COREIA DO NORTE

Kim Jong-un anuncia fim da moratória de testes nucleares e ameaça desenvolver uma “nova arma estratégica”

Líder norte-coreano diz que, diante da falta de propostas dos EUA, não vê razão em manter a medida adotada em 2018

Kim Jong-un, no Comitê Central do Partido dos Trabalhadores em dezembro, em uma foto distribuída pela agência estatal KCNA.
Kim Jong-un, no Comitê Central do Partido dos Trabalhadores em dezembro, em uma foto distribuída pela agência estatal KCNA.STR (AFP)

O líder norte-coreano, Kim Jong-un, disse nesta terça-feira que não vê razão para manter a moratória de testes nucleares e de mísseis de longo alcance que Pyongyang adotou em 2018 para favorecer o diálogo com os EUA e advertiu que em breve adquirirá uma “nova arma estratégica”. Em seu discurso de conclusão da quinta reunião plenária do atual Comitê Central do Partido dos Trabalhadores, o mandatário norte-coreano afirmou não ver razão para manter a moratória, dada a falta de propostas por parte de Washington. “Não temos motivos para continuar ligados unilateralmente a este compromisso”, afirmou Kim na quarta e última sessão do encontro, segundo relatos publicados nesta quarta pela agência estatal KCNA, em declarações que representam um forte revés para as complexas negociações sobre a desnuclearização da península coreana.

Mais informações
North Korea's leader Kim Jong Un and US President Donald Trump walk together south of the Military Demarcation Line that divides North and South Korea, after Trump briefly stepped over to the northern side, in the Joint Security Area (JSA) of Panmunjom in the Demilitarized zone (DMZ) on June 30, 2019. (Photo by Brendan Smialowski / AFP)
Trump se reúne com Kim Jong-un e se torna primeiro presidente dos EUA a pisar na Coreia do Norte
Donald Trump e Kim Jong-un em imagens de arquivo
O fiasco da cúpula entre Kim e Trump no Vietnã

No entanto, Kim Jong-un —que neste ano optou por não pronunciar um discurso de Ano Novo, substituído por seu pronunciamento na reunião do partido— não fechou completamente a porta ao diálogo, ao dizer que a Coreia do Norte potencializará sua capacidade nuclear dependendo da “futura atitude dos EUA” em relação ao seu país. Kim afirmou que Washington respondeu à moratória do regime fazendo exercícios militares conjuntos com Seul e impondo novas sanções. “Sob tais condições, já não há fundamento para mantermos este compromisso unilateral [de suspender testes de armas] durante mais tempo”, afirmou ele perante a elite do partido único norte-coreano. “Nunca venderemos nossa dignidade”, acrescentou o dirigente, que também prometeu “uma ação impactante para fazer [os EUA] pagarem o preço da dor sofrida por nosso povo”.

“Os atos hostis e a ameaça nuclear contra nós estão crescendo”, alertou Kim, acrescentando que “o mundo será testemunha de uma nova arma estratégica que estará de posse da República Popular Democrática da Coreia [nome oficial do país] em um futuro próximo”. Essa “nova arma estratégica” provavelmente seria um novo tipo de míssil balístico de alcance intercontinental (ICBM). O regime, aliás, fez recentemente dois testes do que se acredita serem novos motores para os ICBMs.

A Coreia do Norte se autoimpôs em abril de 2018 uma moratória a testes nucleares e lançamentos de ICBMs, num gesto que contribuiu para a realização da primeira cúpula entre Kim e o presidente norte-americano, Donald Trump, em Singapura, em junho de 2018.

Naquela ocasião, ambos se comprometeram a “trabalhar para a desnuclearização da península coreana”, mas Pyongyang salientou durante boa parte de 2019 sua impaciência com a falta de verdadeiros avanços substanciais desde aquela reunião, ocorrida já há um ano e meio. Nos anos anteriores à moratória, a Coreia do Norte realizou seis testes nucleares e lançou mísseis capazes de chegar a todo o território continental dos Estados Unidos.

O regime salientou nos últimos meses que daria um prazo até o final do ano para que a Casa Branca levasse novas propostas à mesa de negociação. Perante esta ameaça, a maioria dos especialistas vinha indicando que a Coreia do Norte poderia retomar em breve seus testes atômicos e de ICBMs, e que Pyongyang talvez intensificasse a pressão sobre Donald Trump à medida que se aproxima a eleição presidencial de novembro nos EUA, quando o republicano disputará a reeleição.

O diálogo sobre o desarmamento não avançou desde a fracassada cúpula de fevereiro em Hanói, onde os EUA consideraram insuficiente a oferta norte-coreana para o desmantelamento de seus ativos nucleares e se negaram a suspender as sanções econômicas.

Trump buscou minimizar as palavras de Kim e salientou a “a boa relação” que diz ter com ele. Em sua residência de Mar-a-Lago, na Flórida, o presidente recordou aos jornalistas que os dois países assinaram um acordo que “falava sobre desnuclearização” e previu que o líder norte-coreano não cumprirá suas ameaças porque é “um homem de palavra”.

Regras

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS