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Primeiras imagens de Indiana Jones com 78 anos: cairá o mito de que um herói não envelhece?

O herói de ação interpretado por Harrison Ford se tornou tendência nas redes depois da publicação de algumas imagens da rodagem do novo filme da série, em que o personagem aparece como é hoje: um homem de quase 80 anos com máscara

Harrison Ford em ‘Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal’, o filme que demonstrou que em 2008 já éramos tão nostálgicos dos anos oitenta como somos agora. O ator tinha 65 anos.
Harrison Ford em ‘Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal’, o filme que demonstrou que em 2008 já éramos tão nostálgicos dos anos oitenta como somos agora. O ator tinha 65 anos.Cordon Press

Há uma frase atribuída ao diretor John Carpenter que aparentemente soltou quando lhe perguntaram por que não tinha dirigido nenhum outro filme da série de seu grande sucesso, Halloween – A Noite o Terror, e que, em sua simplicidade, contém uma grande verdade sobre nossa relação com a cultura. Disse algo como que as pessoas só queriam ver o mesmo filme repetidamente e ele não estava disposto a dar esse gosto aos espectadores.

Ele provavelmente tem razão. Na seção de autoajuda das livrarias isso seria chamado de zona de conforto. Existe uma série de filmes, canções, gêneros, odores e cores que nos devolvem ao útero materno ou, ao menos, a um momento que nossa memória pintou como feliz (embora qualquer pessoa com um pouco de sensatez não queira voltar a passar pelo incômodo e longuíssimo processo de ser criança ou adolescente). Existe, na verdade, um mecanismo na mente humana que nos habitua e nos acomoda na rotina, na mera repetição da mesma coisa indefinidamente: dormir, trabalhar, comer, sair no fim de semana. Assim sempre. O fato de que nada mude serve como equivalente a não termos envelhecido.

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Mas a ilusão é fácil de alfinetar e nesta manhã o Twitter despertou com esta foto: Harrison Ford, com 78 anos e usando máscara, vestido de Indiana Jones na rodagem do novo filme da saga, dirigido por James Mangold em vez de Steven Spielberg, que chegará aos cinemas no verão [no hemisfério norte] de 2022, quando o ator tiver 80 anos.

Desde então o termo Indiana Jones é tendência nas redes e a comunidade de tuiteiros, como sempre, disfarçou o susto com humor. “Pelo visto, nesta nova missão, o intrépido aventureiro terá de escapar de um fosso onde parou para contemplar uma obra”, escreveram. Mas, na realidade, há desolação porque Indiana Jones é agora aquilo que um herói nunca pode ser, um quase octogenário. Como é o século XXI: as barreiras de orientação sexual e de gênero são derrubadas, as mulheres estão finalmente começando a ser aceitas como heroínas de ação, a questão da diversidade neurológica e da saúde mental é trazida à tona e são desafiados –muito lentamente– os cânones da beleza normativa, mas ainda não sabemos o que fazer com essa incômoda e por enquanto insolúvel questão do envelhecimento.

Um super-herói pode envelhecer? Tom Cruise diria que não. Aos 58 anos, continua pendurado em coisas, lançando-se de coisas e caindo sobre coisas. Fará isso no sétimo filme da série Missão Impossível (estreia em maio de 2022) e no segundo de Top Gun (estreia neste verão). Isso significa que os três últimos filmes que Cruise rodou fazem parte de uma saga que nasceu há décadas e não deixa de ter consistência: o público quer ver Tom Cruise ou o público quer ver Tom Cruise interpretando os papéis que fez há 30 anos? A resposta pode ser encontrada comparando a morna acolhida de filmes que fez nos últimos anos, como Jack Reacher – O Último Tiro, Oblivion e A Múmia, com a espetacular repercussão dos mais recentes filmes da série Missão Impossível, que em média dobraram ou triplicaram a arrecadação destes outros filmes que não pertencem a uma saga. A propósito, uma super-heroína de ação pode envelhecer? É digno de comemoração que Linda Hamilton tenha aceitado aparentar os 62 anos que tinha em O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio (2019), mas infelizmente a proporção entre heróis e heroínas não nos permite encontrar muitos outros exemplos.

