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Gwyneth Paltrow na Netflix, um problema de saúde pública

‘The Goop Lab’, o novo programa da plataforma, é um manual de instruções das falácias e argúcias com as quais os falsos remédios são defendidos

A atriz Gwyneth Paltrow.
A atriz Gwyneth Paltrow.REUTERS

A maior descoberta da saga de Austin Powers, aquela louca paródia de James Bond, foi nos lembrar que os capangas do supervilão também são gente. “As pessoas não sabem o quanto sofre a família de um capanga”, diz mortificada a viúva de um dos sicários do Dr. Evil após receber a fatídica ligação: seu marido morreu ao enfrentar o herói. Tudo é sofrimento na vida de um capanga, como bem mostram os goopers, os lacaios de Gwyneth Paltrow, na nova e polêmica série documentário da Netflix. Porque o objetivo do programa The Goop Lab, na Netflix, é a promoção da marca e o importante é, sem dúvida, o terrível dano que o show causa à confiança popular na ciência, na medicina e nas decisões informadas. Mas o verdadeiro fio condutor é protagonizado pelos minions do empório-crença de remédios alternativos e bobagens caríssimas dirigido por Paltrow, minha supervilã favorita.

Em todos os episódios vemos os goopers chorar, embarcando em viagens catárticas para testar remédios de escassa base científica

Paltrow, com seu sorriso angelical e suas lembranças de La Mancha, é uma ameaça à saúde pública. E se tornou quando começou a promover seu projeto, o portal de produtos ao bem-estar Goop, como os especialistas não param de repetir. E no caso atual, com a cumplicidade de uma plataforma de alcance planetário como a Netflix. Cada um dos seis capítulos do show são meia hora de testes contra ela, que decide submeter seus oompa-loompa hipsters a todo tipo de lorotas pseudocientíficas: exige dos trabalhadores riscos físicos e emocionais aos quais ela quase não se expõe, limitando-se a comentá-los do sofá. Paltrow age como o general que dirige as tropas em Takeshi’s Castle (game show japonês dos anos 80 e 90) dedicado à desinformação sanitária e seus funcionários como concorrentes que se jogam nos muros embarreados levantados pelos vendedores de tônico capilar.

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Em todos os episódios vemos os goopers chorar, embarcando em viagens catárticas para testar remédios com escassa base científica, com muita pornografia sentimental, retórica de autoajuda e frases de Mr. Wonderful. Em um dos episódios até mesmo quem não se espera que chore o faz: enquanto “uma das melhores médiuns do mundo” dá chutes no escuro inventando dados aleatórios para que encaixem na biografia da única funcionária cética, imediatamente aparece entre lágrimas outra mulher da equipe de filmagem convencida de que estão falando dela. “É o que acontece quando me abro”, afirma aliviada a mentalista, que escapa com total naturalidade do ridículo. Imaginem uma médica que receita o tratamento que uma pessoa da sala de espera precisa no lugar do paciente que está atendendo e se justifica dessa forma: “É que me abri muito e diagnostiquei o de fora”. No The Goop Lab isso é um sucesso, desde que você não tenha escrúpulos como a médium, Paltrow e o departamento de conteúdos da Netflix, que se permitem o luxo de começar cada episódio com um alerta de sete segundos que afirma que a série é para “entreter e informar, não para dar conselhos médicos”.

“A ciência ainda não está preparada para medir a cura através das energias”, afirma um pseudoterapeuta

O programa, entretanto, é um perfeito manual de instruções das falácias e argúcias com as quais os falsos remédios são defendidos, como transformar o pitoresco em teste e disfarçá-lo totalmente com aparência científica. Paltrow finge uma simples conversa entre amigas enquanto encoraja o receio a terapias médicas convencionais e não menciona os riscos das pseudoterapias que propõe. “As ideias médicas devem ser estudadas antes que possam ser oferecidas às pessoas como uma opção”, resume a ginecologista Jennifer Gunter, popular arqui-inimiga de Paltrow.

