Nicolás Maduro

Detido em Cabo Verde suposto testa de ferro de Nicolás Maduro

O empresário colombiano Alex Saab se beneficiou com grandes contratos do chavismo e é investigado por corrupção e lavagem de dinheiro na Colômbia e nos Estados Unidos

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. No quadro, o empresário colombiano Alex Saab.
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. No quadro, o empresário colombiano Alex Saab.Jhonn Zerpa/Prensa Miraflores/dp / Europa Press

O empresário colombiano Alex Naím Saab Morán foi detido na noite de sexta-feira no arquipélago africano de Cabo Verde. A Justiça da Colômbia e dos Estados Unidos investigava por lavagem de dinheiro o homem de origem libanesa, famoso por ser o principal operador financeiro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Saab é alvo de sanções de Washington desde junho de 2019, após ser acusado de servir de testa de ferro do líder chavista. A detenção do empresário de 49 anos foi divulgada pela imprensa colombiana e pela agência americana Associated Press, que citou a um porta-voz do Departamento de Justiça.

As versões da imprensa afirmam que Saab Morán viajava em um avião privado de pequeno porte com matrícula venezuelana, que teria decolado do aeroporto de Maiquetía, perto de Caracas. O empresário foi capturado em uma parada de reabastecimento em Cabo Verde, em uma viagem que tinha como destino o Irã. Saab é procurado pela Justiça americana, mas o arquipélago africano não tem um acordo de extradição com Washington.

Saab Morán tinha uma grande rede de contatos fornecidos pelo chavismo. Estes se multiplicaram durante o mandato de Maduro. Nos anos do controle cambial na Venezuela, tornou-se fornecedor de kits de construção de casas pré-fabricadas por meio de um acordo de 685 milhões de dólares (3,5 bilhões de reais) com sua empresa Fundo Global de Construção. O contrato foi assinado com a presença dos então presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Juan Manuel Santos, da Colômbia.

Com Maduro no poder, Saab se transformou em uma figura-chave, chegando a ser o principal fornecedor do programa de alimentos subsidiados dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), que fornecia caixas e sacos de comida de baixa qualidade importada com superfaturamento e vendida mensalmente aos venezuelanos. Essa relação começou com um contrato de 340 milhões de dólares (1,7 bilhão de reais), que se estendeu a outras negociações de alimentos e remédios, das quais também participaram parentes de Maduro, e à abertura de empresas no México, Emirados Árabes, Turquia e Panamá.

Saab Morán também foi favorecido com a administração, por meio de suas empresas, da rede estatal de supermercados Abasto Bicentenario, criada a partir de expropriações feitas por Hugo Chávez. Em 2018, entrou no negócio do ouro com poder suficiente para que um de seus antigos funcionários fosse nomeado presidente da estatal Minerven, que depois se associou à empresa de mineração e produção de carvão Carbones del Zulia, outro negócio no qual Saab está envolvido.

A rede de corrupção vinculada a Saab também atingiu a oposição venezuelana. No ano passado, um grupo de parlamentares fez lobby para limpar a imagem de seus negócios no exterior, justamente no momento em que as sanções americanas começaram a cercá-lo e suas contas bancárias foram congeladas. Essas medidas também se estenderam a seus sócios e familiares. A chamada bancada CLAP do Parlamento, integrada pelos legisladores Luis Parra e José Brito e por outros nove deputados, fez gestões por sua reputação e depois acabou se separando da oposição. Em janeiro, essa bancada promoveu a formação de uma junta para comandar o Parlamento com o apoio do chavismo, sem quórum nem votos, em uma tentativa de desbancar Juan Guaidó da presidência legislativa, um episódio que agravou ainda mais a crise institucional no país.

A extensa rede foi minuciosamente revelada na Venezuela pelo portal digital Armando Info. Suas investigações sobre Saab e seus sócios levaram quatro de seus jornalistas ―Roberto Deniz, Ewald Scharfenberg, Joseph Poliszuk e Alfredo Meza― ao exílio, devido a ameaças de processos judiciais contra eles e à proibição expressa feita pela Conatel, a agência reguladora das telecomunicações na Venezuela, de que o nome do empresário colombiano fosse mencionado no portal.

A Justiça internacional vinha fechando o cerco ao poderoso empresário. Além de ser procurado pela Justiça dos Estados Unidos e da Colômbia, que o considerava foragido desde 2018, foram abertas investigações sobre suas empresas no México, onde a Procuradoria também congelou bens de Saab Morán. Nesta semana, a Justiça colombiana anunciou o embargo de oito propriedades na cidade de Barranquilla que estavam em nome de uma sociedade “que teria servido de fachada para ocultar dinheiro obtido por Alex Saab” por meio de uma empresa com a qual fez “importações e exportações fictícias que representaram perdas para o Estado colombiano”, afirma um comunicado judicial.

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