_
_
_
_

Rebeca Andrade leva seu ‘Baile de favela’ ao pódio em Tóquio e dá ao Brasil medalha inédita na ginástica

Prata nos Jogos Olímpicos, ela é a primeira brasileira na ginástica artística feminina a subir ao pódio olímpico. Conquista ocorre depois de duas lesões graves desde a Rio 2016

Rebeca Andrade dá show em Tóquio e se consagra medalhista de prata nos Jogos Olímpicos pela ginástica artística.
Rebeca Andrade dá show em Tóquio e se consagra medalhista de prata nos Jogos Olímpicos pela ginástica artística.MIKE BLAKE (Reuters)
Gil Alessi
Mais informações
Tokyo (Japan), 27/07/2021.- Simone Biles of the USA performs on the Vault during the Women's Team final during the Artistic Gymnastics events of the Tokyo 2020 Olympic Games at the Ariake Gymnastics Centre in Tokyo, Japan, 27 July 2021. (Japón, Estados Unidos, Tokio) EFE/EPA/HOW HWEE YOUNG
Simone Biles se retira da final por equipes por um problema de saúde mental
Rayssa Leal en Juegos Olímpicos Tokio 2020
A conquista de um espaço historicamente masculino nos Jogos Olímpicos
USA's Simone Biles prepares to compete in the artistic gymnastics vault event of the women's qualification during the Tokyo 2020 Olympic Games at the Ariake Gymnastics Centre in Tokyo on July 25, 2021. (Photo by Lionel BONAVENTURE / AFP)
Sexualização ou empoderamento? A patrulha de como as atletas se vestem volta aos Jogos Olímpicos

Uma medalha de prata para coroar a trajetória olímpica tipicamente brasileira, que começou em um bairro pobre de Guarulhos, em São Paulo, e chega ao pódio em Tóquio 2020. A ginasta brasileira Rebeca Andrade fez história ao conquistar o segundo lugar na fina individual geral, na manhã desta quinta-feira. É a primeira medalha da equipe feminina de ginástica artística na história dos Jogos Olímpicos. Com uma performance embalada ao som de Baile de favela, a atleta teve um desempenho sólido na disputa e encerrou a prova com 57.298 pontos. Ficou atrás apenas da norte-americana Sunisa Lee, que levou o ouro ao somar 57.433 pontos, A russa Angelina Melnikova marcou 57.199 pontos ao todo e levou o bronze.

Rebeca Andrade, 22 anos, foi impecável nos quatro aparelhos da final: fez 15.300 no salto, 14.666 nas assimétricas, 13.666 na trave e 13.666 no solo. Ela ainda tem chances de medalha na decisão do salto, que será disputada no próximo domingo, e no solo, em 2 de agosto. Este foi o primeiro triunfo da ginástica do Brasil nesta Olimpíada.

“Essa medalha não é só minha, é de todo mundo. Todos sabem da minha trajetória, o que eu passei. Se eu não tivesse cada pessoa dessa na minha vida, isso aqui não teria acontecido. Tenho certeza disso. Sou muito grata a todo mundo mesmo. Acho que mesmo se eu não tivesse ganhado a medalha, eu teria feito história, justamente pelo meu processo para chegar até aqui. Não desistam, acreditem no sonho de vocês e sigam firmes”, comemorou a atleta em entrevista à TV Globo após a conquista histórica.

Rebeca chegou à final como uma das favoritas, após receber a segunda melhor soma de notas da etapa classificatória. Ela ficou atrás apenas do fenômeno da ginástica Simone Biles ―que celebrou, da arquibancada, a vitória da brasileira. A americana, seis vezes medalhista olímpica, deveria disputar a medalha com a brasileira, mas tomou uma decisão corajosa antes da final, e se afastou dos Jogos para cuidar de sua saúde mental após mostrar esgotamento e um desempenho instável nas provas, que fizeram com que ela fosse sacada do time: “Eu senti que seria melhor ficar em segundo plano, trabalhar minha concentração e bem-estar”, afirmou. Ela foi substituída na final por Jade Carey, a terceira melhor ginasta dos Estados Unidos.

A guarulhense Rebeca, que disputa sua segunda Olimpíada, cativou a torcida brasileira —e surpreendeu os juízes— ao se apresentar nas qualificatórias ao som de uma versão orquestrada de Baile de favela, do funkeiro paulistano MC João. A música de 2015 é um ícone nos bailes das periferias de São Paulo, e se tornou símbolo de uma cultura e de uma juventude frequentemente menosprezadas e marginalizadas pelas elites do país. “Trazer a cultura funk para o outro lado do mundo foi incrível”, afirmou a ginasta, filha de uma empregada doméstica, ao deixar o tablado.

A música escolhida se soma ao histórico da seleção feminina brasileira de ginástica de cativar o público com apresentações descontraídas. Foi o caso de Daiane do Santos, que encantou o mundo com uma performance ao som do choro Brasileirinho de Waldir Azevedo —que lhe rendeu medalha de ouro no Mundial de 2003. Ela chegou a disputar as finais em Pequim 2008, mas ficou pelo caminho. O fato é que até o advento de Rebeca em Tóquio 2020, a inventividade das ginastas do país animava a torcida e rendia aplausos nas arquibancadas, mas não se traduzia em medalha nas Olimpíadas.

Rebeca Andrade na trave.
Rebeca Andrade na trave.MIKE BLAKE (Reuters)

A caminhada de Rebeca rumo a Tóquio foi marcada por lesões. Ela precisou realizar duas cirurgias nos joelhos, em 2017 e 2019, após se machucar em competições. A atleta ficou afastada dos tablados por quase oito meses. “Muitas lesões ocorrem nestas condições e ela se machucou por estar tentando fazer o seu melhor. Estamos muito confiantes de que ela voltará a competir no mesmo estágio em que se encontra”, afirmou à época o técnico Valeri Liukin em entrevista à TV Globo. Apesar do otimismo, caso a Olimpíada não tivesse sido adiada devido à pandemia do novo coronavírus, dificilmente a ginasta conseguiria se classificar para os Jogos e disputar em alto nível em 2020.

Durante os Jogos de Tóquio, Rebeca mostrou que faz parte desta nova geração de atletas que não se furta a opinar sobre as principais questões de seu tempo. Ela fez questão de manifestar solidariedade às ginastas alemãs, que em uma atitude contra o sexismo no esporte usaram um uniforme diferente, com calças no lugar do tradicional collant. “Isso está sendo uma conquista enorme para as mulheres (...) A conquista delas é conquista nossa”, disse a brasileira. “As pessoas têm que nos respeitar, a gente tem que usar o que se sente confortável e diminuir ao máximo esse lado sexualizado da mulher”.

O começo de Rebeca na modalidade se deu ainda criança, graças a uma tia que trabalhava no Ginásio Bonifácio Cardoso, na Vila Bonifácio, em Guarulhos. Ela resolveu levar a sobrinha ao local: a ideia era que a pequena, cheia de energia, pudesse se distrair um pouco e dar um sossego em casa. Rapidamente ela mostrou desenvoltura na modalidade, o que lhe rendeu o apelido de “Daiane dos Santos 2″. Deu no que deu.

Rebeca Andrade (à direita), com Sunisa Lee (EUA) e Angelina Melnikova (Rússia) no pódio nos Jogos Olímpicos 2020.
Rebeca Andrade (à direita), com Sunisa Lee (EUA) e Angelina Melnikova (Rússia) no pódio nos Jogos Olímpicos 2020.MIKE BLAKE (Reuters)

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_