridades decidem responde aos valores urbanos, não aos rurais, querem impor uma taxa do carbono, quando precisamos do carro para tudo; querem colocar um salário mínimo muito alto para um lugar de empregos agrícolas, geralmente mais baixos; e aqui, não é que não acontece nada nunca, mas não temos seus problemas de crime e começam a querer impor restrições às armas”, diz o homem, que comparece à entrevista com uma pequena pistola no bolso.

As montanhas Cascade se transformaram em uma cortina de ferro ideológico. No noroeste está a cidade de Portland, um dos grandes nichos progressistas dos EUA, onde nesse verão ocorreram alguns dos episódios mais violentos da onda de protestos contra o racismo. O condado que ocupa não elege um presidente republicano desde Richard Nixon (não o Nixon vencedor de 1968, e sim o primeiro candidato Nixon que perdeu contra JFK em 1960). Do outro lado, em Idaho e na maior parte de seus condados vizinhos ao Oregon, não votam em um democrata desde Johnson.

Como, com o passar das décadas, a população do Estado se concentrou mais e mais ao redor de Portland, seu peso político cresceu e o conjunto do Estado é como esse céu de que McCarter tanto sente falta, de um azul muito intenso, que é a cor que identifica os democratas nos EUA. A área metropolitana de Portland tem 2,4 milhões de habitantes, de acordo com o censo de 2017, o que representa 60% da população de todo o Estado. Lá, Hillary Clinton venceu em 2016 com 73% dos votos; do outro lado, Trump obteve níveis de apoio semelhantes.

O clima político se tornou tão irrespirável que os legisladores republicanos boicotaram várias vezes as sessões da Assembleia do Estado para evitar que sejam aprovadas novas medidas sobre impostos e controle de armas. No ano passado, para combater uma taxa ambiental, os legisladores desapareceram e a governadora do Estado, a – como não – democrata Kate Brown, precisou mandar a polícia buscá-los. Brown é a grande inimiga da página do Facebook do movimento separatista, com 10.000 membros. Nela se ressaltam as coisas boas de Idaho – menos regulamentações, menos pressão fiscal, mais acesso às armas – e se critica os democratas.

O grande Idaho engoliria 19 condados do Oregon, dos quais quatro reuniram assinaturas suficientes para poder votar sobre o assunto (Douglas, Jefferson, Union e Wallowa). Mas além da terapia de grupo que significa o movimento em si, é difícil que suas pretensões se tornem realidade. Para isso, deveriam ser aprovadas pelas Câmaras do Oregon e de Idaho e, depois, pelo Congresso dos Estados Unidos, em Washington. Esses são muitos acordos para a era do rompimento, ainda que o objetivo seja o divórcio.

Quando toda essa confusão começou? Por quê? Em 2008, o professor de Políticas Públicas Mark Henkels publicou com outros dois autores uma análise premonitória chamada A Política de um Só Oregon. Causas, consequências e perspectivas de superar a divisão entre o mundo rural e o urbano. Nele, dizia que as políticas ambientais haviam causado um forte impacto no mundo rural, que viu o negócio madeireiro minguar, entre outros. E que essa decadência do campo ocorreu paralelamente à migração política de muitos trabalhadores ao Partido Republicano, catalisados pela revolução reaganiana. Enquanto isso, receberam novas minorias, mais propensas a votar nos democratas.

“É verdade que as regulamentações prejudicaram as pessoas que vivem da madeira e da agricultura, mas sem elas [as políticas ambientais], na era da informação também teriam muita dificuldade para continuar crescendo. É preciso se perguntar se podem continuar crescendo se não mudarem sua maneira de fazer as coisas”, responde agora por telefone Henkels.

As ruas de La Pine estão vazias nessa quinta-feira de meados de outubro; os escassos comércios exalam decadência, não é muito claro se pela pandemia ou se pelo passar dos anos, nessa letargia em que muitos povoados da América rural submergiram. O assunto fabricou seu próprio gênero literário, dúzias de ensaios, muitos deles à procura de uma explicação ao crescimento do populismo de direita, ao Tea Party de 2008, ao furacão Trump de 2016.

A saudade invade moradores como Barbara Martin, tesoureira do movimento conservador secessionista, que nasceu em Los Angeles em 1952. “A Califórnia era republicana nessa época, sabe? Cresci em um subúrbio onde ninguém trancava a porta de casa, jurávamos lealdade à bandeira todas as manhãs no colégio, andávamos sempre de bicicleta e o carteiro e a polícia eram figuras de autoridade”, lembra.

