Pandemia de coronavírus

Economia argentina encolhe 26% no primeiro mês da quarentena

Desabamento da atividade registrado em abril não tem antecedentes na história do país

Funcionário em um frigorífico argentino.
Funcionário em um frigorífico argentino.DANIEL GARCIA / AFP

O poço da recessão argentina parece não ter fundo. A atividade econômica de abril, o primeiro mês completo sob quarentena, teve uma retração de 26,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, puxada pela paralisia da construção, do comércio e da indústria. É o pior resultado da história. Não é pouca coisa em se tratando de país acostumado ao tobogã das crises econômicas. Em março de 2002, quando a Argentina se afundava na bancarrota do corralito, o PIB caiu 16,7%. O dado de abril antecipa o que será o terceiro ano de queda consecutiva do PIB, com uma previsão negativa do menos 10 pontos.

A Argentina vive uma das quarentenas mais rigorosas da América Latina. O confinamento e a paralisia da atividade mantiveram os casos positivos de coronavírus sob controle, com 62.000 infectados e menos de 1.280 mortos. A partir desta quarta-feira, o confinamento voltará à sua etapa mais dura na cidade Buenos Aires e sua área metropolitana, responsável pela metade do PIB nacional e também por 9 em cada 10 casos de covid-19. A quarentena está sendo um sucesso sanitário, mas com sérias consequências econômicas. O Estimador Mensal de Atividade Econômica (EMAE), que antecipa os dados do PIB, caiu 17,5% em abril com relação a março, mês que teve 10 dias de quarentena, e 26,4% sobre a cifra de abril/19. A queda acumulada nos primeiro quatro meses do ano é de 11%.

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Todos os setores econômicos se contraíram em abril, liderados pela construção (-86,4%) e hotéis e restaurantes (-85,6%). Caíram inclusive setores que não fecharam totalmente, como o agronegócio (10,3%) e a saúde (32,6%), que funcionou a meia máquina à espera de um pico da pandemia que acabou demorando.

O cenário não poderia ser pior. A Argentina já soma dois anos de contrações do PIB, e 2020 aprofundará a recessão ainda mais. Um relatório da ONU calculou uma queda de 10%, mas consultorias privadas locais estimam que pode ser até de 12%. Em 2002, ano da pior crise da história argentina, a economia caiu 10,9%. Seguiu-se, entretanto, uma rápida recuperação, impulsionada pela locomotiva chinesa e pelos preços recordes das matérias-primas, item em que a Argentina é mais forte. Neste ano, tudo será diferente.

O Governo de Alberto Fernández, há pouco mais de seis meses no cargo, tem pendente uma complexa reestruturação da dívida argentina com credores privados. São 66 bilhões de dólares, (356,6 bilhões de reais) aos quais logo mais se somará outra negociação de 44 bilhões de dólares (237,8 bilhões de reais) que o Governo de Mauricio Macri recebeu do FMI.

Fernández anunciou na sexta-feira uma volta à fase 1 da quarentena na Grande Buenos Aires. O presidente disse que entendia as consequências econômicas do confinamento, mas insistiu na ideia de “salvar vidas”. “A economia se resolve”, afirmou, vaticinando uma iminente recuperação, inclusive na contramão da sensação de catástrofe que assola muitos argentinos.

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