Ponte Preta acena na contramão do futebol brasileiro com um inédito presidente negro

Conhecedor do histórico pontepretano contra o racismo, o mandatário Tiãozinho busca usar o cargo para implementar uma política de inclusão racial dentro do clube

Torcida da Ponte Preta em Ribeirão Preto, no dia 30 de setembro de 2019.
Torcida da Ponte Preta em Ribeirão Preto, no dia 30 de setembro de 2019.Ponte Preta

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A Ponte Preta é um dos clubes que se destacam historicamente no combate ao racismo dentro do futebol brasileiro. Logo em 1900, 12 anos após a abolição da escravatura, o primeiro time principal da Macaca contava com Miguel do Carmo, negro e jogador de futebol, antes de qualquer outra equipe do país, motivo pelo qual os pontepretanos reivindicam o título de primeira democracia racial no esporte do Brasil. Apesar do pioneirismo, a equipe campineira demorou mais de um século para eleger um negro como representante máximo da instituição. Foi apenas em novembro de 2019, quando Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, herdou o cargo de presidente do clube após a renúncia de José Armando Abdalla. No momento que assumiu, Arcanjo também se tornou o único presidente negro entre os clubes das séries A e B do campeonato brasileiro. E, na contramão dos principais adversários, ele chegou anunciando três negros e uma mulher para compor a diretoria executiva da Ponte. “Obviamente a inclusão foi um critério, porque ela é necessária e atual”, conta Tiãozinho.

Sebastião foi vereador e deputado estadual pelo PT em Campinas antes de ser eleito vice de Abdalla no time de coração, onde anteriormente atuou como diretor de futebol. Hoje, o mandatário quer usar sua posição no clube para combater as desigualdades que identifica na sociedade. “Em qualquer organização, nós, negros, estamos a quilômetros das tomadas de decisão. No futebol, não somos notados além das quatro linhas. Vivemos em um país que está acostumado a mandar em nós e não a receber nossas ordens, por isso tenho um grande desafio pela frente”, diz o presidente.

Tiãozinho reclama da demora da Ponte em eleger um representante negro, mas admite que o problema reflete a “fotografia” da sociedade brasileira. “O nível de qualificação exigido fora de campo no futebol nos afasta. A estrutura acadêmica do Brasil obriga os mais pobres a escolherem entre estudar e trabalhar, e o negro normalmente precisa escolher o trabalho, o que nos afasta das atividades mais prestigiadas”. O presidente liga a falta de oportunidades ao país “historicamente racista”, mas vê na Ponte Preta, também pelo aspecto histórico do clube, o cenário ideal para combater a discriminação racial.

A trajetória dos negros no clube campineiro começa com Miguel do Carmo em 1900 e se estende pelos anos seguintes. Doze anos após a fundação, a Ponte Preta venceu pela primeira vez a Liga Operária de Foot-Ball Campineira com três negros no time: Amparense, Moraes e Benedito Aranha. “O goleiro Amparense foi o primeiro ídolo do clube”, conta José Moraes dos Santos Neto, historiador e pesquisador pontepretano. “Ter um presidente negro é resgatar e valorizar a memória da Ponte”, comemora ele.

A partir da década de 1920, a Ponte passou a sair de Campinas para disputar jogos em outras cidades. Conforme relata Neto, a torcida alvinegra acompanhava o time pelo interior paulista através das ferrovias do estado e, quando chegava na cidade onde o time jogaria, fazia o caminho da estação de trem até o estádio festejando pelas ruas. “Esse comportamento da torcida, que era em grande parte formada por mulatos e negros, fez com que ela recebesse o apelido racista de ‘macacada’. Os campineiros pegaram esse preconceito e usaram como símbolo”. Hoje, a Ponte Preta tem o apelido de Macaca Querida e, além da versão fêmea, tem também um gorila como mascote.

No mesmo período, curiosamente, o clube também começou a receber influência da antiga elite campineira, formado por médios e grandes comerciantes brancos. Segundo o historiador, o fato ajuda a explicar a demora para que a Ponte tenha um mandatário negro. “Faltou representatividade [negra] no comando do futebol, embora ela sempre tenha sido grande entre os torcedores”, comenta Neto. O pesquisador enxerga em Tiãozinho não apenas uma exceção, mas alguém que “conhece a história e age em função da mudança”.

A mudança começou a partir da nomeação dos novos componentes da diretoria executiva da Ponte Preta sob o comando de Sebastião Arcanjo. Entre outros, o presidente anunciou Marcos Antonio Ignacio da Silva como segundo diretor financeiro, Sérgio Roberto Acácio como diretor jurídico e Moacir Benedito Pereira como diretor comercial e de marketing. Os três negros vão na contramão do cenário atual do futebol brasileiro ― somente Goiás e Grêmio possuem negros chefiando diretorias de futebol nas principais divisões do campeonato nacional. Ele também nomeou Graziela Andrade como primeira secretária. “Minhas escolhas também levam em conta os currículos, mas o mito da meritocracia é insuficiente para promover a inclusão em um país marcado pelo racismo”, comenta Tiãozinho.

Diretoria e presidente ainda não definiram quem será o diretor de futebol da Ponte em 2020, cargo responsável por comandar o departamento profissional da Macaca. Mas, para Tiãozinho, é certo que a escolha também passará pelo critério da inclusão: “[O critério] precisa ser considerado. Queremos promover um programa racial no clube, não só na diretoria”. O mandatário conta que a ideia inicial ainda precisa ser consolidada e, para isso, mantém contato com a gestão do Bahia, clube que se popularizou ao adotar uma agenda de combate aos preconceitos no futebol. “A partir da conversa com eles, verificaremos quais ações são possíveis para o futuro. Eles são nossa inspiração”, conclui Tiãozinho. “E tomara que possamos inspirar mais clubes”.

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