Filosofia

Espinoza superstar

Uma avalanche de novidades e novas traduções demonstram a atualidade do filósofo, mestre absoluto da modernidade que foi condenado ao ostracismo em seu tempo por pensar contra a superstição

ILUSTRACIÓN DE CÉSAR SEBASTIÁN / FOTOGRAFÍA DE LINO ESCURÍS

Qualquer das janelas de Pieter de Hooch, essas de marco branco e amolecido pela chuva sobre o tijolo vermelho, poderia ser a do estúdio de Espinoza. Ele não permanecia muito tempo no mesmo lugar. Como fizera Nietzsche em busca de um clima benigno, partia em busca de maior tranquilidade. Não pela inclemência do próximo, mas pela necessidade de se recluir em silêncio e pensar. Rijnsburg, Voorburg, Haia... terminava sempre em domicílios não muito amplos, um deles, o último, dividido em dois ambientes —o quarto e a oficina— por uma estante com cerca de 160 volumes, entre os quais se encontravam vários títulos de Descartes, os Elementa Philosophica de Cive de Hobbes, Flávio Josefo, Maquiavel, A Utopia de Thomas More, o Dictionarium Rabbinicum de Nathan ben Jechiel, e o De Vita Solitaria de Petrarca, além dos Diálogos de Amor de Leão Hebreu, enfim, livros de poemas de Quevedo e Góngora, as Novelas Exemplares de Cervantes e cinco bíblias, entre elas a Bíblia Sacra Hebraica na edição da Basileia de 1618.

Espinoza escreve à noite, contra a corrente de ideias que estão tornando a Europa uma encruzilhada, essa Europa que já esboçava, sem perceber, o organograma do desespero: o estável e o imperecível, a duração implícita de nossas empreitadas e crenças nas quais nos afirmamos, são ilusórios. Seu impossível cumprimento marcará um continente voltado a uma sistemática autoaniquilação que já é parte argumentativa de um porvir histórico, que se alimenta de seus apocalipses e do ressentimento que o não alcançado proporciona. Deus, inquebrantável até esse século XVII, já não recorda seu passado. Nessa amnésia está o núcleo da Modernidade, surge desse esquecimento, do estrépito de uma enorme fissura que se abriu no solo das convicções. As máquinas perfeitas, a apoteose da técnica, as invenções mais assombrosas, a arte, as ciências, a audácia do julgamento e da imaginação foram despojando de suas funções um Ser supremo que levava em cada mão um conjunto de destinos e os distribuía. Mas depois que esse Deus se afastou céu adentro e desapareceu, ficamos, enfim, nós, os criadores de realidade, os produtores de expiração. Porque a armadilha está, uma vez mais, na natureza de nossa Razão, que percebe “as coisas como que possuindo uma espécie de eternidade”, como se lê na Ética.

Espinoza pensa consigo mesmo que o divisível, em essência, é imperfeito; que a liberdade de consciência só pode acontecer num mundo laico. Franze a testa que se fala do além. Não, a atividade divina não responde a uma criação do acaso, mas ao que ele chamava de “causalidade necessária e imanente”. Está convencido de que aquilo que “é” não poderia existir de outro modo a não ser como existe, e que a essência não implica existência. Apesar das promessas do racionalismo, o ser humano não é, nem jamais será, um mundo autônomo. Mais propriamente o contrário: é fruto da contingência, puro pertencer a uma ordem infinita. Descartes não tem razão, mas reconhece que a sua foi uma engenhosidade muito sutil, pois, como antes fizeram outros, diz Espinoza, buscou “algo intermediário entre o ser e o nada”, e essa busca é vã porque implica afastar-se da verdade.

