Oscar 2021

O que assistir para chegar em dia ao Oscar 2021

Na lista de indicados deste ano, se sobressai o vigor do gênero documental e seu afã de denunciar desde o racismo à solidão da velhice. Uma lista para inspirar a maratona até domingo

Cena do filme 'Minari: em busca da felicidade'.
Cena do filme 'Minari: em busca da felicidade'.Josh Ethan Johnson

Ainda sem resposta concreta sobre se é uma arte capaz de mudar o mundo, o cinema continua tentando. Prova disso é a lista de indicados ao Oscar 2021, na qual se sobressai o vigor do gênero documental e seu afã político de denunciar desde o racismo à solidão e o abandono aos quais a sociedade condena seus velhos. Essa proposta de olhar cru e direto está presente mesmo nas obras de ficção, como é o caso de Nomadland, que concorre à estatueta de melhor filme. Mas também não falta o cinema autorreferente, que faz ode ao melhor da sétima arte. Na última semana antes da premiação, que acontece no dia 25 de abril, o EL PAÍS indica quais títulos assistir para se preparar para a grande noite dos Academy Awards.

O agente duplo

Antes da pandemia, os idosos já morriam sozinhos. Essa foi uma das premissas usadas pela cineasta chilena Maite Alberdi para filmar O agente duplo, que concorre ao Oscar de melhor documentário —a única obra latino-americana indicada este ano—. Em um terreno híbrido entre ficção e realidade, o telespectador acompanha um viúvo octogenário em sua missão secreta de investigar supostos maus tratos a outra idosa que vive em um asilo. Rodado como um filme de detetives, O agente duplo é, na verdade, um ensaio delicado sobre a solidão. Mas embora seja difícil não emocionar-se com o protagonista e suas amigas que vivem confinadas, o documentário fica longe de ser melodramático. Em algumas cenas, inclusive, é possível rir (e ao mesmo tempo chorar) da condição humana e do medo do abandono. O agente duplo está disponível no Globoplay.

Time

O documentário da Amazon Prime Vídeo, indicado ao Oscar nessa categoria, é, ao mesmo tempo, uma história de amor e uma denúncia do racismo no sistema prisional norte-americano. O longa dirigido por Garrett Bradley conta várias décadas da vida de Fox Rich enquanto ela luta pela liberdade do marido, Robert, que cumpre uma pena de 60 anos por um roubo a banco que o casal cometeu nos anos 1990. Costurado como um diário dessa mãe e seus seis filhos que cresceram longe do pai, Time apresenta cenas gravadas pelo próprio diretor e também imagens caseiras —selecionadas entre mais de 100 horas de vídeo— feitas por Fox, que gravou, ao longo de anos, o cotidiano familiar para mostrar ao amor de sua vida quando ele saísse da prisão.

Druk - mais uma rodada

Na categoria de melhor filme internacional, o destaque é o dinamarquês Druk - mais uma rodada, que também concorre à melhor direção, feita por Thomas Vinterberg. Na trama, quatro professores decidem fazer um experimento psicológico e beber todos os dias, da hora que acordam até as oito da noite, inclusive durante o expediente, para testar os supostos benefícios do álcool em seu desempenho social e profissional. É claro que o experimento têm mais a ver com o desejo de curtir a vida adoidado e tapar buracos das crises da vida adulta —um não se conecta com a própria família, outro não tem família, o seguinte está recém começando uma—, mas o que move o filme é a pulsão pela vida em si, com suas dores e alegrias, sua euforia e suas ressacas. Tudo contado com graça, perplexidade, sentimento e humanismo. Druk - mais uma rodada está disponível nas plataformas Now, iTunes, Apple TV, Google Play e YouTube Filmes. Leia a crítica de Carlos Boyero sobre o filme: Uma jornada gloriosa e alcoólica.

Nomadland

Um dos favoritos a levar a estatueta de melhor filme, depois de ser aclamado no Festival de Veneza e de levar as quatro principais categorias do Bafta, Nomadland é um retrato humano da devastação deixada pela crise econômica de 2008, focado na figura de uma mulher —interpretada com aspereza e dignidade por Frances McDormand, que concorre como melhor atriz— que, após a destruição do povoado minerador onde vivia, passa a morar e viajar pelos Estados Unidos em um trailer, fazendo bicos em cada cidade onde para. Baseado no livro homônimo de não ficção de Jessica Bruder, o longa dirigido por Chloé Zhao também está indicado ao Oscar de melhor direção, roteiro adaptado, edição e fotografia. Um dos grandes trunfos técnicos do filme é justamente o uso da luz natural, os planos abertos e gravados com câmera à mão que parecem engolir o espectador e dão um certo ar documental ao longa. Nomadland está em cartaz nos cinemas e ainda não tem data de estreia em plataformas de streaming.