- Qual foi o melhor presidente que os Estados Unidos tiveram ao longo de sua vida?

- Acho que Trump, nunca vi ninguém fazer tanto.

- Acha ele melhor do que Eisenhower [também republicano]?

- É que eu era muito pequena nessa época.

- Melhor do que Ronald Reagan?

- Empatado com Reagan.

Esse choque no Oregon é um exemplo extremo do que mais ou menos acontece no restante do país. A polarização geográfica, pela qual os seguidores de um partido tendem a se concentrar nas mesmas áreas, aumentou nos Estados Unidos desde os anos setenta e, de acordo com um estudo acadêmico de Rebecca Sullivan, Ethan Kaplan e Jörg Spenkuch, o país não estava tão dividido desde 1860. Segundo a contagem feita pelo The New York Times no ano passado, é a primeira vez em mais de um século que todos os Estados com exceção de um — Minnesota — são controlados por um só partido.

Na verdade, se McCarter, Barbara Martin e seu entorno fossem bem-sucedidos, o Oregon não ficaria com muito mais além da cidade de Portland e os arredores, e levariam junto um bom pedaço do norte da Califórnia, onde, afirmam, os conservadores sentem-se tão isolados como eles.

A cultura das armas é um dos assuntos mais controversos. Os dois passaram o dia com a reportagem, passeando pelo condado e com um tratamento de saúde no hospital, armados.

Ele leva uma pistola bem pequena, do tamanho de um celular, que tem pouco a ver com os rifles que mostrará mais tarde em sua casa. “Eu me criei caçando, mas não desperdiço, tudo o que caço divido”, frisa. Ela, Barbara, tem uma Magnum 357 guardada no carro. Sempre a deixa lá. Primeiro, diz, caso um dia atropele um animal e, para abreviar seu sofrimento, ou do ataque de outros animais, precise sacrificá-lo. E, segundo, caso algo diferente de um animal tente atacá-la. “A polícia, às vezes, não está por perto”, alerta. O que nenhum deles usa é máscara, a não ser nos locais em que é obrigatório.

O movimento separatista não é totalmente novo nessa região. Há anos, e com a mesma filosofia, outro grupo promove a criação de um novo Estado chamado Jefferson, que englobaria o norte da Califórnia e o sudoeste do Oregon. Mas, como diz McCarter, “isso seria mais difícil de conseguir porque acrescentariam cadeiras no Congresso de Washington e então uns ganham e outros perdem. Se for feito como dizemos, tudo continua igual, Idaho, republicano, e Oregon, democrata”.

Ao deixar La Pine, o panorama começa a mudar. Em somente 30 minutos se chega em Bend, um belo local de turismo de montanha, restaurantes estilosos e empresas da moda conhecidas. Em um dos cafés trabalha Porter Parker-Smith, que tem 20 anos e cresceu no local. “Estou muito preocupada com essas coisas, parece que é muito barulho, mas cada vez mais gente parece disposta a aceitá-lo. Também acho que a presidência de Trump ressuscitou muito desse sentimento”, opina.

Seguindo a rodovia ao noroeste se chega a Portland, transformada em agente indesejável dos conservadores do campo. Um dos centros nevrálgicos dos protestos, a praça em frente ao Palácio da Justiça, é hoje um campo de tendas de campanha, barraquinhas e grafites, vestígios das mobilizações Black Lives Matter desse verão. “Terra prometida?”, diz uma de suas pichações.

“O Oregon nem sempre foi assim”, alerta McCarter, “eu me criei em um subúrbio de Portland, meu pai era operário de fábrica, e era democrata. Este não é um movimento de partido, é um movimento conservador”, frisa.

A tarde cai em La Pine. Quando Barbie Martin começa a andar em direção ao carro, sob esse azul do céu que não é tão azul como antes, se despede com uma frase lapidar, pronunciada quase inconscientemente, sem dar importância: “Eu não estou tentando mudar o Oregon, só quero que continue sendo como costumava ser”.

CRÉDITOS:

Edição: Amanda Mars | Mónica González

Edição visual: Héctor Guerrero

Direção de arte: Fernando Hernández

Design e Layout: Alfredo García

Front-end: Alejandro Gallardo

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