TERMÔMETRO ECONÔMICO E SOCIAL DA AMÉRICA LATINA

América Latina acelera a adoção de ônibus elétricos

A substituição de ônibus a gasolina por veículos elétricos, com modelos de negócios inovadores, é algo que pode ser imitado em todo o mundo, segundo relatório da IFC/Banco Mundial e da C40

Usuários do Transmilênio em Bogotá durante a pandemia.
Usuários do Transmilênio em Bogotá durante a pandemia.Jairo Bedoya / Banco Mundial

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Em meio às tristes notícias sobre o agravamento e prolongamento da pandemia de covid-19, a América Latina tem um motivo para estar esperançosa: a região pode motivar o resto do mundo a adotar gradualmente os ônibus elétricos, o que ajudará as cidades a serem mais sustentáveis no pós-pandemia.

Essa é uma das principais conclusões do estudo Liderando uma recuperação urbana limpa com ônibus elétricos - Modelos de negócios inovadores mostram grande potencial na América Latina (em inglês), publicado pela Corporação Financeira Internacional - IFC (braço do Grupo Banco Mundial para o setor privado) e C40 (uma rede de cidades comprometidas com a redução das mudanças climáticas).

O documento destaca os avanços significativos de países como Chile e Colômbia. Santiago conta com 776 ônibus elétricos, que operam com contratos privados. Da mesma forma, Bogotá anunciou em janeiro que modernizará a frota do Transmilênio com 596 novos ônibus, chegando a um total de 1.485 veículos elétricos (“a maior frota fora da China”, destacaram as autoridades locais; o país asiático tem quase 98% da ônibus elétricos do planeta).

Segundo os autores, Anthony Courreges (da C40) e John Graham (IFC), o segredo da América Latina está nas parcerias público-privadas (PPPs) inovadoras ou nos modelos de concessão nos quais os fornecedores financiam, adquirem e mantêm as frotas, disponibilizando os ônibus elétricos para operadoras ou municípios sob contratos de longo prazo. Assim, as operadoras ou municípios ficam liberados de cuidar da propriedade e da operação. “Esse modelo permite que todas as partes interessadas façam o que fazem de melhor”, afirma o relatório.

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Um modelo diferente

O modelo difere dos que existem na maioria das cidades do mundo, onde os ônibus são propriedade de um órgão público ou de uma única operadora privada, que adquire, opera e mantém a frota de acordo com os requisitos do contrato. “Por várias razões, nenhuma dessas partes está bem posicionada para liderar uma transição em larga escala baseada em investimentos para frotas elétricas”, acrescenta o estudo.

Isso é ainda mais preocupante quando consideramos o impacto da covid-19 nas agências de transporte municipal.

Entre março e abril de 2020, o número de passageiros nos sistemas de transporte público diminuiu em média entre 70% e 90%, provocando uma diminuição das receitas, enquanto o custo de implementar novas medidas de higiene e segurança aumentou significativamente.

No Brasil, por exemplo, a Transformative Urban Mobility Initiative (TUMI) indicou que os sistemas de transporte urbano estavam perdendo até R$ 1 bilhão por dia apenas para manter o sistema operacional.

Em um ambiente no qual os participantes tradicionais não conseguem liderar a transição para os ônibus elétricos, modelos de negócios como o leasing —amplamente usado em outras indústrias, como logística ou transporte aéreo— podem ajudar as cidades a modernizar suas frotas, com menos riscos e maior chance de sucesso, de acordo com o relatório.

Uma alternativa lucrativa

Apesar dos muitos desafios, há boas notícias: conforme os custos de aquisição e operação diminuem, os ônibus elétricos surgem cada vez mais como uma alternativa econômica aos veículos movidos a combustíveis fósseis.

“Embora os ônibus elétricos e a infraestrutura de carregamento possam consumir até duas a três vezes mais capital (inicialmente) do que as opções de ônibus a diesel, os custos da bateria e as despesas operacionais anuais estão caindo. O desempenho e a confiabilidade dos ônibus elétricos também estão melhorando rapidamente. Os fabricantes estão produzindo veículos mais leves e eficientes, com bateria de longa duração e desempenho mais confiável, com garantias melhores”, afirma o relatório.

De acordo com o estudo, as agências de transporte vêm notando que o custo total de propriedade dos ônibus elétricos —que leva em consideração o investimento de capital inicial, os custos de operação e manutenção, e outros indiretos ao longo da vida útil do veículo— já estão iguais aos dos modelos a diesel. “Indo ainda mais longe, quando o cálculo inclui melhorias na qualidade do ar e redução nas emissões de gases de efeito estufa, a balança pende ainda mais a favor dos ônibus elétricos”, acrescenta o documento.

O relatório identifica riscos e oportunidades semelhantes aos experimentados pelos participantes dos setores eólico e solar há uma década. A capacidade instalada cresceu desde então graças a melhorias tecnológicas e economias de escala.

“Com a força bruta da tecnologia e da produção em escala, o mesmo acontecerá com o mercado de ônibus elétricos, impulsionado por governos ávidos por limpar seus sistemas de transporte e uma série de participantes do setor privado (incluindo investidores, bancos, fabricantes e seguradoras) que querem investir no setor de infraestrutura sustentável. O segredo é alinhar essa intrincada rede para gerar concorrência, transparência e um retorno razoável para todos os participantes”, afirmam os autores do relatório.

A criação de um sistema de transporte público sustentável já era essencial antes da pandemia, quando as cidades começaram a sofrer os impactos das mudanças climáticas – como secas ou chuvas mais intensas –, e será ainda mais em um futuro próximo, no qual a infraestrutura terá um papel decisivo na recuperação econômica pós-pandemia.

Mariana Kaipper Ceratti é comunicadora on-line do Banco Mundial

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