Mank

Mank, a visão de David Fincher sobre a filmagem de Cidadão Kane, disponível na Netflix, é o favorito do Oscar 2021, com 10 indicações. O filme de Fincher se centra na figura de Herman J. Mankiewicz, roteirista de Cidadão Kane ao lado de Orson Welles. Ao contrário do gênio Welles, esnobado pela Academia, Mankiewicz (ou Mank, como era conhecido) era bastante estimado em Hollywood e especula-se que foi graças a ele que Cidadão Kane ganhou seu único Oscar, justamente o de melhor roteiro, apesar de disputar nove categorias. O trunfo Mank, além de se desdobrar sobre uma das maiores obras da sétima arte, é sua potência técnica, não só pela fotografia em preto e branco, mas por todo o cuidado estético que vai até à captação e edição de som, um som mais abafado, quase sujo, característica dos anos quarenta e nos primórdios o cinema falado.

O som do silêncio

O som do silêncio é uma aula de imersão sonora. O longa escrito e dirigido por Darius Marder conta o drama vivido por Ruben (interpretado por Riz Ahmed), um baterista que leva uma vida nômade com a namorada, com quem forma um duo de metal, até que um dia descobre que perdeu 80% da audição. A partir daí, Ruben passa a viver em uma comunidade de surdos, cuja proposta é aprender a conviver com a surdez e não a corrigi-la. Com um trabalho excepcional de design e mixagem de som, o filme mergulha o espectador em silêncios que vão da ansiedade e desespero até a paz espiritual, ao mesmo tempo em que valoriza os ruídos que passam desapercebidos no cotidiano: o barulho do liquidificador, uma respiração ofegante, a vassoura no chão. O som do silêncio concorre ao Oscar de melhor filme, melhor roteiro original, melhor som, melhor edição e melhor ator e está disponível na Amazon Prime Vídeo.

Minari: em busca da felicidade

O cineasta norte-americano Lee Isaac Chung escreveu o roteiro de Minari: em busca da felicidade em apenas três meses, talvez porque já levasse a história dentro de si. O longa, indicado ao Oscar de melhor filme —e de melhor direção, melhor ator (Steven Yeun), atriz coadjuvante (Yuh-Jung Youn), roteiro original e trilha sonora—, é baseado na infância do diretor e na rotina de sua família sul-coreana como imigrantes na zona rural do Arkansas (EUA). De tragédia em tragédia (pequenas e grandes), mas sempre com a sensibilidade do olhar do protagonista David Yi (interpretado com maestria por Alan Kim, de sete anos), o espectador acompanha a busca pelo sonho americano, dessa vez com uma fotografia, direção e trilha sonora que transformam o comum em etéreo. Subjetividade, talvez, seja a palavra que melhor descreve o filme. Minari: em busca da felicidade está em cartaz nos cinemas e ainda sem previsão de estreia nas plataformas de streaming.

Uma canção para Latasha

Mais uma prova do vigor e poder do gênero documental, Uma canção para Latasha, que concorre ao Oscar de melhor documentário em curta-metragem, é uma carta de amor político. Latasha Harlins, uma adolescente negra de 15 anos, morava em Los Angeles com a avó e passava os dias estudando e fazendo grandes planos com a prima e melhor amiga. Queria ser advogada e também ter um negócio próprio. Em 16 de março de 1991, seus sonhos e sua vida foram interrompidos por Soon Ja Du, dona de uma loja de conveniência que atirou nela após acusá-la de roubar uma caixa de suco de laranja que custava um dólar e setenta e nove centavos. Trinta anos depois, diretora Sophia Nahli Allison reconta essa história com a narração de Shinese, melhor amiga de Latasha, que derrama sua dor ao longo de 18 minutos costurados com imagens que contam tanto quanto ou mais que o relato. Uma canção para Latasha está disponível na Netflix.

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