JOGOS OLÍMPICOS

Depois de Kelvin, Brasil já sonha com o pódio das fadas do skate em Tóquio

Pâmela Rosa, Rayssa Leal e Letícia Bufoni têm chances de conquistar um inédito pódio completo na modalidade ‘street’, cuja final começa na noite deste domingo

Pâmela Rosa, Letícia Bufoni e Rayssa Leal em junho de 2021.
Pâmela Rosa, Letícia Bufoni e Rayssa Leal em junho de 2021.Julio detefon / Tokyo 2020

Mais informações

A medalha de prata de Kelvin Hoefler deixou o Brasil com água na boca para um esporte pouco valorizado no Brasil. O resultado inesperado fez o país abrir os olhos para o esporte e agora vive a expectativa das provas no feminino. A chance é boa. Das quatro melhores skatistas do mundo, três são brasileiras. Ao menos é o que constata o ranking mundial de skate feminino, que tem Pâmela Rosa como líder, Rayssa Leal como segunda colocada e Letícia Bufoni em quarto lugar. O cenário traz a possibilidade de um feito inédito para o Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020: um pódio inteiro formado por brasileiras. O skate estreia como esporte olímpico em Tóquio nas modalidades park (onde a pista é no formato de uma tigela) e street (uma pista reta com obstáculos). A possibilidade da “tripladinha” brasileira será colocada a prova na final do street feminino, onde as três competem. Ela está marcada para começar na noite deste domingo, 25 de julho, e terminar na madrugada de segunda-feira, 26 de julho.

Na ordem de apostas entre o trio, a favorita à medalha de ouro é Pâmela Rosa, 22 anos. Natural de São José dos Campos, no interior de São Paulo, Pâmela despontou para o esporte ao ganhar uma medalha de prata no X Games aos 15 anos, em 2014. O torneio, que acontece anualmente no Texas, é famoso por ser a competição de esportes radicais mais famosa do mundo. Outras cinco medalhas no mesmo torneio e um título mundial em 2019 —sempre na categoria street— a consolidaram como maior nome da modalidade no mundo e atual líder no ranking internacional.

“Desses anos para cá, eu sempre chego como uma das favoritas em todas as competições”, disse a confiante skatista em entrevista à TV Globo, na qual comentava as chances de vencer o ouro em Tóquio. “Não sou a favorita, tem muitas meninas que estão evoluindo. Tem muitas pessoas apostando em medalha, e eu não deixo isso me abalar nada. É mais uma pressão que eu estou lidando e isso não sobe para a minha cabeça”, garantiu. Entre treinos e vitórias, a campeã mundial ainda tem tempo para desfilar na bateria da escola de samba Tom Maior, onde toca chocalho, como fez no Carnaval paulistano de 2020.

Já Rayssa Leal, 13 anos, é outra candidata, que atende, inclusive, pelo apelido de fadinha do skate. Isso porque, aos sete anos de idade, Rayssa foi gravada fazendo uma manobra de skate fantasiada de fada em Imperatriz, no interior do Maranhão. Rayssa ganhara o skate há um ano e sua habilidade já denotava a ascensão meteórica. Do vídeo para frente, foi elogiada por Tony Hawk, a maior estrela da modalidade, passou a competir profissionalmente e em 2019 já era campeã em Los Angeles, a mais nova a fazê-lo. Também foi prata no Mundial vencido por Pâmela no mesmo ano. Hoje ela é a segunda no ranking, atrás da mesma compatriota.

Depois de chamar o skate de “brincadeira com responsabilidade” em entrevista para o EL PAÍS no começo do ano passado, a fadinha tem se destacado pelas impressões divertidas que uma adolescente tem ao fazer parte do maior evento esportivo do mundo. “Eu pensava que a Olimpíada era menor. Mas na hora que eu cheguei vi muita gente. Os prédios, as bandeiras de todos os países. Cara, eu não sabia que era tão grande assim”, afirmou Rayssa depois de chegar na capital japonesa. Neste sábado, 24, exibiu feliz vários fotos com o seu ídolo, Tony Hawk, em frente à pista de skate de Tóquio.

Por ter apenas 13 anos, ela teve a companhia da mãe, Lilian, autorizada em Tóquio, mesmo com as restrições sanitárias por conta da pandemia de covid-19. Lilian não dorme na Vila Olímpica, mas pode acompanhar a skatista em seu dia a dia. A exceção se justifica: a fadinha é a atleta brasileira mais jovem da história a disputar os Jogos Olímpicos.

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

Curiosamente, a terceira força brasileira é a com o maior currículo entre elas. Letícia Bufoni, paulistana de 28 anos, foi campeã mundial em 2015 e vice entre 2016 e 2018. É a maior vencedora do X Games, com cinco títulos e 11 medalhas. Bufoni viu seu rendimento cair após uma lesão em 2019, mas já se recuperou a ponto de voltar ao quarto lugar do ranking internacional. E chega com a moral elevada em Tóquio após vencer a modalidade street do último X Games, já em julho de 2021. A skatista está atrás de Rayssa no ranking, mas não deixou de ser uma referência para a fadinha, que afirma ter como momento mais especial da vida o dia em que conheceu a paulistana. “Mascote” é o apelido que a mais velha usa com a caçula nas redes sociais, o que evidencia a amizade de 15 anos de diferença. “Elas eram meninas que eu sempre admirei e viraram amigas. Me tratam com muito carinho”, garante a adolescente.

Tanto sucesso no skate feminino motiva outras meninas a buscarem a modalidade. Segundo pesquisa do Datafolha encomendada pela Confederação Brasileira de Skate em 2019, 2,2 milhões de mulheres praticavam o esporte naquele ano, um aumento de 75% em comparação com o período anterior. Outras três brasileiras estão no Japão para a modalidade park: Dora Varella, Isadora Pacheco e Yndiara Asp. O obstáculo na pista costuma ser o machismo. Bufoni revelou que, quando adolescente na zona leste de São Paulo, era chamada de “maria joão” por passar muito tempo com os meninos skatistas.

Incomodado com o bullying, seu pai chegou a quebrar seu skate, o que não a impediu de construir um novo no dia seguinte. “Ele me viu montando o novo e percebeu que não tinha jeito. A partir desse momento, passou a me apoiar”, diz ela. “Sempre digo que para mim também não foi fácil, mas mesmo assim eu persisti e nunca deixei que ninguém falasse o que eu podia ou não podia fazer por ser mulher”, completa. Da mesma forma, Pâmela deu um recado parecido em entrevista ao UOL: “Meninas, procurem andar com seus parentes e amigos, não deem nenhuma importância a essas atitudes [machistas] e façam delas motivações para seguir em frente. O skate é maior que muitas coisas, nele tudo cabe, menos a ignorância”. Quem ganha com a iniciativa das mulheres é o esporte brasileiro —e a partir deste ano, o esporte olímpico.

A maior candidata a melar o pódio triplo brasileiro é a japonesa Aori Nishimura, terceira colocada no ranking mundial —na frente de Letícia Bufoni. Nishimura atua com a motivação de ser dona da casa, mas não venceu nenhuma competição neste ano ainda. Outras possíveis surpresas contra a seleção brasileira de skate feminino podem ser Candy Jacobs, da Holanda, Hayley WIlson, da Austrália, e Mariah Duran, dos Estados Unidos.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50