Ponte Preta acena na contramão do futebol brasileiro com um inédito presidente negro

Conhecedor do histórico pontepretano contra o racismo, o mandatário Tiãozinho busca usar o cargo para implementar uma política de inclusão racial dentro do clube

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A Ponte Preta é um dos clubes que se destacam historicamente no combate ao racismo dentro do futebol brasileiro. Logo em 1900, 12 anos após a abolição da escravatura, o primeiro time principal da Macaca contava com Miguel do Carmo, negro e jogador de futebol, antes de qualquer outra equipe do país, motivo pelo qual os pontepretanos reivindicam o título de primeira democracia racial no esporte do Brasil. Apesar do pioneirismo, a equipe campineira demorou mais de um século para eleger um negro como representante máximo da instituição. Foi apenas em novembro de 2019, quando Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, herdou o cargo de presidente do clube após a renúncia de José Armando Abdalla. No momento que assumiu, Arcanjo também se tornou o único presidente negro entre os clubes das séries A e B do campeonato brasileiro. E, na contramão dos principais adversários, ele chegou anunciando três negros e uma mulher para compor a diretoria executiva da Ponte. “Obviamente a inclusão foi um critério, porque ela é necessária e atual”, conta Tiãozinho.

Sebastião foi vereador e deputado estadual pelo PT em Campinas antes de ser eleito vice de Abdalla no time de coração, onde anteriormente atuou como diretor de futebol. Hoje, o mandatário quer usar sua posição no clube para combater as desigualdades que identifica na sociedade. “Em qualquer organização, nós, negros, estamos a quilômetros das tomadas de decisão. No futebol, não somos notados além das quatro linhas. Vivemos em um país que está acostumado a mandar em nós e não a receber nossas ordens, por isso tenho um grande desafio pela frente”, diz o presidente.

Tiãozinho reclama da demora da Ponte em eleger um representante negro, mas admite que o problema reflete a “fotografia” da sociedade brasileira. “O nível de qualificação exigido fora de campo no futebol nos afasta. A estrutura acadêmica do Brasil obriga os mais pobres a escolherem entre estudar e trabalhar, e o negro normalmente precisa escolher o trabalho, o que nos afasta das atividades mais prestigiadas”. O presidente liga a falta de oportunidades ao país “historicamente racista”, mas vê na Ponte Preta, também pelo aspecto histórico do clube, o cenário ideal para combater a discriminação racial.

A trajetória dos negros no clube campineiro começa com Miguel do Carmo em 1900 e se estende pelos anos seguintes. Doze anos após a fundação, a Ponte Preta venceu pela primeira vez a Liga Operária de Foot-Ball Campineira com três negros no time: Amparense, Moraes e Benedito Aranha. “O goleiro Amparense foi o primeiro ídolo do clube”, conta José Moraes dos Santos Neto, historiador e pesquisador pontepretano. “Ter um presidente negro é resgatar e valorizar a memória da Ponte”, comemora ele.

A partir da década de 1920, a Ponte passou a sair de Campinas para disputar jogos em outras cidades. Conforme relata Neto, a torcida alvinegra acompanhava o time pelo interior paulista através das ferrovias do estado e, quando chegava na cidade onde o time jogaria, fazia o caminho da estação de trem até o estádio festejando pelas ruas. “Esse comportamento da torcida, que era em grande parte formada por mulatos e negros, fez com que ela recebesse o apelido racista de ‘macacada’. Os campineiros pegaram esse preconceito e usaram como símbolo”. Hoje, a Ponte Preta tem o apelido de Macaca Querida e, além da versão fêmea, tem também um gorila como mascote.

No mesmo período, curiosamente, o clube também começou a receber influência da antiga elite campineira, formado por médios e grandes comerciantes brancos. Segundo o historiador, o fato ajuda a explicar a demora para que a Ponte tenha um mandatário negro. “Faltou representatividade [negra] no comando do futebol, embora ela sempre tenha sido grande entre os torcedores”, comenta Neto. O pesquisador enxerga em Tiãozinho não apenas uma exceção, mas alguém que “conhece a história e age em função da mudança”.

A mudança começou a partir da nomeação dos novos componentes da diretoria executiva da Ponte Preta sob o comando de Sebastião Arcanjo. Entre outros, o presidente anunciou Marcos Antonio Ignacio da Silva como segundo diretor financeiro, Sérgio Roberto Acácio como diretor jurídico e Moacir Benedito Pereira como diretor comercial e de marketing. Os três negros vão na contramão do cenário atual do futebol brasileiro ― somente Goiás e Grêmio possuem negros chefiando diretorias de futebol nas principais divisões do campeonato nacional. Ele também nomeou Graziela Andrade como primeira secretária. “Minhas escolhas também levam em conta os currículos, mas o mito da meritocracia é insuficiente para promover a inclusão em um país marcado pelo racismo”, comenta Tiãozinho.

Diretoria e presidente ainda não definiram quem será o diretor de futebol da Ponte em 2020, cargo responsável por comandar o departamento profissional da Macaca. Mas, para Tiãozinho, é certo que a escolha também passará pelo critério da inclusão: “[O critério] precisa ser considerado. Queremos promover um programa racial no clube, não só na diretoria”. O mandatário conta que a ideia inicial ainda precisa ser consolidada e, para isso, mantém contato com a gestão do Bahia, clube que se popularizou ao adotar uma agenda de combate aos preconceitos no futebol. “A partir da conversa com eles, verificaremos quais ações são possíveis para o futuro. Eles são nossa inspiração”, conclui Tiãozinho. “E tomara que possamos inspirar mais clubes”.