CHAMPIONS LEAGUE 2020

PSG e a competição financeira desleal dos clubes europeus

A punição de dois anos ao Manchester City por descumprir o ‘fair play’ contábil marca um antes e um depois na gestão de times como o francês, que joga nesta terça pela Champions League

O atacante Neymar treina pelo PSG. Depois de ficar ausente por quatro jogos, ele voltou a ser relacionado para a partida na Champions.
O atacante Neymar treina pelo PSG. Depois de ficar ausente por quatro jogos, ele voltou a ser relacionado para a partida na Champions.LEON KUEGELER / Reuters

A punição que a UEFA impôs ao Manchester City, de duas temporadas sem poder participar de competições europeias por ter falsificado suas contas com o objetivo de contornar o controle financeiro da organização europeia, significa um antes e um depois na existência dos chamados clubes-Estado. Esse qualificativo é aplicado principalmente ao sancionado Manchester City, financiado pelos Emirados Árabes Unidos por meio da holding City Football Group, e ao Paris Saint-Germain, apoiado pelo governo do Catar por meio da Qatar Investments. O time francês enfrenta nesta terça o Borussia Dortmund, às 17h (horário de Brasília), pela partida de ida das oitavas de final da Champions League.

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Desde que os dois Estados entraram no setor do futebol em 2008 e 2011, respectivamente, os clubes mais tradicionais e poderosos da Europa olharam com receio para o aparecimento de xeiques sem escrúpulo nenhum para fazer investimentos milionários que engordaram o mercado. Real Madrid, Bayern de Munique, Barcelona, ​​Juventus, Liverpool e Manchester United exerceram forte pressão para que a UEFA tomasse medidas contra o que consideravam uma competição desleal que ameaçava suas hegemonias. “Para mim, a punição poderia até ter chegado antes. Já estava na hora de se intervir diante dessa ameaça ”, diz Javier Tebas, presidente da LaLiga.

Atraídos pelo poderoso impacto propagandístico do futebol, os Emirados Árabes Unidos e o Catar entraram no mundo do esporte para criar modelos baseados em seu poder econômico. Antes que Mansour bin Zayed, vice-primeiro-ministro dos Emirados Árabes, ministro de Assuntos Presidenciais e membro da família real de Abu Dhabi, decidisse investir no Manchester City, as vitrines do clube ostentavam dois títulos do campeonato inglês (1936 e 1968), quatro da FA Cup (1904, 1934, 1956 e 1969) e uma Recopa Europeia (1970). Diante da opulência econômica e da heráldica de seu vizinho, o Manchester United, o City tinha ficado reduzido ao orgulho de representar a classe trabalhadora da cidade. Doze anos depois e após 2 milhões de euros investidos em contratações, quatro Premier League (2012, 2014, 2018 e 2019) e duas FA Cup (2011 e 2019) engordaram a lista de títulos do clube.

Pressões internas

Com o capital dos Emirados, o City se tornou uma das grandes potências financeiras e futebolísticas do panorama mundial. Suas ramificações, por meio de clubes franqueados em Nova York, Melbourne, Yokohama, Montevidéu, Sichuan e Girona, lhe permitiram uma expansão que reforçou sua marca e aumentou o temor dos concorrentes. Desde que assumiu o cargo de presidente da UEFA em 2015, o esloveno Aleksander Ceferin sentiu a pressão dos grandes clubes para tomar medidas sobre o fair play financeiro.

O PSG também viu aumentar sua lista de títulos desde a chegada do capital do Catar. Desde 2011 e com cerca de 1,5 bilhão de euros (7 bilhões de reais) destinados à compra de jogadores, estabeleceu uma forte hegemonia na Ligue 1, depois de conquistar seis dos últimos oito títulos. Antes havia ganhado dois campeonatos franceses (1986 e 1994) e oito Copas da França, acrescidas de outras quatro desde que a Qatar Investments comprou o clube. O PSG esteve prestes a ser punido pela UEFA na temporada passada. Fontes familiarizadas com o seu caso dizem que "irregularidades semelhantes cometidas pelo City, patrocínios inflados, também estavam em seu processo". A Câmara de Investigação do Controle Financeiro dos Clubes da UEFA decidiu arquivar o caso, mas a Câmara Adjudicatória o reabriu. O PSG recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) e a corte suíça lhe deu razão.

O clube parisiense foi absolvido sem chegar a ser investigado de novo. A figura de seu presidente, Al-Khelaifi, atual membro do Comitê Executivo da UEFA, e o conflito de interesses ao qual o organismo europeu estava submetido por ser o Catar, através do BeIN Sports, o proprietário dos direitos de transmissão da Champions, foi decisivo para evitar a sanção.

“O Catar está bem posicionado, na UEFA com Al-Khelaifi e a FIFA porque organizará a próxima Copa do Mundo. O City não buscou favoritismo com a UEFA. Ceferin nunca foi a favor de punir o PSG ”, afirma um dirigente do futebol europeu. A imagem da UEFA ficou muito enfraquecida aos olhos dos grandes clubes e das ligas profissionais depois de não punir o PSG. Agora ele deu exemplo com o City.

Uma temporada fora

Fontes próximas ao Manchester City afirmam confiar no recurso que apresentarão ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), na Suíça, para evitar a punição de dois anos sem participar de competições europeias. Essas mesmas fontes admitem que a sanção, embora esperada, é um contratempo no planejamento esportivo porque se dá em um período da temporada em que começam a fechar as futuras incorporações. O impacto financeiro de ser excluído da Champions é estimado em 25% do orçamento total do clube, próximo de 600 milhões de euros (2,8 bilhões de reais). O City alega ter "provas irrefutáveis" de que não violou os regulamentos da UEFA sobre o controle financeiro dos clubes.

Especialistas que conhecem o caso dizem, porém, que o clube inglês tem poucas chances de evitar a penalidade, que implica também uma multa de 30 milhões de euros (141 milhões de reais). Esses mesmos profissionais preveem, no entanto, que a dureza da punição esportiva pode ter uma leitura positiva para o City, se as duas temporadas sem disputar competições europeias ficarem, no final, sendo apenas uma.

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