Um dos episódios é protagonizado por um charlatão que “canaliza a energia para curar” as pessoas com suas mãos e ninguém o questiona. Ele, por sua vez, se permite o luxo de dizer que é preciso atualizar a medicina com suas práticas: “A ciência ainda não está preparada para medir a cura através das energias”. Dessa forma, o show se transforma em uma tortura que mina a confiança nos verdadeiros especialistas. “Além de promover ideias e produtos que não foram testados, contribui à erosão do pensamento crítico”, afirma Tim Caulfield, especialista em saúde pública. Caulfield publicou há cinco anos um livro chamado Is Gwyneth Paltrow Wrong about Everything? (Gwyneth Paltrow está errada em tudo?) em que ataca um sistema de celebridades e imprensa que promovem entre o público a perigosa crença de que tudo tem remédio longe das consultas médicas.

De tempos em tempos, Goop lança uma ideia desbaratada que envolve a vagina, para lucrar com a polêmica

E é aqui que chegamos ao âmago do que esse programa significa: premiar o charlatanismo. Em todo esse tempo, as críticas a Goop cresciam tanto como sua conta de resultados (250 milhões de dólares (1,05 bilhão de reais) em 2018, de acordo com o New York Times). Paltrow não esconde que lucra com cada polêmica: “Monetizo esses globos oculares”, afirmou. E liga as controvérsias a uma palavra que grita muitas vezes aos seus seguidores: “Vagina! Vagina! Vagina!”. A atriz e empresária usa a sexualidade feminina como propaganda, como pretexto, como escudo diante das críticas e como fonte de polêmicas orquestradas para lucrar com a atenção que a imprensa lhe brinda. Procurem na Internet: de tempos em tempos, Goop lança uma ideia desbaratada que envolve a vagina: ovos de jade para introduzir na vagina, infusões para limpar a vagina, a vela com aroma de vagina. Há polêmicas, a imprensa promove, os produtos se esgotam (verdadeiros ou um simples truque promocional) e seu site se enche de olhos a monetizar. A imprensa não deve ser o porta-voz, mas os divulgadores e a imprensa devem rebater a mentira porque é sua obrigação. E qual é a imagem promocional do programa? Trolagem máxima: Paltrow dentro de uma vagina. Curiosamente, Paltrow não sabe o que é uma vagina e não se importa de que vejamos isso em seu programa.

— Está pronta para falar de vaginas? É nosso assunto favorito: Vaginas!, grita Paltrow.

— A vagina é só o canal do parto — uma sexóloga a corrige —, você precisa falar da vulva.

— É uma lição de anatomia que não… Pensava que a vagina era tudo…

Dá na mesma. Do mesmo modo que leva a nossas casas gurus que confundem conceitos básicos da medicina, ela pode ser a maior defensora das vaginas sem saber do que está falando. E não é um assunto de menor importância: muitas das críticas que choveram a Paltrow vêm de mulheres cansadas de seu falso feminismo marqueteiro, que usa a retórica de empoderamento para se defender das criticas enquanto reproduz os clichês antiquados da mulher que deve sofrer um calvário para se mostrar radiante aos outros... mediante pagamento. (Entro em seu site, seção Homens: só há blusas por mais de 450 dólares (1.880 reais) a peça. Tudo bem, não é para mim). Em The Goop Lab o sacrifício e a vontade desempenham um papel fundamental: se pular na água gelada não cura sua ansiedade, se a energia não é bem canalizada por seu corpo, é porque você não deu tudo de si. Além de diminuir a confiança na medicina, tem uma mensagem profundamente individualista e classista: todos nós podemos ser tão intuitivos, energéticos e resistentes como os charlatães de Goop, mas você só irá se curar se esforçar-se e se puder pagar um caro personal trainer e uma viagem para se drogar na Jamaica. Se você gosta que a doença seja banalizada, que o bem-estar seja mercantilizado e a saúde pública seja colocada em risco, até hoje você tinha o YouTube; agora, também tem a Netflix.