Aviação

Embraer abre processo de arbitragem contra Boeing após desistência de acordo de fusão

Jair Bolsonaro afirma que Governo poderá negociar venda da companhia brasileira com outra empresa

ERIC PIERMONT / AFP

A Embraer anunciou nesta segunda-feira que abriu um processo de arbitragem contra a Boeing, após a fabricante norte-americana de aviões ter cancelado no fim de semana a compra do controle da divisão de aviação comercial da companhia brasileira avaliado em 4,2 bilhões de dólares (23,5 bilhões de reais). A arbitragem é um mecanismo usado na solução de conflitos em negociações sem envolver a Justiça. O modelo é mais ágil e dispensa alguns protocolos do judiciário. Ao invés de um juiz, o processo é julgado por uma pessoa eleita pelos envolvidos e especialistas na área. A informação sobre a medida foi dada durante conferência com jornalistas e publicada em comunicado direcionado aos acionistas

Mais informações

O processo é uma tentativa da companhia brasileira amenizar as perdas sofridas com o cancelamento do negócio. No ano passado, a empresa brasileira investiu 485 milhões de reais para preparar a venda da divisão comercial à fabricante norte-americana. Na manhã desta segunda-feira, a quebra do acordo se refletia nas ações da Embraer, que despencaram cerca de 15% na abertura das negociações. No início da tarde, a companhia recuperou um pouco as perdas, e os papéis da empresa passaram a cair 11%. Em teleconferência, o presidente-executivo da Embraer, Francisco Gomes Neto, não quis dar mais detalhes sobre o processo de arbitragem e se a empresa poderá abrir um processo na Justiça do Brasil ou Estados Unidos. Executivos da Embraer tentaram mostrar aos investidores que a companhia continua sólida, afirmando que não teve nenhuma encomenda de avião cancelada por conta da crise do coronavírus. Apesar disso, Gomes Neto disse que 2020 será “difícil” e que 2021 “será pior do que esperávamos”. O presidente-executivo afirmou ainda que deve focar inicialmente em uma reestruturação interna. “Nós vamos fazer primeiro a lição de casa, e nós precisamos de algum tempo para isso. Vamos pensar sobre próximos passos estratégicos para nossa aviação comercial”, afirmou.

Na manhã desta segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro afirmou à jornalistas que o Governo acompanha os desdobramentos do cancelamento e que uma negociação com outra companhia não está descartada. “Estamos avaliando. Tem golden share minha [ação preferencial com direito a veto em decisões importantes atualmente], eu assino. E se o negócio realmente for desfeito, talvez se recomece uma negociação com uma outra empresa”, disse Bolsonaro.

Neste sábado, em uma dura nota de resposta à fabricante norte-americana, a Embraer disse acreditar firmemente que a Boeing rescindiu indevidamente o acordo global da operação (MTA) e adotou um “padrão sistemático de atraso e violações repetidas” ao acordo, devido à “falta de vontade” em concluir a transação. Segundo a companhia brasileira, a Boeing “fabricou falsas alegações” como pretexto para tentar evitar os compromissos para concluir a transação e pagar à companhia o valor da compra. A fabricante brasileira afirmou ainda que a condição financeira da Boeing, o programa 737 MAX e “outros problemas comerciais e de reputação” também seriam os motivos pela desistência do acordo entre ambas. Já a Boeing responsabilizou a companhia pela não conclusão do negócio. Em nota, afirmou que “exerceu seu direito de rescindir (o contrato) após a Embraer não ter atendido as condições necessárias”, mas não especificou quais eram as condições.

Nos últimos três meses, a Boeing foi a empresa com pior desempenho no índice Dow Jones da Bolsa de Nova York, retrocedendo mais de 50% desde meados de janeiro. Antes da crise do coronavírus, a empresa aeronáutica já enfrentava problemas. Fechou o exercício de 2019 com prejuízos de 636 milhões de dólares, seu primeiro resultado anual negativo em décadas, devido principalmente ao veto internacional ao que era seu avião-estrela, o 737 Max, depois de dois acidentes que deixaram 346 mortos. A Embraer, que tem 16.000 funcionários no Brasil e outros 2.500 no exterior, também passa por uma situação difícil como o resto das empresas do setor aéreo. A crise do coronavírus levou ao adiamento de pedidos, e as perspectivas de negócio são sombrias.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50