Ele, que fumava cachimbo como os personagens que tossem na pintura de Adriaen Brouwer, que cantarolava enquanto polia as lentes com insólita perfeição em seu pequeno estúdio, era visto como um homem sem fé. Os católicos não gostavam dele, os protestantes o censuravam e os membros de sua comunidade judaica, que abandonara por tédio, o odiavam. Um biógrafo chamado Kortholt, sem dúvida malicioso, ciente de que o filósofo havia falecido placidamente aos 44 anos, se perguntava “se tal qualidade de morte pode corresponder a um ateu”, a um “panteísta” que foi descansar num caixão que custou 18 florins, feito além disso por um cantor luterano com boas mãos para a carpintaria.

Conta Johannes Colerus que o filósofo frequentava em Amsterdã as aulas que o indomável e cético Frans van den Enden ministrava numa livraria e armazém de arte de sua propriedade. Murmurava-se que ali se respirava um ar ateísta. Ao recriminar Espinoza de que era impróprio de sua inquietude não ter um latim fluente, sugeriu que sua filha, Clara Maria, se tornasse sua professora. Dito e feito. Aquela jovem dominava tanto a língua latina quanto a música, e isso o cativou. Cabe imaginá-lo como uma das proverbiais figuras da pintura holandesa que escutam uma jovem enquanto a olham discretamente. E isso que o autor da Ética não era muito afeito à música, menos ainda à que obedecia a uma moda crescente na época, que destacava sobretudo a melodia. A única que podia atraí-lo era bem diferente: a simultaneidade de notas que compõem um todo, os acordes, sua engrenagem e sua progressão harmônica. A capacidade narrativa da melodia frente ao acontecer do plural; o discurso explícito, mas leve, frente à estrutura perfeita de uma ordem de sons geometricamente demonstrada. Só recorremos a uma metáfora, mas ela ajuda a entender um pensamento como o de Espinoza, que admite a existência de uma infinidade de formas infinitas que, embora atribuíveis a Deus, também são propriedade das coisas finitas. Mas como assim? Porque a verdade não depende, em nenhum caso, da duração.

Compreende-se que Espinoza seja o menos amargo dos filósofos, o menos ressentido por sua condição de mortal. Por isso escreve na Ética que quem se sente livre é porque não pensa na morte. Ele a desmascara como estratégia de coerção dos poderes políticos e religiosos. Isso torna tolerante aquele judeu de origem espanhola, indulgente com as carências da condição humana. Somos, a duras penas, o que somos. Daí ele não gostar, por exemplo, da representação pictórica das vanitas, pois nela há intransigência sobre nossas fraquezas. E a tristeza, o que fazer com a tristeza? Não é um disfarce do medo, a vitória antecipada de um sistema que nos impossibilita? Até mesmo a esperança e a necessidade de viver em segurança são servos seus. Nada é tão conveniente quanto apagar a melancolia, assim como a sede e a fome. E ele formulava tudo isso do coração de uma Europa que havia começado a cimentar o simulacro, a propagar a hipocrisia como tática, uma hipocrisia às vezes chamada poder; outras vezes, revolução; outras, abundância; e outras, igualdade. O viver nesse longo fingimento acabou confirmando que nossa situação é acessória, e que trabalhamos com verdadeiro afinco na grande e estrepitosa mentira.

Leituras (em espanhol)

Ética demostrada según el orden geométrico. Baruch Espinoza. Tradução e edição (em espanhol) de Pedro Lomba. Trotta, 2020. 448 páginas. 30 euros.

Biografías de Spinoza. Jelles, Bayle, Kortholt, Colerus e Lucas. Atilano Domínguez (ed.). Guillermo Escolar, 2020. 312 páginas. 22 euros.

Correspondencia. Baruj Spinoza Traducción de Atilano Domínguez. Guillermo Escolar, 2020. 400 páginas. 19,90 euros.

Spinoza. Una política del cuerpo social. Cristian Andrés Tejeda Gómez. Gedisa, 2020. 160 páginas. 16,90 euros.

El milagro de Spinoza. Frédéric Lenoir. Traducción de Ana Herrera. Ariel, 2019. 166 páginas. 18,90 euros.

Contra las mujeres. (In)justicia en Spinoza. Cecilia Abdo Ferez. Antígona, 2020. 118 páginas. 13 euros.


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