O problema não é que Harrison Ford, Linda Hamilton ou Tom Cruise envelheçam, mas que isso nos envelheça. Como quando vimos Miguel Indurain fraquejar no Tour de France de 1996 –atenção, Indurain tinha 32 anos na época, mas falamos sobre a idade dos atletas outro dia– ou Madonna cair de um palco em 2015. Seu herói fraqueja, você fraqueja. Dentro ou fora das telas, os ídolos são nossos espelhos e a questão não é apenas que o tempo os enruga e os achata, mas que no cinema não houve uma mudança de geração. Quem são hoje os novos Harrison Ford, Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Chuck Norris ou Bruce Willis? Somente The Rock e Jason Statham dão socos de verdade, enquanto o resto dos novos heróis se presta mais à fantasia multicolorida diante do croma verde nas sagas da Marvel.

Hoje provavelmente não precisamos mais daquele tipo de heróis duros e amorais da era Reagan porque o inimigo a bater já não é tão rude quanto comunistas, vietnamitas, selvagens de tanga de alguma floresta em alguma área empobrecida dos trópicos, russos ou extraterrestres que botam ovos. Hoje o mundo é muito mais complicado, os inimigos são invisíveis e é por isso que voltar àquela distribuição tosca e fácil de heróis e vilões traz alguma paz, mas a realidade golpeia: eles são velhos. Todos. Os vilões também. Pode-se dizer velhos? É que talvez nem possamos chamá-los de velhos porque nada é pior do que ser velho. O compositor Nacho Canut explicou ao EL PAÍS em 2019: “Se há algo que agora é preciso dissimular e que dá vergonha ou que se deve tentar evitar, é a velhice. Te perdoam por ser tudo o que quiser ser, mas velho, não “.

Harrison Ford e Sean Connery, no filme ‘Indiana Jones e a Última Cruzada’, de Steven Spielberg.
Harrison Ford e Sean Connery, no filme ‘Indiana Jones e a Última Cruzada’, de Steven Spielberg.

As plataformas digitais que entretêm o mundo conhecem essa necessidade já quase patológica do espectador de olhar para trás, para tempos que considera melhores e estão dispostas a satisfazê-la. Não é uma necessidade nova. Já nos anos noventa as crianças espanholas ficaram viciadas –graças às reprises no horário infantil– de A Família Brady, uma série dos anos setenta que na verdade já na época em que foi produzida jogava a carta de parecer ser dos anos cinquenta, uma época de retidão moral da qual muita gente sentia saudade 20 anos depois, quando se começou a falar de feminismo, racismo e homofobia. Netflix, HBO e Disney+ sabem que os grandes ases de seu catálogo são séries de vários anos atrás e estão dispostas a pagar quantias estratosféricas por seus direitos. Este ano, a Disney+ terá um totem de nostalgia em seu catálogo espanhol, Supergatas. A HBO pagou 425 milhões de dólares por Friends em 2020 (anteriormente disponível na Netflix) e algumas semanas atrás estreou um especial com o elenco original que atraiu milhões de espectadores: apenas nos Estados Unidos, de acordo com a Variety, 29% do público assinante da plataforma assistiu à série no primeiro dia. Outra opção para a nostalgia do que já foi visto (e nunca foi vivido) é criá-la e ponto final: Stranger Things é pura homenagem estética e de roteiro aos filmes de ficção científica dos anos oitenta e a Movistar+ acaba de estrear Paraíso, sua resposta espanhola, na qual em vez de The Police, The Cars ou Peter Gabriel se pode ouvir Me Colé en Una Fiesta [do grupo pop espanhol dos anos oitenta] Mecano.

De qualquer forma, pouco sabemos sobre o novo filme com Indiana Jones. Outras notícias dizem que um Harrison Ford rejuvenescido graças à tecnologia aparecerá em cenas de flashback. É possível que, em um precioso e consequente fecho para a questão da nostalgia, os super-heróis acabem sendo salvos de sua própria senilidade pela ficção científica.

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